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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAGEM AO TECTO DO MUNDO - O TIBETE DESCONHECIDO»
Capa do livro TIBETE.jpg


Caras Amigas, caros Amigos,

Convido todos a estarem presentes no lançamento do meu novo livro, «VIAGEM AO TECTO DO MUNDO- O TIBETE DESCONHECIDO», da Editorial Presença, que acontecerá no dia 9 DE MAIO, pelas 16:00, no Espaço EDP, na Feira do Livro de Lisboa.

Todos são bem vindos!

Um obrigado antecipado pela vossa presença!

Joaquim Magalhães de Castro
publicado por JoaquimMDC às 20:37
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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
Apresentação do livro «Mar das Especiarias», de Joaquim Magalhães de Castro
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Caros amigas/os,

Durante o mês de Fevereiro vou fazer uma série de apresentações do livro «Mar das Especiarias», Editorial Presença, lançado em Abril do ano passado. (Ver Calendário).

Eis uma boa oportunidade para falarmos acerca do riquíssimo legado português ainda existente no arquipélago indonésio.

Em Anexo, envio informação relevante sobre o livro em questão.

A todos os que puderem estar presentes, sejam bem-vindos. Aos outros, aos que estão longe… sejam bem-vindos também!

Espalhem a notícia!

Um grande abraço,

Joaquim


Apresentação do livro «Mar das Especiarias», de Joaquim Magalhães de Castro

CALENDÁRIO do mês de FEVEREIRO

Dia 4 de Fevereiro, Palácio da Independência, Lisboa, pelas 18:30.
Com apresentação do historiador Jorge dos Santos Alves, Universidade Católica.

Dia 6 de Fevereiro – Salão das Termas, Caldas de São Jorge, pelas 20:00.
Com apresentação do médico e escritor Miguel Miranda.

Dia 7 de Fevereiro – FNAC do Norte Shopping, Porto, pelas 17:00.
Com apresentação do historiador Jorge Fernandes Alves, Universidade do Porto.

Dia 13 de Fevereiro – Biblioteca Municipal, Santa Maria da Feira, pelas 18:30.

Dia 19 de Fevereiro – Convento Corpus Christi, Vila Nova de Gaia, pelas 18:30
Com apresentação do historiador Vítor Teixeira, da Universidade Católica do Porto.
.
publicado por JoaquimMDC às 21:29
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
O Dragão Inebriado
“Senhores passageiros, a empresa de Jefoils dá-vos as boas vindas a bordo”. A voz no altifalante manifesta-se, em quatro línguas, segundos antes dos familiares odores de massa instantânea invadirem o ar refrigerado do jectoplanador – assim se chama o tipo de barcos, com motores da Boeing, que de 15 em 15 minutos ligam Hong Kong a Macau.
Lá fora faz vento e chove. Com intensidade. A parte do anúncio em português surpreende quem é novo nesta humidade subtropical, mas deixa reconfortado quem reconhece as águas acastanhadas que se navegam.
Há um velho ditado macaense que diz “quem bebe a água da fonte de Lilau, não mais deixará Macau”. Ou melhor, deixa mas regressa. Sempre. Como um bom pecador. “Venetian Macau” , recente coqueluche do universo do jogo, com o cunho de Las Vegas, publicita os seus serviços nos ecrãs de plasma da moderna embarcação, ironicamente, propriedade de Stanley Ho, o incontornável senhor Macau. Entre Ho e os «intrusos» norte-americanos – é sabido, mas não assumido – desenrola-se uma batalha surda.
Esqueçamos por uns parágrafos o jogo – já lá iremos – e concentremo-nos na genuína hospitalidade deste território de 543 mil habitantes e 28.6 quilómetros quadrados que há menos de uma década era administrado por um governo nomeado a partir de Lisboa.
Macau sabe receber. E fá-lo tão bem que desde logo vi que não havia forma de “escapar” ao programa cuidadosamente traçado pelos anfitriões da Direcção de Serviços de Turismo. Quando o leme está em boas mãos e a borrasca é das bravas, para quê inventar?
Esta é apenas a primeira página de um cardápio que se prolongará por cinco dias e cinco noites. Pouco. Muito pouco para conhecer Macau. Esta é uma cidade compacta. Que se respira, que se transpira, que transgride e convida à transgressão. Dos sentidos. De todos eles.
As tentações superam o número de templos e igrejas. E se igrejas são sete – como as colinas – templos são setenta. É um caso sério de numerologia associada à geomancia oriental. Só que aqui é 8 e não 7, o número da sorte, a menos que haja tempestade tropical, passando esse a ser sinal de alerta que obriga a fechar instituições públicas, estabelecimentos comerciais, escolas e as três pontes que ligam a península aos seus apêndices insulares, mas nunca os casinos. Que operam ininterruptamente. Não fossem eles o motor de todo o carrossel.
No exterior da pousada, se fizesse sol, estar-se-ia bem à sombra desta figueira-da-índia com quatro séculos de existência. Quase tantos como Macau. Foi a cem metros daqui que fundearam os juncos dos primeiros aventureiros portugueses, amancebados com javanesas, chinesas, malaias, nipónicas, corria o ano 1555. Pouco mais existia então, para além do templo de A Ma, consagrada à deusa do mar e dos pescadores, onde eram secas as mercadorias, premissa fundamental para nos estabelecermos nestas paragens por muitos e bons anos.
Secretamente, uma parte de mim exulta com o dilúvio. “Tinha saudades disto”. Há qualquer coisa de aditivo nesta humidade que se cola ao corpo como uma segunda pele.
Que não se assustem os adoradores do astro-rei. Macau tem dose soalheira, nos invernos e outonos, altura do Grande Prémio, onde se revelam futuros campeões de Fórmula 1.
E se o GP é o cartão-de-visita, o conjunto das Ruínas de São Paulo, onde funcionou a primeira universidade da Ásia, é muito mais que pano de fundo para foto de turista. Por mais «brinquedos» que Ho construa, mantém-se como ex-líbris de excelência. Não é por acaso que foi eleita como uma das 27 maravilhas de origem portuguesa. Nas gastas escadarias de granito é um atropelar de gente. Todos querem levar a mesma imagem para casa. Vir a Macau e não fotografar as ruínas é como ir à China e não ver a Grande Muralha.
Uns metros acima, na Fortaleza do Monte, os canhões apontam à malha urbana que foi crescendo de forma caótica, onde antes era praia e mar. Eis a China à distância de um canal. Atrás de nós é a China também, só que interrompida por uma linha desordenada de arranha-céus, bairro da Areia Preta, junto às Portas do Cerco, posto fronteiriço terrestre, provavelmente dos mais movimentados do planeta.
Para quem não esteja disposto a expor-se aos elementos e à constante mole humana, a história e os costumes da cidade são contados no Museu de Macau, um dos vários e excelentes pólos museológicos da cidade, camuflado pelas paredes da antiga sede do governo e posteriormente dos serviços de meteorologia.
Se Macau cresce agora na perpendicular, há décadas que o faz para os lados. A área de terreno reclamado ao mar é bastante significativa. Na Taipa, é quase tanta como a do chão original.
Julgo vê-lo, ao monsenhor Manuel Teixeira, o protótipo de missionário, incansável compilador das memórias lusas no Oriente, de batina e longas barbas brancas ao vento, a atravessar a velhinha ponte Nobre de Carvalho, como o fez ao longo de anos, todos os fins de tarde. Fantasma inspirador, a juntar a tantos outros, numa cidade que acredita ser protegida pelo divino. Que não se impressionem os supersticiosos, pois são fantasmas amigos, se bem que alguns andem esfomeados. Num dos seus rituais lunares, os chineses colocam à porta de casa alimentos para os apaziguar. Mas essas são outras crenças. Os fantasmas que nos dizem respeito, vivem de memórias, inscritas na toponímia, na rugosidade das pedras, nas palavras que nos legaram Camilo Pessanha, Venceslau de Morais, Bocage, Luís Vaz de Camões. Sim, também o vate esteve aqui – ou dizem que sim – e até tem direito a gruta, um dos mais belos espaços verdes da cidade, onde velhos jogam
xadrez e ensaiam extractos de ópera cantonense.
Percorramos a Macau que teimosamente resiste. Sigamos pelas vielas esconsas, para onde espreitam torres prestamistas, os bancos de outrora, e imaginemos a Rua da Felicidade das peipeis (as gueixas chinesas) e as casas de ópio – servem hoje de quartel-general a selectos restaurantes de sopas de barbatana de tubarão guardados por gurkhas nepaleses.
Aqui podemos perdermo-nos, por simples capricho, em pequenos pátios e lojas de ofícios mil, vendedores de comida rápida, de quinquilharias e antiguidades – os ditos tintins – e das ervanárias que nos apresentam poções miraculosas de corno de iaque, pata de urso ou pénis de cão, entre centenas de outras mezinhas.
Já em plena baixa, na rua das Mariazinhas, calcetada à portuguesa, um grupo recreativo efectua a tradicional Dança do Dragão – acto obrigatório em qualquer inauguração que se preze. Acompanhemo-lo e acabaremos por desembocar em pleno centro histórico, na praça do Leal Senado, montra do poder de antanho, local de encontros, pulsar de uma cidade rejuvenescida.
Macau tem dimensão humana. Faz-se a pé em poucas horas, uma das suas muitas vantagens. Mas também a podemos percorrer de riquexó, esse colorido triciclo asiático. Imaginem sair do templo de A Ma, circundar a baía da Praia Grande – parcialmente aterrada em nome do desenvolvimento – desfrutando os ocres do palacete de Santa Sancha e do antigo palácio do governo, vestígios coloniais, a estátua do navegador Jorge Álvares, finalizando o passeio à entrada do Clube Militar, edifício neoclássico onde se pode degustar um bom cozido e presenciar uma rara concentração da comunidade portuguesa, inevitavelmente diluída na cidade, mas mais activa do que nunca.
Haverá outro lugar assim? Assim que se escreve assi no doce papiaçam di Macau, dialecto dos filhos da terra, os macaenses, frutos de uma miscigenação secular, que ambiciona ser património intangível da humanidade. Que o tangível já cá canta. Desde 2005 que a Unesco tem inscrito na sua criteriosa lista o centro histórico de Macau.
Em Macau, cadinho de tolerância, vive-se um sincretismo religioso que mistura taoísmo com budismo e resquícios de paganismo. Aqui sobreviveram templos numa época em que na China eram extintos; aqui há convivências que se julgavam impossíveis.
Existe uma diferença abissal entre Las Vegas e a Las Vegas do Oriente, como já chamam a Macau. Este território tem um passado de quase quinhentos anos e não é o deserto que surge depois da Strip, antes um refúgio chamado Coloane, o pulmão verde da polis. De antigo covil de piratas passou a apetecível quinhão residencial.
Desculpem-me o bairrismo, mas dificilmente se encontra uma cidade com tanto em tão pouco espaço. Macau é em si uma miniatura de toda a Ásia e muita Europa, agora também com salpicos americanos, e até africanos. E não estou a falar dos parques temáticos, que nesse domínio, a escolha será doravante cada vez maior.
Querem mais? Terão de vir cá. Para ver até que ponto se “embriagou” este pequeno dragão asiático. Pese a variação dos seus humores, deixa sempre saudades.
publicado por JoaquimMDC às 13:41
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Os descendentes de Albuquerque
Malaca está perfeitamente bem servida no que diz respeito a transportes. O autocarro é o meio mais comum, e o mais prático. Diversas empresas rodoviárias dispõem de confortáveis veículos que de hora em hora partem dos dois mais importantes centros urbanos vizinhos a Malaca: Singapura e Kuala Lumpur. São aproximadamente três horas de viagem, tanto de uma como de outra cidade. Essa é uma enorme vantagem para o viajante estrangeiro, que pode sempre optar pelo destino mais conveniente, considerando preços ou horários. Para mim, que venho da Índia, Singapura é a opção.
Muito antes de Afonso de Albuquerque a conquistar a tiro de canhão, em 1511, Malaca era já um importante entreposto comercial. Um porto obrigatório para os mercadores chineses e árabes que dominavam os mares do sul da China.
A construção de uma fortaleza assinalou a possessão da cidade pelos portugueses durante mais de um século. Em 1614, após um cerco de oito meses, A Famosa (assim se chamava a fortificação) seria arrasada pelos holandeses, que no processo se apoderaram da cidade. Em 1824, Malaca seria cedida aos ingleses em troca de um porto na ilha de Samatra.
Recentes projectos imobiliários em curso em terra reclamada à zona ribeirinha, relegaram para segundo plano os monumentos e edifícios que recordam a passagem desses povos pela povoação malaia. Apesar da «modernização», Malaca permanece um local com intrigantes ruas chinesas, lojas de antiguidades, templos taoistas, igrejas, cemitérios e variadas reminiscências, em diversos domínios, do poderio colonial.
A sua principal área de interesse centra-se na parte velha da cidade, que tem como ponto de referência a chamada Dutch Square, caracterizada pelo imponente Stadhuis, símbolo do poder administrativo holandês, e a igreja de Cristo. Ambos os edifícios estão pintados de cor vermelho tijolo. Logo por detrás, avista-se a colina de São Paulo, que era totalmente circundada pelas muralhas da antiga fortaleza. Restam algumas das paredes da igreja, em ruínas, e lápides tumulares com inscrições, em português e latim.
Construída pelos portugueses, em 1521, a igreja de São Paulo foi regularmente visitada por Francisco Xavier. O corpo deste santo (falecido na China) foi para aqui transportado, sepultado e aqui permaneceu durante nove meses, antes de ser transferido para Goa, onde jaz presentemente. Uma escadaria conduz-nos das ruínas à Porta de Santiago, único sinal visível da outrora imponente fortaleza. Não muito longe, junto ao rio, o museu marítimo funciona numa magnífica réplica da nau de Afonso de Albuquerque, a Frol de la Mar.
Apesar do evidente domínio da cultura chinesa nas velhas ruas, é notória a presença de muitas outras comunidades. Se chineses e indianos têm em Malaca os seus mais antigos templos – respectivamente Cheng Hoon Teng (em memória do almirante Cheng Ho, o maior viajante chinês de sempre) e o templo hindu de Sri Pogyatha Vinoyagar Moorthi – os malaios orgulham-se da bela mesquita de Kampung Kling, num estilo importado da vizinha ilha de Samatra.
Ponto alto de qualquer visita à Chinatown são, sem dúvida, as casas típicas dos Peranakhan (chineses nascidos no Estreito de Malaca) e dos Baba-Nonyas (chineses miscigenados com portugueses) que funcionam actualmente como casas museu, antiquários ou pensões. Uma casa Baba-Nonya é, seguramente, o alojamento ideal em Malaca.
Outros dois pontos obrigatórios de visita são a igreja de São Pedro e o Medain Portugis – o Portuguese Settlement dos panfletos turísticos – situado a três quilómetros da cidade. Aqui residem, desde os anos trinta do século passado, os descendentes dos portugueses, os denominados malaqueiros, num total de mil e quatrocentas pessoas.
No Medan Portuguis podemos degustar, em esplanadas junto ao mar, os pratos típicos da cozinha malaio portuguesa, onde predomina o peixe e o marisco fortemente condimentado com curry seku (caril seco), diable curry chicken (caril de galinha ultra picante) e o balichão. Este é também um óptimo local assistir às actuações de dança e de música luso malaia – interpretada por grupos como o Rancho Folclórico de São Pedro ou os Tropa di Malaka – e contactar de perto com os luso-descendentes que terão imenso prazer em comunicar com o camerada portugi recorrendo ao papiá kristang, um crioulo resistente.
Porém, nem tudo é o que parece. Apesar de os malaqueiros continuarem a celebrar o Natal, o Entrudo, a Páscoa e, sobretudo, a Festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores, as desavenças são mais que muitas, não fossem eles, acima de tudo, bons portugueses… Uma estadia de alguns dias apenas é suficiente para nos apercebermos que as hostes se encontram bastantes divididas e que nem tudo é vino e branyo (dança local). A comunidade piscatória tem sido, ao longo dos anos, bastante crítica no que respeita ao desempenho do Painel do bairro – uma espécie de junta de freguesia composta por dez elementos cujo regedor é habitualmente nomeado pelas autoridades provinciais de Malaca. Entretanto, nos bastidores, aproveitando a conhecida desunião, gananciosos empresários do imobiliário continuam a ambicionar avidamente os doze hectares de terreno que os descendentes de Albuquerque ocupam – o denominado «chão di padre».
A recente nomeação da antiga fortaleza e igreja portuguesas de Malaca para Património Mundial pela Unesco, é a concretização de um anseio já com uma década. Como justificação para tal candidatura as autoridades locais indicavam a necessidade de «preservar o rico legado histórico de Malaca», alegando que tinham sido «pioneiras na introdução do conceito de protecção do património histórico-cultural» na Malásia.
Na época, o delegado da Unesco chamou a atenção para as especificidades da mais turística cidade do país, como cadinho das culturas baba nonya, malacca chitty, árabe, anglo malaia, indiana, portuguesa e holandesa, para além do património do próprio sultanato, vaticinando as boas hipóteses dessa candidatura dado que, «apesar de 180 dos 550 locais listados como património mundial se situarem na Ásia» nenhum deles se encontrava em território malaio.
A tão almejada atribuição não surpreendeu o investigador Rui Loureiro, especialista na história da presença portuguesa na China e sudeste asiático, que em Abril de 2007 foi convidado a deslocar-se a Malaca para dar consultadoria no processo de reconstrução da fortaleza da cidade, com um perímetro de aproximadamente um quilómetro. Um trabalho que, a ser concretizado, levará uns 10 anos.
«Fiquei muito bem impressionado com a equipa encarregue de cumprir essa missão. São todos eles malaios e estão muito bem preparados e conscientes do património que têm pela frente», diz-me Rui Loureiro. Confessa até que eles já conheciam a informação que lhes disponibilizou, fruto de apurada investigação dos manuscritos existentes em Portugal, realçando «os desenhos relativos ao forte». Desenhos de várias épocas e de diferentes autores.
Loureiro nota ainda que durante a sua estada presenciou intensos trabalhos arqueológicos no fosso em frente à muralha, tendo sido escavados dois dos 11 bastiões originais, actividade que chamou a atenção dos média malaios e da vizinha cidade estado de Singapura. Mas todo o material encontrado – moedas, cerâmica, armamento – é de origem holandesa. Nenhum objecto nos remete para o período português.
«O objectivo final», salienta o historiador, «é o de reconstruir todos os bastiões o mais fielmente possível, usando, para isso, materiais idênticos aos utilizados na época».
Contrariamente ao seu congénere Luís Filipe Thomaz, que em declarações à Lusa mostrou espanto pela distinção alegando que «a cidade de Malaca teve um papel histórico muito relevante no século XVI, mas não tem património arquitectónico porque foi tudo destruído», Loureiro considera que o critério de atribuição de tão honrosa distinção não pode ter apenas por base aspectos materiais e palpáveis. «Mais importante do que as pedras são as pessoas e as suas tradições». E nesse aspecto Malaca é um viveiro. Loureiro refere-se, como é óbvio, à comunidade de luso-descendentes, um dos factores identificadores da cidade.
publicado por JoaquimMDC às 13:40
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O repouso do jesuíta
A Companhia de Jesus foi, de longe, a mais importante congregação religiosa na Ásia. E Goa era, por assim dizer, a sua principal sede. Por aqui passavam todos os membros dessa comunidade destinados a pregar nos mais remotos e inóspitos recantos do continente asiático. Como escreveu Jaime Cortesão, «os jesuítas, mais que todos os outros, davam a Goa o seu carácter de metrópole missionária. Na Casa dos Catecúmenos, catequizavam-se e ensinavam-se os indígenas adultos; e no vastíssimo Colégio de S. Paulo recebiam ensino gratuito 2000 crianças.»
Uma das principais preocupações dessa ordem religiosa era o saber. Não admira que tivessem sido eles os fundadores da primeira universidade da Ásia, em Macau.
A Igreja de Bom Jesus, conhecido como o Taj Mahal de Goa, tal é a sua grandiosidade, exemplifica bem o tipo de edifícios religiosos que em Goa foram construídos. O viajante francês seiscentista Pyrard escrevia no seu diário que o «número de igrejas é tão maravilhoso, que não há praça, rua, encruzilhada, que não possua alguma». Mas a que mais o impressionou foi o convento de São Francisco, que considerava «o mais belo e rico de mundo». Rivais dos jesuítas, os franciscanos opuseram-se ferozmente a que o convento do Bom Jesus fosse uma realidade.
Em questões de rivalidades, numa Goa a enveredar para a decadência, franciscanos e jesuítas batiam-se aos pontos.
Outros edifícios haviam de muito maior dimensão que não sobreviveram à campanha de destruição que se seguiu ao decreto do marquês de Pombal que extinguia as ordens religiosas. Os mais magníficos exemplares da arquitectura religiosa de Goa foram simplesmente demolidos. Edificado em 1585, em local privilegiado, no centro da cidade, o convento do Bom Jesus escapou à razia, provavelmente, pelo facto de albergar no seu interior o túmulo de São Francisco Xavier, o dito «apóstolo do Oriente». Trata-se de uma caixa prateada (obra de artistas goeses), cravejada de pedras preciosas onde está o corpo incorrupto do santo, alvo de extrema veneração em toda Ásia. No interior da capela há pinturas alusivas à sua vida e objectos litúrgicos em prata. Este ilustre e permanente hóspede é o motivo para que seja constante o fluxo de turistas (maioritariamente indianos) que de manhã à noite entram e saem da igreja e do claustro do convento e se fazem
fotografar em frente da bonita fachada vermelha, para a posteridade.
Depois de uma vida austera, Francisco, que nasceu em berço de ouro, no castelo de Solor dos Aguares y Javier, numa família rica de bens materiais e títulos honoríficos, rodeou-se involuntariamente de algum fausto para a eternidade… Desde jovem, o navarro manteve sempre uma estreita ligação com a população em geral. Tal traquejo facilitar-lhe-ia, no decorrer das suas viagens, o contacto com os povos e locais que visitava, tendo sempre demonstrado uma extraordinária capacidade de adaptação.
Formado pela Universidade de Paris, Xavier era talentoso nas línguas e nas artes de engenharia. Amigo de Inácio de Loyola, com quem visitou os lugares santos de Jerusalém, ingressou no seminário e com Inácio estabeleceu as bases daquela que viria a ser Companhia de Jesus. A sua debilidade física não o impediu de responder ao apelo de D. João III, que ansiava ver partir evangelizadores rumo ao Oriente. E sentiu esse apelo de tal forma que a partir de então assumiu-se como «português de coração». E português ficou, pelo menos para muita gente, entre os quais os mentores do antigo regime. Numa pintura a óleo existente na sala que liga a igreja ao claustro, e que representa o corpo incorrupto do santo, Craveiro Lopes eternizou a sua assinatura, entre outras figuras, mais ou menos conhecidas, mais ou menos obscuras.
Ainda hoje, por toda a Ásia – de Goa a Malaca, de Macaçar às Molucas ou do Japão à China, onde morreu, mesmo às portas do império que em vão quis evangelizar – Francisco Xavier, venerado como nenhum outro, é sobretudo memória lusa.
Entre as famílias mais ilustres de Goa existe um grande apego a ele, nalguns casos a roçar o mais extremo dos fundamentalismos. Lembra Mendia de Castro, conde da Nova Goa, a história de uma familiar, «senhora muito devota, casada com um dos vice-reis», que numa ocasião em que o corpo do santo estava exposto para que fossem beijados os seus pés, como é da tradição em cada dez anos, aproveitou para, no momento do ósculo, arrancar uma falange do dedo mindinho, guardando-o cuidadosamente na boca. E assim surgiu uma relíquia que ainda hoje permanece na família e que é muito respeitada por todos os seus membros. Guardada num sarcófago de prata, a relíquia está, como seria de imaginar, e para sua salvaguarda, num local secreto. De quando em vez, a família acrescenta o apelido do santo a um novo rebento, para honrar a veneração secular. Houve uma altura em que só um padre da família estava autorizado a mexer na relíquia. E só em dias
especiais é que todos a podiam venerar.
Para além da falange, a família Nova Goa tem em sua posse outras relíquias menores, como sejam pedaços da túnica do santo. O conde lembra os tempos de estudante, quando levava consigo um desses tecidos dentro da camisola para ter sucesso nos exames. «Nós achávamos que aquilo funcionava, e essa fé é que era o mais importante», diz.
Os Castro foram para Índia em 1550, «para Damão inicialmente», e mais tarde para Goa onde ergueram palácios e serviram o rei, tendo aí permanecido até 1850. Esta data marca o regresso definitivo a Lisboa do representante da família, Luís Caetano de Castro, o bisavô de Mendia de Castro. O título conde Nova Goa seria concedido pelos «valiosos serviços prestados à nação em terras do Oriente».
Para dar uma ideia do que chegou a ser o poder de famílias goeses como esta, o meu interlocutor – sentado no sofá de sua casa, não muito longe da prata da família e de uma estátua de marfim do Menino Jesus de arte indo-portuguesa – lê-me extractos da carta de uma tia, escrita em 1950, na qual revelava o espanto demonstrado por um certo personagem indiano, «visita regular da casa», que dizia que quando via os membros da família sair de carro e de coche, constatava que estes «levavam batedores à frente, como os reis, para que todos se afastassem».
Mas os tempos são agora outros... No palácio que outrora pertenceu á família Nova Goa funciona hoje uma escola gerida por dominicanos. Mas se os Castro perderam palácios no Oriente, ganharam outros na metrópole, em Tomar, graças a casamentos de estratégia. Um deles ligou-os à família Abreu – que se julgavam de tal forma poderosos que de si próprios diziam, «depois de Deus só os Abreu» –, mais propriamente a António de Abreu, que uma decisão de tribunal, «na sequência de uma disputa com os frades do convento de Cristo», mandou comandar naus para Malaca, tendo sido ele, de resto, um dos «descobridores» das ilhas Malucas.
Tal como para os Castro, Goa foi a paixão primordial do basco Xavier. Santo padroeiro de Goa e dos goeses, sejam eles católicos ou hindus, todos o invocam ou se colocam sob a sua protecção. O ecumenismo é um hábito há séculos enraizado em Goa.
publicado por JoaquimMDC às 13:39
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Símbolo da Goa Dourada
Capacidade de comando e ferocidade têm sido as características mais apontadas ao descobridor do caminho marítimo para Índia. Esse alentejano de Sines, ganhou a confiança de D. João II, que lhe incumbiu várias missões que conduziu com sucesso, as mais relevantes já em pleno reinado do Venturoso. No mar, a teimosia do capitão, que só o acaso não permitiu que seguisse a carreira eclesiástica, levou-o, no final de 1497, a dobrar o Cabo ao qual Bartolomeu Dias tinha desvendado os segredos, abrindo a porta para o Índico e o mundo encantado de onde chegavam as apetecidas especiarias e outros produtos exóticos.
Para o conseguir, Vasco da Gama seguiu a filosofia do «antes morrer que ceder», máxima que assenta na perfeição a alguém que é teimoso por natureza. Uma teimosia herdada por um antiquário seu descendente, Teles Gama, com estabelecimento ali para os lados do edifício de Assembleia da República, com um gostinho especial pela Índia, como não podia deixar de ser.
Para Teles Gama a diáspora espalhada pelos quatros cantos do mundo é um verdadeiro trunfo que Portugal não tem sabido utilizar. Não só a diáspora de emigrações recentes, mas sobretudo a de permanências resistentes com cinco séculos de existência. Só que é uma diáspora «com falta de consistência e unidade».
Penso nestas palavras quando desembarco no aeroporto de Goa, a escassos quilómetros de Vasco da Gama, a terra que honra o navegador. Daí sou transportado numa motorizada até Panjim, actual capital do estado de Goa, a oito quilómetros apenas da Velha Goa, o resultado mais visível e mais duradoiro da teimosia de gente da estirpe de um Gama, de um Afonso de Albuquerque ou de D. João de Castro.
Uma hora depois estava ler nomes de ruas e de estabelecimentos comerciais em português; estava a falar português com goeses – cristãos ou de outros credos – e virei até cicerone, dando dicas a um grupo de oito marinheiros brasileiros (visivelmente abalados pelo choque de cultura), parte da tripulação de um navio de guerra ancorado no porto de Vasco da Gama.
Pode-se dizer que há dois Gamas nas expedições à Índia. Na primeira, o navegador que veste a pele do diplomata comerciante. Na segunda, a do conquistador, a imagem a que a História registou. Se calhar por isso existe actualmente uma corrente detractora do seu nome. Há até quem lhe chame pirata. «Pirata!? Como se pode reduzir um homem daqueles a pirata?», perguntava indignado o nosso antiquário lisboeta.
É claro que o capitão da nau São Gabriel não era propriamente um menino de coro, pois se o fosse não tinha chegado onde chegou. Era um homem duro, e só assim evitou tumultos a bordo ou deserções em massa entre a tripulação constituída por pescadores feitos marujos e degredados sem esperança.
Em 1998, ano do cinquentenário da Descoberta do Caminho Marítimo para Índia, foi preciso um jornalista alertar o presidente indiano, de visita aos Jerónimos, para a presença do túmulo do navegador, já que os anfitriões oficiais não pareciam dispostos a fazê-lo... É norma protocolar os chefes de estado estrangeiros colocarem uma coroa de flores no túmulo de Camões, que está no lado oposto ao do Vasco da Gama. O «esquecimento» deve-se a esse medo, muito nosso, de nos assumirmos, sem complexos.
Nesse mesmo ano Teles da Gama foi convidado pelo ICEP a ir a Los Angeles receber o Prémio de Viajante do Ano, atribuído ao navegador português, durante o congresso anual da American Society of Travel Agents (ASTA), organismo que reúne agentes de viagem de todo o mundo. Discursou perante quatro mil pessoas e, no dia seguinte, o cônsul da União Indiana em São Francisco pediu à presidente do ICEP que ele lhe fosse apresentado, pois teria imenso prazer em conhecer o descendente de Vasco da Gama.
«O sentimento geral entre os indianos é de estima, curiosidade e respeito, e não de desprezo». Uma vez mais recordo as palavras do antiquário, quando sou confrontado com o seguinte apelo de um goês: «Porque é que Lisboa se esqueceu de nós?». Socorro Almeida, cujo pai foi carteiro «durante o período português», refere-se, claro, ao apetecido passaporte, nem sempre concedido às pessoas que mais o merecem. Mais tarde, um agente de viagens agradece ao meu país o facto «de ter proporcionado à Índia o contacto com uma outra civilização». Nada que me espante nestas declarações, sem dúvida genuínas. Nas várias viagens efectuadas pela Índia nunca ouvi qualquer comentário negativo acerca dos portugueses ou do seu passado colonial, e a verdade é que os indianos têm muito que nos apontar… Não obstante, optam por manterem-se fiéis ao espírito da primeira expedição à Índia: a essa busca da «Terra da Boa Gente» e da «Terra
dos Bons Sinais», antes de os canhões começarem a troar, anunciando os sangrentos tempos da intolerância, que seriam ainda mais tenebrosos após o estabelecimento da Inquisição em Goa.
A bordo de um dos autocarros que saem de Panjim, de 10 em 10 minutos, rumo a Old Goa, apetece-me dizer: «da Velha Goa ficaram as igrejas». As igrejas (que foram reconstruídas, mantendo pouco do original) e os muros e algumas paredes de pedra porosa que dividiam as propriedades. Pedras soltas e memórias de sobra. De um período de glória, e até, durante décadas, de muita tolerância.
Apesar de ser este sítio, com o selo Património da Humanidade, um agradável local para se visitar, e as autoridades locais não cobrarem bilhetes, democratizando o acesso a um bem que é de todos, tendo até a muito louvável iniciativa de colocar água filtrada e fresca à disposição (prover água e sanitários gratuitos é um acto de civilização), dificilmente nos dá uma ideia de como seria, desde 1510, a capital do império português do Oriente, a Goa Dourada como lhe chamavam, rival de Lisboa do tempo das Descobertas, que acabaria por ser, séculos depois, desmantelada e transferida para Panjim. Restaram as igrejas, como já se disse, entre elas a Sé Catedral, uma das maravilhas a concurso.
Construída no reinado de Dom Sebastião, «a maior igreja católica da Ásia», impressiona pela sua dimensão, embora o sítio onde foi erguido o tempo inicial passe hoje despercebido. Funciona aí um pequeno café com tecto de chapa de zinco.
Se nos deixam de cabeça para trás os 36 metros da fachada clássica, o que dizer do interior com 76 metros de comprimento e 55 de largura? Ou ainda a pouco comum (em construções do género) altura e largura da nave central do templo que contém autênticos tesouros em forma de retábulos de talha, estátuas e pinturas, todos eles de clara influência ocidental? Adicione-se ao já mencionado, toda a exuberância e cor dos ornatos que compõem a Capela do Santíssimo Sacramento ou ainda a simplicidade de ancestral uma pia baptismal em muito mau estado. No solo são muitas as lápides funerárias com brasão, a lembrarem-nos os privilegiados de outrora, que hoje se limitam a emprestar o nome aos solares e palacetes espalhados pelas diferentes regiões da província, de Salcete a Bardez, de Ponda a Quepem.
Foi através de Goa que o mundo ocidental se fundiu com a milenar civilização indiana, num cadinho de casamentos interraciais e alianças políticas que criaram laços que ainda hoje se mantêm fortes. Em Goa foi introduzida a primeira impressora e com ela se preparam os livros que iriam fazer dessa cidade o pólo do cristianismo em todo o continente asiático. Pode dizer-se que a Sé Catedral, edificada em pleno auge económico-social e artístico, revela bem uma vontade de impressionar os naturais, com «a riqueza, poder e fama dos portugueses que dominavam os mares desde o Atlântico até ao Pacífico». É que, na sua primeira viagem, Gama levava como oferta para o samorim de Calicute simples corais, mel, açúcar, azeite, barretes e bacias de metal. Um gesto que reflectia a profunda ignorância europeia em relação às civilizações bem mais avançadas do Próximo e Extremo Oriente. Como escreveu Jaime Cortesão «a rapidez fulgurante dos nossos
êxitos nesta parte do mundo não se compreende sem considerarmos que ela estava ocupada por povos de civilização avançadíssima e que em muitos dos seus primores não cedia o passo à dos ocidentais».
publicado por JoaquimMDC às 13:39
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A relíquia de Cambaia
Verdadeiro símbolo de resistência, a fortaleza de Diu teve a sua primeira pedra colocada, em 1535, pela mão do próprio governador, onde se havia de erguer o baluarte de São Tomé. Foi uma fortaleza projectada para durar com obras permanentes ao longo dos séculos XVII e XVII, tendo sido então restaurado todo o seu sistema defensivo. Curiosamente, Diu não foi tomada pela força (o sultão local autorizou Nuno da Cunha a construir a fortaleza), mas foi certamente dos locais mais assediados da Índia portuguesa, tendo sempre resistido a ferozes cercos, fossem eles de guzarates, mogores, ingleses, franceses ou turcos, o inimigo de estimação dos lusitanos de Seiscentos. Recorde-se, a propósito, o episódio dos artilheiros gregos que depois de se alistarem no exército português (como faziam muitos estrangeiros) passariam para o lado dos otomanos, ajudando-os no cerco frustrado que impuseram à cidade. Na verdade estávamos perante dois espiões
pagos pela Senhoria de Veneza, a quem Portugal, com a descoberta do caminho marítimo para Índia, tinha tirado o pão da boca, ou melhor dizendo, o ouro do aferrolhado cofre, já que a cidade estado tornara-se rica e poderosa porque era a fornecedora exclusiva de produtos exóticos para a Europa.
Do Oriente vinha tudo o que deslumbrava: ouro, seda, pimenta, gengibre, cardomomo, diamantes, âmbar, rubis, safiras, topázios, almíscar, goma-laca, calaim, aloés, cânfora, águila, benjoim – «o cheiroso licor que o tronco chora –, tamarindos, tartarugas, cravinho, noz-moscada, maça, sândalo, sapão, pau-brasil, calambuco, linaloés – «o pau cheiroso – ruibarbo, pedra-ume, cetins, damascos, porcelanas, aljôfar, laca e o breu, o antecedente do petróleo. Dele dizia João de Barros que era «uma árvore que emana óleo, a que chamam nafta».
Diu era o tradicional fornecedor de índigo, açúcar, alúmen, cera, ópio e roupas de Cambaia, que o ocidente tanto ansiava.
Eis-me em frente daquela que é certamente uma das mais belas e imponentes fortificações construídas pelos portugueses. Imponente e inexpugnável. O fosso, de uns trinta metros de largo e outros tantos de profundidade, foi cavado em dois dos lados, isolando o bastião, que dos outros dois tem o oceano como defesa natural. Quem, mesmo assim, conseguisse ultrapassar a barreira, seria confrontado com um outro fosso semelhante, no interior, antes de uma nova linha de muralhas.
Este é o cenário onde se desenrolaram muitas escaramuças, mas nenhuma com a dimensão da batalha de Diu, nas palavras de Edgar Prestage, «uma das decisivas batalhas na história da Ásia» através da qual Portugal logrou a sua superioridade militar no Índico. Nesse confronto, as forças portuguesas eram inteiramente desproporcionadas à magnitude dos seus intentos. O sucesso explica-se, como nota o historiador árabe Zinadim, na sua «História dos Portugueses no Malabar», porque «eles não obstante a grande distância que se acham dos seus príncipes, não desobedecem aos seus capitães, e ainda que haja desinteligências entre eles, nunca se ouvi dizer que um dos seus capitães fora assassinado por cobiça de poder. E na verdade eles, graças a estas qualidades, apesar do seu pequeno número, conseguiram sujeitar as populações do Malabar e outras mais, aproveitando-se da rivalidade e competições dos capitães e soldados muçulmanos, e da
gula do poder de outrem, ainda que seja à custa da sua vida».
Esses eram tempos áureos da Expansão, se assim os podemos classificar. A decadência estava à porta e seria então a vez de Diogo Couto, no seu «Soldado Prático», denunciar a imoralidade e desatino que assolava o mal habituado português da Índia, minado pela cobiça, pela vaidade e pela intolerância.
Local privilegiado no Golfo de Cambaia, a praça-forte de Diu teve grande dinâmica ao longo dos tempos, particularmente durante o vice-reinado de D. João de Castro. À semelhança de Ormuz, como parte de um complexo sistema defensivo, vários fortins foram erguidos nas ilhas adjacentes.
Felizmente que agora as fortalezas têm outras funções. Bem mais nobres e úteis. São sobretudo locais para o romance, o convívio e a contemplação. Os muros e muralhas de Diu tornaram-se populares entre os guzarates, que aqui se deslocam, em família, de cidades como Amedabad, Baroda ou Banghavar, a centenas de quilómetros de distância. Também os namorados ou os recém casados em lua-de-mel escolhem-na como amuleto. Ouvindo-lhes juras e segredos, os inúmeros e bem conservados canhões (nunca vi tanto canhão num só forte e tanto brasão em alto relevo!) são fiáveis confidentes. As suas bocas caladas há muito que deixaram de vomitar o fogo mortal.
Ao largo avistam-se embarcações de pescadores que a determinadas horas do dia entram e saem da barra, de regresso ou de partida para faina diária. A meio caminho entre a ilha de Diu e Una, povoação na parte continental, está o fortim de Panikota, que serviu de prisão e é agora um excelente pano de fundo para as fotos que não me canso de fazer. Á noite, diversos holofotes projectam sobre as suas paredes maciças, feixes de luz multicoloridos.
Observada do ponto mais alto da fortaleza, dominada por um farol, a cidade parece mergulhar numa mancha verde de arvoredo onde se destacam as fachadas das principais igrejas da cidade. Uma delas é hoje um museu, com interessantíssimas peças, e a outra, a igreja de S. Paulo (ou simplesmente igreja de Diu), está aberta ao culto. Frequentam-na a comunidade de 200 cristãos que habitam no bairro mesmo ao pé.
Apesar de todos os trunfos que dispomos, continuamos a não saber aproveitar as imensas possibilidades do dito turismo histórico. Refiro-me aquele que se pode fazer longe do nosso país – em Diu, por exemplo – onde deixamos, mais do que sombras, pegadas sobretudo. Boas e más. A mim compete-me destacar as boas, pois os julgamentos devemo-los fazer na época em que vivemos, não muito melhor que as anteriores, apesar do discurso subtil dos apregoadores do revisitado admirável mundo novo.
Como o mundo gira… O turco, outrora inimigo, é agora o melhor aliado do português. E quem diz português, diz europeu. Ao apoiar abertamente a entrada da Turquia na União Europeia, o mais alto representante do nosso país demonstra verdadeiro universalismo. Claro que há muito a tratar no domínio dos direitos humanos, das liberdades cívicas, e na demarcação da devida fronteira entre o Estado laico e a religião, antes da entrada dessa nação que só poderá ser benéfica para uma Europa velha e gasta, já que os processos emigratórios rejuvenescem as sociedades. A Turquia será, no futuro, base de diálogo entre o mundo ocidental e o mundo islâmico.
Depois destes devaneios pelos caminho da história, que posso mais dizer de Diu? Muito, muito mesmo. Diu é uma ilha que se aprende a descobrir. E quando se pensa que se viu tudo, escrutina-se mais um pequeno recanto, mais uma parte da cidade que, afinal, estava por explorar. É o que me acontece quando, visitado o forte, decido percorrer, de bicicleta, a muralha exterior em toda a sua extensão, entrando depois pela porta sul, caracterizada pela cor vermelha das muralhas. Logo ali deparo com um grupo de homens que falam perfeitamente o português. Garantem-me: «Em Diu há muita gente a falar português, nem que sejam só algumas frases». E mais: muito são os detentores de passaporte nacional.
O dia está quase no fim e a verdadeira cidade de Diu surge à minha frente, nas ruas labirínticas onde me apetece perder, para melhor a apreciar a beleza das casas com decorações mais ou menos fantasiosas. Este era um bem guardado segredo da cidade, para onde vim quase em branco, disposto a ser surpreendido.
Bem cedo de manhã, no centro de Diu, junto aos hotéis e bares que só servem álcool, os camponeses das redondezas estenderão sobre os oleados e serapilheiras, em pequenos montinhos, o resultado do cultivo que praticam nos quintas deste pedaço de terra de onze quilómetros de comprimento por três de largura. Para além desta agricultura de subsistência e da pesca, a economia da ilha depende ainda da extracção do sal. Diu é também um santuário para a íbis e o flamingo, só para mencionar as mais vistosas aves que aqui nidificam.
Que mais posso dizer sobre Diu? Que seguramente voltarei, para a apreciar com o distanciamento e o tempo que merece.
publicado por JoaquimMDC às 13:38
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Os dois rostos de Damão
É considerado – injustamente – o parente pobre das três maiores pérolas patrimoniais portuguesas na Índia. E, no entanto, Damão, quiçá mais que Diu e Goa, não perde uma oportunidade de arvorar bem alto a sua origem lusitana. Visível na cidade intramuros (palácio do Governador, igreja de Bom Jesus) e, sobretudo, nos seus dois fortes. O mais pequeno, o de São Jerónimo; e a fortaleza de Damão propriamente dita – a Moti Daman – que é a eleita a concurso.
Uma vez mais o comboio é o meio de transporte que utilizo, embora a viagem dure agora umas quatro horas e uma tabuleta azul alerte os passageiros – «Daman and Silvassa passengers, please alight her» – para sair na estação de Volpi, pois tal como a parceira a sul, Damão não tem caminho-de-ferro.
A deslocação até ao centro da cidade é feita, desta vez, a bordo de um Ambassador apinhado de gente: uma família inteira e mais quatro passageiros. O condutor vai com cabeça de fora e os braços esticados para a esquerda, de forma a segurarem o volante. Sou incapaz de ver como maneja os pedais da embraiagem, o travão e o acelerador, mas, sabendo das deliciosas e improvisadas especificidades locais, dá para imaginar…
A entrada no território de Damão e Diu é assinalada por um arco e pelo Bar Furtado, o primeiro sinal de ruptura com a lei seca que impera no estado de Gujarate. Aqui o álcool tem rédea livre.
Fico instalado no hotel Paradise, mesmo em frente à estação de táxis. É como se o tivesse escolhido a dedo, pois pertence ao senhor Gileanes (assim tudo pegado) Faleiro, um dos «cristãos» da cidade de Goa Nani. Ao ver o meu passaporte, fica algo curioso com o que me traz aqui, e empresta-me até uma brochura em português sobre o Moti Daman; muito valiosa, já que o posto de turismo está encerrado. Mas Faleiro fica-se por aí em termos de informação, entretido que está na contagem das rupias. Sabendo a profissão que exerço, lá me vai dizendo que se prepara para lançar um jornal, não se esquecendo de ressalvar que será em hindi.
No cruzamento, a uns cinquenta metros do Paradise, há claros sinais do período da Índia Portuguesa: o mercado municipal, a estação da polícia e ruas com nomes que soam familiares. Sigo em direcção ao mar e, sinceramente, incomoda-me a presença obsessiva das liquor shops, os mais notórios estabelecimentos das nossas antigas possessões. É, por assim dizer, uma entrada com o pé esquerdo, atenuada com uma curiosa descoberta: o bar Portugal, com uma pequena bandeira e tudo.
A praia de Damão está conspurcada, a areia é preta e a água castanha. Bem, não é propriamente para usufruírem das facilidades balneárias locais que as pessoas se deslocam a Damão. Eles vêm aqui essencialmente por dois motivos: para beber e para visitar os fortes, referência em ambas as margens do rio Damanganga, mesmo junto à foz.
É claro que não posso estar em Damão sem dar uma vista de olhos ao mais pequeno dos seus fortes, com cemitério, igreja e campo de futebol no interior. Está rodeado, em toda a sua extensão, por inúmeros barcos inteiramente de madeira que são calafetados e pintados com uma regularidade metódica pelos seus proprietários. Entre as centenas de bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas que esvoaçam nos mastros, na popa e na ré, destaca-se um pavilhão das quinas. Há quem ainda assuma por inteiro o legado lusitano.
Depois que caiu a ponte que ligava as duas freguesia desta cidade (às quais se pode acrescentar uma terceira, a freguesia da Sé), arrastando consigo um autocarro escolar e alguns motociclistas, o acesso faz-se mais a leste. O inesperado desvio permite-me poder apreciar a exuberante arquitectura das casas tradicionais de Damão, que me surpreendem pela quantidade e óptimo estado de conservação.
Damão grande, apesar da designação, é bem mais pacata que Damão pequena. As igrejas locais têm umas fachadas muito peculiares, pintadas a branco e azul. Entro na cidade intramuros pelo portão sul, com espigões de metal pontiagudos (dizem que para travar os mogores), e logo deparo, à minha esquerda, com a Casa da Câmara – ainda com letreiros em português: Secretaria, Sala de Reuniões… – e a igreja do Santíssimo Nome de Jesus (também conhecida como Bom Jesus), que é catedral de Damão. Mais à esquerda ainda, estão a igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Convento de Santa Mónica, hoje um posto de polícia onde funcionou já uma prisão.
O convento dominicano de Damão, em ruínas, assemelha-se bastante ao de Baçaim. Também aqui as crianças aproveitam o terreiro contíguo para jogar criquete. Em ruínas está também a igreja de Nossa Senhora de Fátima, que empresta o nome a uma escola, essa sim pujante de vida.
Exemplo da engenharia portuguesa do século XVI e XVII, esta construção de catorze baluartes e espessos muros de cantaria, obedece a todas as regras da arte de bem defender. A engenharia foi de tal ordem que tanto de um lado como do outro a água chegava aos muros nos períodos de maré alta, um pormenor fundamental já que os ataques dos rivais – muçulmanos ou europeus nossos concorrentes – ocorriam de ambos os lados.
Hoje, todo o aparato defensivo mostra-se obsoleto. Entra-se na cidade e é-se recebido com a afabilidade que caracteriza o indiano. E se o visitante é português, essa afabilidade é acompanhada por um quase imperceptível carinho, igualmente presente noutras partes com o mesmo passado histórico. Os apelidos de muitos dos damenses, o estudo da língua portuguesa e a geminação de Damão com a cidade de Coimbra, lembram-nos que muitos outros, além do poeta tenente Bocage, passaram aqui uma considerável parte das suas vidas. Na casa onde viveu o libertino setubalense, na rua Martim Afonso (está lá placa), habita agora uma família humilde. Essa rua dá para o farol, um dos locais predilectos para as fotografias que mais tarde recordarão a visita.
Inesperadamente acabo por deparar com a Vivenda Colaço, uma típica casa indo-portuguesa, junto ao único muro que resta do exemplar hospital Seiscentista. No pórtico está alguém que conhece bem um outro Colaço – José de seu nome – residente de Macau, amigo de longa data, e um dos mais entusiastas defensores da singularidade da cultura e tradições de Damão. «Sim, sim que o conheço», diz-me o Colaço de cá, «ele é dado às coisas da música, não é?» Verdade. O José Colaço faz parte do rancho folclórico português de Macau e do de música tradicional de Damão, e nunca falha uma presença na Festa da Lusofonia, que anualmente se realiza na ilha da Taipa. Sempre me incentivou a visitar a sua terra natal, se possível quando por lá estivesse.
Este inesperado encontro, obriga-me a reflectir sobre a ineficácia de organizações como a CPLP, que continua a ser um projecto ausente. E nem vale a pena compará-lo à Commonwealth anglo-saxónica, pois, como me dizia um amigo aqui há uns anos, «são portas de entrada muito diversas». Os anglo-saxónicos enveredaram directamente pela via económica; e nós pela via humanista, a via dos afectos, apostando na componente cultural que está assente em laços históricos muito profundos. E, apesar das aparências, o factor efectivo triunfa. E permanece. Talvez isso explique o facto de, no decorrer dos séculos, ser a memória portuguesa – e não outra qualquer – que perdura nos mais recônditos lugares do planeta sempre que se trata de contactos entre europeus e povos «descobertos ou redescobertos». Lembro, a título de exemplo, os fortes laços que nos ligam ao Brasil – «o cais do lado de lá», como dizia Torga – e a Timor Leste. O
problema é que se fala em demasia e pouco se faz. A nossa veia humanista devia ser posta em prática (e essa é uma responsabilidade do governo); primeiro, dando a conhecer o exemplo da nossa História, promovendo-a, e não convivendo mal com ela, como continua a acontecer. Depois, a nós portugueses, mestres da adaptação e miscigenação, cabe-nos o papel de ocuparmos lugares de centralidade, consensos e decisão, como, aliás, já vai acontecendo. Por fim, tudo perde o sentido se não desenvolvermos harmoniosamente o país, tornando-o num lugar justo e aprazível, onde todos se sintam bem, como parte integrante dele. Se assim não for, se continuarmos nesta senda de baixa auto-estima que faz com que partamos para os desafios já meio derrotados, dificilmente chegaremos a lugar algum.
publicado por JoaquimMDC às 13:37
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A cidade e o mato
No derradeiro trecho do voo que me traz do Médio Oriente à Índia ouço, vezes sem conta, o «Finalmente» da Babel Gilberto. Não há melhor som para acompanhar uma aterragem…
Estou de regresso a Índia, dez anos depois. Resquícios de uma reputada irracionalidade a nível das autoridades depressa se manifestam, neste caso por causa da febre suína. A fila? O inquérito? Para quê tanta histeria em torno de um vírus que mata mil vezes menos que uma gripe comum? Seguem-se as perguntas dos senhores da imigração e as dos senhores da alfândega, tudo por causa do meu equipamento fotográfico. «Temo que o vá vender na Índia», avança um deles.
No exterior do aeroporto deparo com um verdadeiro exército de táxis (os bonitos Ambassadores) e riquexós motorizados que no sudeste asiático passam a chamar-se tuk-tuks. O condutor de um deles vem com o habitual choradinho, «estou aqui há mais de quatro horas, sir», só que estou informado sobre o preço. Mesmo assim cobra 70 rupias até à estação ferroviária de Anderai, onde se apanha o suburbano para Vasai (Baçaim), a primeira das cinco maravilhas a concurso, das situadas na Índia.
A plataforma está repleta de homens de calças boca-de-sino e cabelo húmido de brilhantina e mulheres agachadas junto a cestos, caixas e sacos. Os comboios passam apinhados de gente, dentro das carruagens e junto às portas. É num deles, com bancos de madeira e dezenas de ventoinhas por compartimento, que sigo para Baçaím, antes que a confusão se instale. São 5 de manhã e a coisa está no limite, no que se refere a mole humana… Pouco importa. Sinto-me em casa e até o recorrente cheiro a esgoto (que se atenua à medida que nos afastamos de Bombaim, para dar lugar ao cheiro a plástico queimado) não incomoda tanto como se seria de esperar.
Há Vasai Road, Vasai Purana e Vasai Kila. Chego à Road de comboio e parto para Purana de riquexó motorizado, negro e amarelo. Aí deparo com os primeiros sinais da passagem dos portugueses: o casario, as igrejas, uma placa na parede que indica o escritório do Dr.Cerejo…O homem do riquexó deixa-me à entrada do único hotel, e como não são ainda 8 horas e o gerente está para chegar, não posso ocupar um quarto. Não faz mal. Estou tão exausto que adormeço logo que me deito no chão. Afinal, estou na Índia. E na Índia há imensas coisas que nos permitimos fazer, pois sentimo-nos mais livres.
Ao fim da tarde faço uma visita preliminar às ruínas, desta feita num riquexó partilhado. Do género: cabe sempre mais um. No minúsculo banco de trás sentam-se quatro pessoas e junto ao motorista há lugar para mais duas. E eu sou uma delas.
A uns três quilómetros de Vasai Purana surge-nos uma muralha pela frente. Não se percebe se a falha que permite que o asfalto continue resultou da demolição de um pedaço da estrutura ou se era esta uma das entradas da fortaleza. A segunda hipótese parece-me a mais óbvia. Continuando em linha recta, passamos ao lado das paredes do que parece ter sido um edifício importante, e, ao chegar a um significativo conjunto de ruínas, o veículo vira à direita. O seu destino final é a porta sul da cidade, que dá directamente para uma povoação de pescadores, que de forma caótica foi crescendo quase pegada à muralha. Justifica-se que a paragem de riquexós seja aí, só que eu fico junto ao que resta do outrora imponente convento dominicano, pois o sol desce rapidamente no horizonte e esta é uma rara ocasião para ter alguma luz decente nas fachadas esboroadas.
Percorrem a pé a rua principal várias pessoas e algumas pachorrentas vacas de bossa, ou não estivéssemos na Índia. Parecem vir de uma outra povoação aqui próxima. Mas há quem utilize o interior arborizado da antiga cidade como local de relaxamento e recreio, concentrando-se junto a jardim que honra o marajá que expulsou os portugueses da região. Aqui estão os vendedores ambulantes de gelados e refresco de lima e de groselha. Mais além, um templo hindu marca território, lembrando-nos que continuamos na Índia.
Situada a apenas 70 quilómetros da cidade de Bombaim, Baçaím é hoje um local invadido pelo mato, mas foi já uma das mais importantes praças-fortes da Índia, chegando mesmo a rivalizar com Goa. Antes dos portugueses a ocuparem, em 1535, era já um baluarte fortificado, mas não o suficiente para impedir que minas e outros engenhos de artilharia abrissem brechas na sua muralha.
Desde muito cedo instalaram-se na cidade todas as ordens religiosas com funções proselitistas no Oriente, e os edifícios que perduram traduzem bem essa passagem. É o caso do convento que acabo de visitar. Os restantes terão de ficar para amanhã, quando regressar a luz do dia.
Na manhã seguinte vejo-me de novo na Kila Vasai, desta vez junto à entrada sul. Um motociclista pára ao meu lado e aborda-me educadamente, como é habitual entre os indianos. Wilbyn Fonseca é um luso descendente entusiasta por estas coisas da história que para ganhar a vida vende produtos naturais à base de aloés. Relata-me a história do forte e aproveita para dizer como «seria bom que o governo prestasse mais atenção à sua recuperação e aproveitamento para o turismo local». Leva-me depois a visitar aldeia de pescadores, onde tem bons amigos. Estes preparam-se para fazer uma pausa de vários meses na sua actividade – a chegada da monção a isso os obriga. Estendido a secar em varais há imenso peixe. É com o produto da sua venda que irão sobreviver até à próxima época de faina.
Intramuros, os poços, muitos deles ainda em utilização, são os locais de socialização por excelência. Mulheres de saris coloridos e canastros na cabeça retiram do seu interior água bastante fresca. «Há uns 20 anos os saris eram de algodão puro e muito mais coloridos», lembra Wilbyn Fonseca. Também as vasilhas que traziam a cabeça eram de cobre e bronze e não de latão e alumínio, como agora. O luso descendente fala-me também de um ilustre historiador, um tal D´Silva, infelizmente ausente da cidade, «provavelmente em Lisboa, onde se desloca com frequência».
Nas locais mais inesperados, na mais degradada das ruínas, deparo com brasões, esferas armilares, quinas e cruzes de Cristo. Juntas ou associada a motivos decorativos florais ou meramente geométricos, que me apresso a fotografar, claro.
«Sir, do you want to see the royal symbol of Portugal?». Um miúdo chama-me atenção para um escudo gravado numa das paredes do que foi o hospital da cidade.
É seguramente questionável o método utilizado pelo Archeological Survey of India, que cimenta literalmente (em alguns casos com um exagero que choca) as paredes e muros dos edifícios, em cujos pátios interiores e átrios as crianças e adolescentes locais aproveitam para jogar cricket. Mas é melhor isso que deixar cair. Precisavam, no entanto, de algum aconselhamento técnico…Bom exemplo desta cimentação total é a igreja da Companhia de Jesus, caracterizada por uma torre bastante alta que sobressai entre a restante estrutura. Parece despontar de entre a densa vegetação que ali cresce espontaneamente. Mas, não há motivo para preocupações. Dentro de uns anos o cimento feio estará repleto de musgo e parecerá muito mais antigo.
A Misericórdia, a igreja paroquial de São José (construída durante o vice reinado de D. João de Castro, um dos melhores governantes que o Estado da Índia teve) e a igreja da Nossa Senhora da Vida, são outros edifícios religiosos de relevo. O que resta da Casa da Câmara, símbolo do poder local, assemelha-se aos edifícios com a mesma função ainda hoje existentes em Portugal. Era um edifício de dois andares, com piso térreo e arcos em cantaria. No que se refere à malha urbanística propriamente dita, um olhar mais atento – e não precisa de ser o olhar de um entendido – apercebe-se do traçado dos arruamentos e da praça do município, espaço público de eleição que se situava nas imediações da Casa da Câmara.
Do cimo das muralhas avista-se Bombaim, para lá do rio. Em primeiro plano, as embarcações; ao fundo, a silhueta urbana.
Edificada a alguma distância do mar, Baçaim só voltaria às mãos dos maratas, seus legítimos senhores e nossos rivais, em 1739. Hoje está entregue à sua sorte. Pedras e vegetação partilham o espaço, num permanente abraço, o que faz de Vasai a Angkor Wat do espaço patrimonial de origem portuguesa no mundo.
publicado por JoaquimMDC às 13:36
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Uma estratégica Ormuz
Apesar de geograficamente próxima dos acessíveis estados árabes do Golfo Pérsico, não é nada fácil chegar à ilha de Ormuz, antiga praça-forte portuguesa.
Começo por ser obrigado a voar do Bharain para o Kuwait, e, em trânsito, apanhar um avião da Iran Air para Shiraz, um dos aeroportos internacionais do Irão. A partir daí é uma longa viagem por terra, de autocarro, até Bandar Abbas, cidade costeira situada em frente a Ormuz, à qual os portugueses que por cá andaram no século XVI chamavam Comorão. É claro que teria sido tudo muito mais simples se pudesse ter voado directamente para o aeroporto regional de Bandar Abbas (não faltam ligações directas), mas para isso precisaria de ter obtido um visto de turista através de uma agência com itinerário pré definido, voos de partida e chegada e hotéis reservados com alguma antecedência. Enfim, uma tarefa que não se coaduna com o espírito e calendário desta viagem.
Aqui e agora, no domínio dos imãs, beneficio de um privilégio concedido apenas a alguns países ocidentais, onde se inclui Portugal, e que é: um visto de duas semanas à chegada a um aeroporto de uma grande cidade iraniana. Pouco gente sabe disto, e eu só o soube porque um atencioso funcionário da embaixada iraniana em Lisboa teve a amabilidade de me dar tão preciosa dica.
Bastam-me apenas algumas horas para me deixar cativar pela simpatia e hospitalidade dos iranianos, que conheço desde os tempos em que estavam ainda em guerra com os vizinhos iraquianos. O povo, os filmes de Abbas Kirostami (e de outros bons realizadores), as cidades históricas da Pérsia antiga e o baixo preço do pistáchio (sempre me perguntei porque razão só se vêem no mercado pistáchios californianos quando os iranianos são melhores e bem mais baratos), eis alguns motivos para voltar a visitar este país, mas com mais disponibilidade e tempo. E seguramente munido com um visto de turista, pois 14 dias, nesta imensidade geográfica, vão-se num instante.
A travessia de barco até Ormuz é de apenas 20 minutos, num mar povoado de golfinhos e infestado de tubarões. Muitos são os barcos que atravessam estas águas intensamente azuis em direcção à península de Mussadão, essa parte do Omã que o emirado de Fujeira separa do resto sultanato. Se descontarmos o factor clima, podemos considerar Mussadão assim como uma espécie de Noruega do Próximo Oriente. Os seus fiordes rivalizam em beleza e grandiosidade com os desse país escandinavo. Pelo seu mais importante porto, Kasab (onde existe um forte português), passa muito do contrabando da região. Entre os produtos traficados está o tabaco, mas certamente outros mais ilícitos (logo, mais proveitosos) ali circulam, apesar do rigor das leis dos árabes e dos persas.
Deixa impressionado qualquer um a extrema esterilidade da pequena ilha de Ormuz. Aqui nada cresce e praticamente tudo o que se consome e que se usa vem de fora. O designado «castelo português» é de cor avermelhada e preserva ainda alguns dos seus canhões. Uma tabuleta informa-nos que foi mandado erguer pelo «português Albo Kurk», sem dúvida uma forma original de nomear o Terribel das barbas compridas e olhar feroz…
O estado de degradação do forte é uma evidência, mas um projecto de restauro financiado pela Gulbenkien poderá estar a caminho. Pelo menos foi noticiado recentemente, no «Tehran Times», que um acordo teria sido assinado nesse sentido entre Portugal e o Irão. Também a fortaleza da ilha de Qeshm, ali próxima, poderá beneficiar da excelente iniciativa.
Considerado o mais importante porto da região, Ormuz passou a integrar a lista das prioridades de Afonso de Albuquerque, que em 1507 se apoderou dele, tendo mandado erguer fortaleza. Estava assim garantido o acesso ao Golfo Pérsico, por onde era escoada uma parte considerável dos géneros exóticos que, em caravanas, passando por entrepostos comerciais como Bassorá ou Alepo, entravam no Mediterrâneo e daí chegavam à Europa. Em Ormuz transaccionavam-se os melhores cavalos da Arábia e da Pérsia. Dali seguiam para todo o Oriente, sobretudo para Cambaia e Goa, na Índia.
Os trabalhos de construção da fortaleza, ao contrário do que aconteceu em Baçaim, foram rápidos e implicaram o destacamento de navios para o transporte exclusivo de pedra, gesso e cal – materiais que solidificaram a sua estrutura. Com a mão na massa, a servir de exemplo, estava o próprio Albuquerque, mas quem desenhou os planos foi o mestre-de-obras Tomás Fernandes, que aqui deixou bem expresso o seu engenho e arte. Em apenas três meses a infra-estrutura do forte estava concluída. Sabe-se disto porque Gaspar Correia, um dos cronistas presenciais dos feitos da expansão, estava em Ormuz nessa altura.
No recinto amuralhado erguerem-se várias igrejas (restam vestígios da igreja do convento da Nossa Senhora da Graça) e algumas preciosidades manuelinas – uma torre de menagem, ao estilo da torre de Belém, e uma cisterna, semelhante à de Mazagão. Torres de menagem e cisternas são, aliás, denominadores comuns em muitas das fortalezas erguidas pelos portugueses.
Albuquerque, «o mais consistente e determinado dos primeiros governadores da Índia», dizem os livros de História, era um homem com grande visão estratégica. Obreiro da nossa consolidação no Oriente, ele foi também – apesar de todas as vicissitudes, mormente desentendimentos com os capitães que o acompanhavam, e as crueldades cometidas, que eram, ontem como hoje, a fruta da época – pioneiro no diálogo de culturas entre o Ocidente e o Oriente. Não faltaram motivos, quantos deles discutíveis, que conduziram às campanhas sangrentas de Albuquerque. Admirado por muitos e odiado por outros tantos, morreu, como o próprio dizia, «mal com os Homens por amor de El-Rei, e mal com El-Rei por amor dos Homens».
Albuquerque, mistura de diplomata e guerreiro, apesar da sua mão de ferro, era muito considerado pelos auctótenes e respeitado pelos seus inimigos, não podendo portanto ser comparado a um Pizarro ou a um Cortez. Havia nele uma preocupação humanista bem expressa quando ofereceu, em Goa, refúgio político a Meale Cão, príncipe de Bijapur, e à respectiva família. A preocupação humanista faz parte desse «desígnio nacional» no qual acreditaram tantos dos vultos da nossa história, sendo Fernando Pessoa apenas um dos exemplos. «A Portugal cabe-lhe a missão humanista de perpetuar o encontro de culturas, de concórdia e apaziguamento», dizia-me há tempos, numa entrevista, Augusto Ataíde, descendente directo de Albuquerque.
Dizia-me ainda que «diferentes povos do mundo beneficiaram com a acção dos portugueses que os puseram em contacto com realidade diversa, ocidentalizando-os sem que, no entanto, eles perdessem as suas identidades, que, como se pode constatar, ainda hoje continuam marcantes».
As obras foram uma constante no historial de Ormuz, pois havia que modernizar e aperfeiçoar tão cobiçada praça. Para a melhor proteger, construíram-se pequenas fortalezas nas ilhas vizinhas, verdadeiras atalaias que proporcionavam ao grosso da população tempo de resposta em caso de um ataque surpresa. Eram, por assim dizer, a primeira linha de defesa. Nos textos e mapas coevos surgem com os nomes de Queixame, Lareca e Bandel de Comorão. Para além disso, havia ainda a feitoria fortificada de Bandar E-Kong, que resistiria até ao século XVIII.
Mas a insistência do inimigo era tal, que Ormuz acabaria por sobraçar, em 1622, face a uma força persa coadjuvada por ingleses – os nossos «aliados» ingleses! – que providenciaram seis naus, factor decisivo para a ocupação da cidade.
Ontem como hoje, o canal que Ormuz é um ponto estratégico vital numa parte do mundo que está sempre no topo da agenda internacional. Se o «fechassem» cessaria o fornecimento de metade dos barris de petróleo que o mundo consome. Imagine-se o que isso representaria para a economia mundial… Os petroleiros que agora saem do Iraque com os tanques cheios vieram substituir as naus portuguesas que patrulhavam as águas do Golfo certificando-se que as especiarias que chegavam à Europa passavam mesmo pelo Cabo da Boa Esperança.
publicado por JoaquimMDC às 13:35
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