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.Reportagem realizada num portátil:
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
O génio de Aleijadinho
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Saímos de Ouro Preto como entramos, pela parte alta da cidade. Visto daqui, o local onde assenta a igreja da Senhora do Carmo assemelha-se à parte alta de Coimbra, onde está a Universidade.
Rumamos a Congonhas do Campo, onde se situa o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, a próxima maravilha a visitar.

Mina da Passagem é uma velha mina desactivada junto ao morro de Santo António, onde inicialmente se instalaram os garimpeiros. Incapazes de a rentabilizar, os seus mais recentes proprietários decidiram encerrá-la, transformando-a posteriormente num pólo de atracção turística.
– Chegaram à conclusão que ganhavam mais dinheiro assim – confidencia o jovem guia, enquanto se prepara para descer connosco os 120 metros que separam o solo do subsolo, numa dessas carrinhas celebrizadas nos velhos westerns.
O guia apressa-se a demonstrar-nos que «nem tudo o que luz é ouro», como diz o ditado. O ouro, ao contrário do que se pensa, só brilha depois de polido. E a propósito do tão apetecido metal, conta-nos um episódio curioso. No passado, os contratadores obrigavam os mineiros a rapar o cabelo e todo o pêlo do corpo e a tomarem banho inteiramente nus no fim da jorna. Só assim se certificavam que nenhuma grama saía da mina por portas travessas. Mas os escravos depressa encontraram um estratagema que lhes permitissem compensar de algum modo a exploração desumana a que eram sujeitos. Passaram a dissimular algum do ouro no pêlo das éguas que puxavam os vagões para a superfície. Quando elas ali chegavam, lavavam-nas, tendo o cuidado de por um balde por debaixo, recolhendo assim o produto traficado. Dessa engenhosa artimanha surgiu a expressão brasileira «lavando a égua», que hoje é considerada uma expressão de sorte.

De novo na estrada, passamos junto a um magnífico casarão colonial do século XIX, antigo quartel dos Dragões do Rei, a cavalaria de elite, onde hoje funciona um seminário salesiano. Mais adiante, uma placa de trânsito junta Ouro Preto a Ouro Branco, povoação não muito distante, também ela, como o nome indica, ligada à extracção do minério. Uma outra placa, com função diversa, autoriza a que circulem nesta estrada veículos com 45 toneladas, pelo menos até ao trevo de Lavras Novas. Trevo, no Brasil, e neste contexto, significa cruzamento.

Estamos na Estrada Real, assinalada nas placas de trânsito e nalguns postes de cimento específicos com a sigla ER, encimada com uma coroa e a cruz de Cristo. Uma outra tabuleta castanha completa a informação: «Compreende-se por Estrada Real os caminhos oficiais, cujos traçados remontam ao século XVIII, e suas variantes, que interligam os centros mineiros ao Rio de Janeiro e São Paulo.»
De colinas verdejantes e pedregosas é feita a paisagem que nos rodeia até chegarmos ao nosso destino. A terra nua, essa, continua a ser vermelha. Num contínuo serpentear, a estrada permite que lhe sigamos o rasto muitos quilómetros à frente.

O morro do Arraial de Congonhas, o sector que me interessa visitar na incaracterística cidade de Congonhas do Campo, é pequeno mas tem uma energia muito forte. Confesso que me surpreende o que vejo cá em cima. Aparentemente, nada de especial: tão só um hotel e duas dezenas de casas (as poucas que têm as portas abertas vendem artesanato), intervaladas por um jardim e algumas palmeiras, como se de um qualquer outro arraial de garimpeiros se tratasse. O declive acentuado no terreno, dominado pelo santuário que lhe dá reputação internacional, e pelo qual se alinham as doze capelinhas de vias-sacras quadrangulares e de tectos ovais, confere ao local um encanto e mistério muito próprios. Certamente contribuem para essa atmosfera, e muito, as enigmáticas estátuas de pedra sabão distribuídas pelo adro da igreja. Parecem estar vivas, fazendo companhia ou dando conselhos às pessoas que por ali circulam.

Para ganhar tempo, junto-me a uns turistas que atentamente escutam um guia de camisola amarela contratado pela Auxílio Pedagógico & Excursões. Graças a ele fico a saber que a fundação do santuário se deve a um tal Feliciano Mendes que encomendou a obra depois de ter considerado que só um milagre do divino o poderia ter curado de uma doença que padecia. Porém, não bastava querer para poder edificar templos no Brasil dessa época. Era necessária autorização eclesiástica, que lhe seria concedida, em 1757. Seriam necessários mais catorze anos para dar por finda a conclusão dos trabalhos.

Tudo aqui transparece a vida e a obra de António Francisco Lisboa, conhecido como o Aleijadinho, nascido em 1738, em Vila Rica de Ouro Preto, filho do escultor e construtor Manuel Francisco Lisboa. A deficiência física que o marcou à nascença não o impediu de emprestar todo o seu talento à arte de esculpir, à qual imprimiria o maior rigor, cumprindo as empreitadas em tempo recorde.
Uma série de conjuntos escultóricos representativos das cenas do calvário de Jesus Cristo – os Passos da Paixão de Cristo, como se diz no Brasil – foi uma das mais importantes encomendas feitas a Aleijadinho. Mas as capelas só seriam construídas alguns anos depois deste «animador de estátuas» – assim o podemos chamar – ter aceitado o pedido. Depois de esculpidas, Francisco Xavier Carneiro, um colaborador de Aleijadinho, pintou-as com cores vivas, podendo nós hoje apreciá-las olhando por entre as frinchas de madeira rendilhada de cor azul das capelinhas.
Esculpidas em pedra sabão, bem mais maleável do que qualquer outra pedra, e muito abundante na região, os 12 profetas são a imagem de marca do artista mineiro. Isaías, Jeremias, Ezequiel, Jonas ou até Joel são nomes que bem conhecemos. Mas quem ouviu falar de Oséias, Baruc, Amós, Abdias, Naum ou Habacuc?
Em apenas cinco anos todas estas estátuas de olhos amendoados, a fazerem lembrar personagens asiáticas, segurando pergaminhos com textos em latim, estavam prontas, tendo sido imediatamente implantadas no adro do santuário para poderem ser devidamente apreciadas, pelas pessoas da época e as das gerações vindouras.
O local é vigiado por um guarda que impede que os mais atrevidos se encavalitem nas obras de arte, para se fazerem fotografar, ou lhes impinjam baixos-relevos de péssimo gosto. A tentação é grande. Partes quebradas e alguns nomes, datas e promessas de amor gravadas na base das estátuas assinalam a incúria do passado.

Também em Congonhas, devido ao afamado Jubileu, e porque não fora feito um pedido de autorização prévio, sou impedido de fotografar o interior do santuário, embora me autorizem a visitá-lo, mas não por muito tempo pois os horários de encerramento são para cumprir… Verdade seja dita: com normas assim, tão apertadas, a vontade de documentar é pouca.
No interior da igreja podem ser apreciados admiráveis retábulos de talha, pinturas setecentistas e diversas estátuas dos mestres Jerónimo Félix Teixeira e Manuel da Costa Ataíde, companheiros de lides do Aleijadinho. O portal do santuário, de pedra sabão, é mais um desses elaborados conjuntos escultóricos de estilo rococó, comum às igrejas de Minas Gerais.

Nas lojas de artesanato não faltam namoradeiras (bonecas que são colocadas à janela, imagem de marca do turismo mineiro) panelas de pedra, «preços de fábrica em panelas de pedra sabão a partir de 12 reais», e colecções dos doze profetas em pedra sabão, mas em miniatura. Nalguns desses estabelecimentos grava-se e pinta-se na hora, em pedra e madeira, tudo o que o cliente desejar, e assegurada está a «fabricação própria de mensageiros do vento» e a venda de relógios e diversa outra bijutaria, «por atacado e varejo». Uma loja, mais original, lança um apelo: «venha conhecer o retrato do Aleijadinho. O génio mestiço, o artista mineiro: António F. Lisboa».

Ricardo empenha-se ao máximo, dando-me todo o tipo de informações a respeito do que vejo e o que não vejo, mas confesso que a minha maior preocupação é o registo de imagens. Assim que o sol dá um ar da sua graça, sempre nesse irritante jogo do esconde-esconde com as nuvens ameaçadoras, percorro o arraial fotografando tudo o que mexe. É que sol assim não passa de vã promessa, e daqui a menos de uma hora temos de regressar a Belo Horizonte.
Também em Congonhas não avisto turistas estrangeiros, embora fossem de esperar, neste recanto que merecidamente detém o título de Património da Humanidade.
publicado por JoaquimMDC às 15:48
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