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.Reportagem realizada num portátil:
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Ouro e pé de moleque
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Um gigantesco templo da Igreja Universal do Reino de Deus com pórtico romano, um exagero de luz e cimento acabado de inaugurar, é a primeira imagem que desta vez me oferece Salvador da Baía, antiga capital do Brasil, cadinho de todas as fusões etno-culturais, terra do candomblé e dos orixás, Património da Humanidade desde a década de 80 do século XX.
O ambiente da rodoviária local é mais agradável, menos confuso. Mas se calhar isso deve-se ao sol radioso e à proximidade de algumas das melhores praias do país. Entro, definitivamente, no domínio da mulata. E ela anda por aí, de calção curto e camisa de laço.

O pequeno autocarro que me conduz ao Pelourinho, coração do centro histórico, onde estão os locais que devo visitar – as igrejas de São Francisco e da Ordem Terceira –, percorre uma orla costeira ponteada com fortes, faróis e luxuosos hotéis. É uma enseada urbana que termina na ponta de Humaíta, onde anualmente decorre a cerimónia da Lavagem do Bonfim, na igreja com o mesmo nome, o mais importante evento do calendário religioso.
Do forte da Barra subimos até ao Campo Grande e à Graça, via avenida Sete de Setembro. Ao avistarmos a praça de Castro Alves sabemos que o Pelourinho é já ao dobrar da esquina. Também na Baía, à semelhança do Rio, os portugueses tentaram recriar uma Lisboa nos trópicos. Comprovam-no a toponímia, os edifícios e o traçado das ruas. O sóbrio edifício da prefeitura, ao estilo dos edifícios municipais portugueses, foi erguido em honra do fundador da Baía de Todos os Santos, e seu primeiro governador, Tomé de Souza. Aqui se ergueram as primeiras casas, com pedra trazida directamente da metrópole.

Nas esplanadas em redor do chafariz oitocentista do Terreiro de Jesus vende-se suco de coco e cerveja e as coloridas baianas de saiote rodado incitam-nos a que provemos do seu acarajé, inspiradas pelo ritmo hipnótico do berimbu que faz rodar os praticantes da capoeira. Há sempre movimento nesta praça, até altas horas da noite.
A rua que conduz ao Pelourinho é um imenso expositor de arte e de artesanato, percorrido por inúmeros turistas. Em Salvador, ao contrário do que acontece nas cidades históricas mineiras, abundam visitantes estrangeiros. O casarão azul que aloja a Fundação Jorge Amado, o mais conhecido dos baianos (se bem que haja vários pretendentes ao título), é o edifício mais vistoso do local onde eram castigados escravos e criminosos. Ironicamente, têm também aqui a sua sede a Casa do Benin e o Centro Cultural da Nigéria, instituições representativas das culturas do Golfo da Guiné, de onde era traficada a mão-de-obra que construiu o Brasil.

A fachada da Ordem Terceira, ramo secular dos franciscanos, chama a atenção pela variedade de motivos rendilhados em pedra. Geométricos, florais, antropomórficos. Bem mais austera, recolhida num nicho, a estátua de São Francisco segurando uma caveira lembra-nos da caducidade das coisas terrenas.
Caracteriza o claustro em frente um belo relógio solar e um admirável conjunto de azulejos que retratam a Lisboa antes do terramoto. Porventura o conjunto pictórico mais importante da época. Infelizmente, muitos dos azulejos estão bastante danificados e o trabalho de recuperação iniciado pela Fundação Calouste Gulbenkian parece ter sido interrompido. Pelo menos disso se queixa Raimundo Couto, o encarregado do património da irmandade.

Estamos na sala de reuniões da directoria e uma sessão acaba de ser liderada por um homem já idoso, português, que, ao contrário de Raimundo, não é atencioso nem se mostra minimamente interessado no motivo que aqui me traz.
Ocupa boa parte da sala uma enorme mesa e várias cadeiras em madeira de jacarandá da Baía.
– Este tipo de jacarandá distingue-se dos restantes por ser de cor castanha, com veios negros em vez das habituais tonalidades amarelas e avermelhadas – informa Raimundo, chamando-me ainda a atenção para os lustres de bacará e a madeira do soalho de cotumuju, uma árvore da região da Baía actualmente em risco de extinção.
As pormenorizadas pinturas do tecto, que retratam cenas bíblicas, obrigam-me a posturas de ginasta para perceber o que é. As portas, muito antigas, foram reforçadas com chapas de ferro, para defesa dos ataques dos piratas franceses e holandeses que assolavam as costas do Brasil.

Fundada em 1635, a ordem dos Irmãos de São Francisco de Assis tinha imensos recursos e os seus membros eram obrigatoriamente ricos e de raça branca. Hoje, felizmente, a condição social é irrelevante. Basta que o candidato seja católico e um irmão o recomende aos restantes.
Estão sob a responsabilidade de Raimundo Couto mais de 170 casas doadas ao longo dos tempos, pois era a forma de muitos irmãos tentarem a sua entrada no paraíso.
– Se chegaram lá ou não, não sabemos – ironiza o baiano.
Essas casas servem para obter rendimentos para manter o lar franciscano, um enorme edifício amarelo que vemos em frente.
Sou confrontado com dezenas de estatuetas de santos, relicários, oratórios, estandartes, andores e paramentos sacerdotais de diversas épocas. Couto chama a atenção para uma pequena estátua do Santo António:
– Olhe as mãos, os pés e o rosto, como são proporcionais. Esta é estátua mais perfeita que conheço. É de gesso. Se fosse de madeira, o seu valor seria incalculável.
Aproveito para espreitar os telhados da cidade. Num primeiro plano, o casario tradicional; num segundo plano, as construções modernas. As pessoas que avisto na íngreme viela que desemboca na Baixa dos Sapateiros, «local a evitar a partir das 6 da tarde», pertencem a uma realidade social bem diferente das que se passeiam pelo Pelô, como apelidam os baianos o principal cartão-de-visita de Salvador.
– Estamos no cocuruto do morro – prossegue Raimundo. – Os antigos eram muito sabidos, tinham isto tudo cercado, para se defenderem dos índios e dos piratas. Sobretudo destes últimos que queimavam usinas e igrejas.
Ao fundo da ladeira, que na época não passava de um precipício de mato e pedra, havia um portão, «do Carmo», que complementava um outro, a sul, na ladeira do São Bento.
Inesperadamente, na igreja, uma mulher começa a cantar. Mas que bela voz de soprano! Canta um momento e depois cala-se, baixando a cabeça, como tivesse acabado de rezar. Observo-a de um dos dois camarotes reservados à alta sociedade. Aos governadores, bispos e capitães de outrora.
– Como eles brigavam muito – esclarece Raimundo – tinha de haver dois camarotes para os separar. Era assim em todas as igrejas.

No exterior, os vendedores de bijutarias com fiadas de colares de missangas pendendo das mãos nervosas, acercam-se das portas da igreja de São Francisco que estão prestes a abrir. A gestão deste valioso património pertence aos franciscanos da Primeira Ordem. Ou seja, aos monges propriamente ditos. A fachada é muito mais sóbria do que a parceira do lado, mas o seu interior é um dos mais exuberantes exemplos do barroco português em todo o mundo.
Entro no átrio e peço para falar com o responsável. Sai-me na rifa um frade com cara de poucos amigos e com sotaque germânico que começa por me dizer que não está autorizado a deixar-me fotografar o interior, mas logo depois diz que sim, que o posso fazer desde que avance com 300 reais que me serão devolvidas quando «providenciar a matéria escrita» referente ao projecto em que estou envolvido. Também devo garantir, por escrito, que as minhas fotos não têm qualquer pretensão comercial.
É claro que declino a proposta e pago o bilhete de entrada para simplesmente visitar o local, sem direito a fotografia. Qual não é o meu espanto quando, ao entrar na igreja – após apreciar as cenas religiosas e campestres dos azulejos que decoram o claustro, também em mau estado –, reparo que toda a gente fotografa e filma o que muito bem lhe apetece, havendo até quem se dá ao luxo de tocar na talha e nas estátuas que estão ao alcance da mão, seguindo, de resto, o exemplo de alguns dos guias.

O interior desta igreja é, de facto, de uma sumptuosidade única, um verdadeiro desafio aos sentidos. Por isso não me dou ao trabalho de apresentar o meu protesto junto ao frade alemão, até porque hoje é Terça Feira da Bênção, dia de copos e concertos gratuitos nos largos de Jubiabá, Teresa Baptista e Quincas do Berro de Água. Esta noite – lembro-me bem da última vez que cá estive – as ruas apertadas transformar-se-ão numa espécie de Bairro Alto tropical.
publicado por JoaquimMDC às 15:55
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1 comentário:
De Lêda Rezende a 6 de Maio de 2009 às 17:59
adorei este blog!!! adorei mesmooo!!!
parabéns pelo destaque!
merecido
Sou brasileira, nascida em Salvador, embora resida em São Paulo! fiquei emocionada com seu texto e fotos! lindo, querido! obrigada!
a acho seu protesto super válido! procedente!
bjbj
Lêda
http://blogs.abril.com.br/leda
http://ledarezende.blogs.sapo.pt/

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