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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
O oásis dos beneditinos
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Se em dia soalheiro a avistarmos do alto do Corcovado, de olhos fixos na baía de Guanabara, o Rio de Janeiro é certamente a cidade maravilhosa que todos falam. Mas nada tem de belo quando, num dia cinzento, entro pelo lado oeste, por um istmo que parece uma ponte e uma ponte que parece um istmo, aeroporto do Galeão à minha direita, depois da ilha do Fundão, unida agora à ilha do Governador.
Ao longe, num morro com séculos de histórias para contar, é visível a igreja de Nossa Senhora da Penha. Sinal de modernidade, a ponte que liga Rio a Niterói e os inúmeros arranha-céus.

Estou de regresso ao Rio oito anos depois. Parece-me mais degradado, mais caótico. Os alertas feitos poemas do Profeta Gentileza permanecem nas colunas de cimento que sustentam o viaduto que acompanha o porto em toda a sua extensão, ao longo da avenida Rodrigues Alves. Na parte inferior dessas colunas, sinal dos tempos, o apelo é mais terra a terra. A tenda espírita Búzios e Cartas propõe uma «missão de caridade por apenas 5 reais».

Chego ao Rio de Janeiro sem ter a mínima ideia onde vou ficar alojado. Até aqui contei com o apoio do turismo brasileiro, a partir de agora terei de recorrer aos meus dotes de experiente viajante. Nada que me deixe angustiado. Uma vez que a estada vai ser curta, o melhor é colocar a bagagem no guarda volumes da rodoviária. No processo, vislumbro entre a multidão apressada, duas sotainas negras. Devem ser beneditinos. Pergunto-lhes onde se situa o mosteiro de São Bento, o motivo da minha visita, e um deles responde-me:
– É muito perto. Não mais do que 15 minutos de táxi.
E com quem devo falar? Mauro é seu nome, por Mauro perguntarei.

Apanho o autocarro para a praça de Mauá. Dizem-me que o mosteiro se situa nessa área. Apesar dos dois quilómetros de distância apenas, passo uma hora e meia num infernal pára arranca. Ainda bem que não optei pelo táxi.
O primeiro transeunte que abordo na rua Sacadura Cabral, com pensões baratas mas pouco recomendáveis, aponta na direcção de um arranha-céus com janelas de vidro. «É para ali». Mas…como pode ser? Um mosteiro dentro de um prédio? Imaginem o meu espanto, que pensava ter de subir a um morro...
«Só pode estar escondido». E escondido está. Atravesso a avenida Rio Branco, entro na rua Dom Gerardo, e no número 68 deparo com uma entrada que dá para um minúsculo espaço verde literalmente entalado no betão. A pequena placa acastanhada não deixa dúvidas: «Mosteiro de São Bento».

Não fico muito impressionado com a fachada do convento, embora um céu azul pudesse dar toda uma outra dimensão a esta sobriedade. As torres laterais fazem-me lembrar o castelo de Santa Maria da Feira (recordação da adolescência), e a estrutura em si, o mosteiro e a igreja dessa mesma cidade, que tem as suas origens nos primórdios da nação. Aliás, qualquer câmara municipal do interior português rivaliza em imponência com a fachada deste edifício, onde predomina o granito e as paredes brancas. Os portões são de ferro forjado.
Surpreende-me, isso sim, a informação que encontro na placa de plástico afixada na parede de um edifício ali próximo, onde funciona uma escola: «A ordem beneditina instalou-se neste morro no final do século XVI e iniciou a construção do mosteiro em 1617, e da igreja em 1633. Esta é a terceira mais antiga abadia das Américas. Tombado pelo IPHAN em 1938, o conjunto foi considerado pela Unesco Património da Humanidade.»

Do alto do morro, abrigado pelo frondoso arvoredo que partilha espaço com os automóveis estacionados à frente do monumento, retirando-lhe dignidade, aprecio um pouco do que resta do Rio colonial, oculto por edifícios construídos nas últimas décadas do século passado. A sistemática destruição do centro histórico teve o seu auge quando foram arrasados 540 edifícios de grande valor patrimonial para dar lugar à avenida Presidente Vargas. Olhando para um mapa da cidade, esta via é uma verdadeira cicatriz cortando cerce ruas e vielas de traçado irregular, grande parte delas inspiradas nas ruas da velha Lisboa. Apesar de tudo, não falta história a esta cidade, onde se mantêm preservados muitos pedaços de memória, se bem que seja preciso saber onde estão localizados.

O mosteiro de São Bento é uma dessas relíquias que podem passar despercebidas a quem visita a cidade. Diariamente, várias pessoas deslocam-se à igreja da casa, dedicada à virgem de Montserrat, para apreciar as vésperas, cantados ao estilo gregoriano pelos monges residentes (umas duas dezenas), o que em si é uma atracção turística. Porque se acendem então todas as luzes, esta é a melhor altura para apreciar as tonalidades dos dourados e vermelhos que preenchem tecto e paredes, que da sua base à abóbada estão revestidas de ornatos, pinturas e estatuária, numa policromia que nos deixa rendidos. Em absoluto contraste com todo este fausto, a fachada principal é bastante simples, na linha monástica tradicional.

Frei Mauro, sempre muito prestável, deixa-me aos cuidados de um ou outro frade, para que me mostre o mosteiro por dentro. Começamos pelo claustro, com um jardim e algumas árvores, onde continuam a ser enterrados os irmãos quando morrem. Esta ordem é a única autorizada a fazê-lo, pois foi durante séculos a educadora oficial da família real brasileira.
As datas nas lápides de mármore vão de1767 a 1978. Numa delas, leio: «Mueller Portman, falecido em 2006.»
– Foi o último monge estrangeiro. Agora só temos cá brasileiros – informa o meu anfitrião, ironizando logo de seguida: – Bem. Não é bem assim. Temos aqui alguns mineiros…
É conhecida a rivalidade entre os cariocas e os nativos de Minas Gerais.
No primeiro andar, em toda a área do claustro, funciona a maior biblioteca da América Latina, «não em número de livros mas de títulos», como ressalva o beneditino.

De uma das varandas em granito temos uma excelente vista para a baía e a Ilha das Cobras, «outrora uma das senzalas da ordem». Foi aterrada e tem uma ponte que a liga à cidade. Há guindastes por todo o lado e um grande edifício de finais do século XIX. Entre a ilha das Cobras e o pontão de Mauá, estão dois submarinos e dois navios de guerra, entre várias outras embarcações. Com a ajuda da minha objectiva de 200 milímetros posso ler-lhes os nomes pintados no casco: Tupi e Tamoio. Assim se designam duas das tribos de índios com maior expressão no Brasil.
Este era então, certamente, um dos locais mais aprazíveis da capital, onde as ondas do Atlântico batiam directamente nas fundações do mosteiro. Hoje, o som é outro. Só a extrema grossura das paredes do mosteiro atenua o contínuo ruído do trânsito.
O cruzeiro Costa Mágica, com o pavilhão da União Europeia desenhado no casco, acaba de zarpar do cais e prepara-se para rumar em direcção à ilha de Paquetá. Passará no seu percurso na zona de aproximação ao aeroporto de Santos Dummont. No horizonte avistam-se vários aviões que se preparam para aterrar, com poucos minutos de diferença.
– Vi alguns deles caírem à água – comenta o frade com um enigmático sorriso.

Frei Mauro junta-se a nós para visitarmos uma pequena capela com cortinas carmesim, paredes de talha dourada e tecto de pranchas de madeira azuis, como os tectos das casas antigas. Há ainda estátuas e relicários, de um lado e do outro do altar. De salientar uma tíbia guardado dentro de um molde de uma perna em talha dourada, visível através de um pequeníssimo vidro.
– Pertence a São Vitório – garante frei Mauro.

São muitos os tesouros pertencentes a este convento fundado por dois leigos portugueses, que numa fase adiantada da sua vida decidiram tornar-se monges.
Frei Mauro destaca a imagem da Sagrada Família, «da autoria de Frei António do Desterro, nascido em Viana do Castelo», uma pintura de José de Oliveira Rosa, «o precursor da escola fluminense de pintura», e, ciente do local onde habitualmente resido, chama a atenção para alguma da mobília em pau de jacarandá da sacristia, peças que, segundo ele, «sofreram influências de Macau». Esta influência oriental sobretudo no traje de muitas das estátuas religiosas, tem sido um denominador comum nesta minha viagem sul-americana. Nada de surpreendente, já que o Brasil foi durante muito tempo ponto de escala obrigatório na rota para as Índias. Na ida e na volta.
publicado por JoaquimMDC às 15:52
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