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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Aqui nasceu o Brasil
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Percorrida a Costa do Descobrimento que a frota de Cabral tocou e a pena de Vaz de Caminha tão bem documentou, e depois de uma breve estada na capital do Brasil multirracial, é altura de rumar, uma vez mais de camioneta, a uma das primeiras regiões a serem ocupadas pelos portugueses em Terras de Vera Cruz. Talvez, por isso, não seja de admirar a presença aqui de duas das maravilhas a concurso, por sinal quase cidade gémeas, com uma história e um mar comuns.

Se em Minas Gerais foi o ouro o motor do desenvolvimento e das tragédias, a riqueza de Pernambuco trouxe-a o açúcar, plantado em grandes extensões centradas nos engenhos – que ainda hoje se podem visitar –, palco de desmandos de coronéis, e a sua relação com caboclos e cangaceiros, de que todos já ouvimos falar, pois Lampião e quejandos foram sobejamente retratados nos romances, no cinema e na banda desenhada. Mas com a riqueza sobreveio a guerra: Pernambuco, facilmente acessível por mar, foi assolado por holandeses e franceses. E se nos séculos XVI, XVII e XVIII se cobiçavam as riquezas produzidas na terra – alturas houve em que mais de 500 engenhos operavam simultaneamente –, hoje são os mangais, as dunas e as águas cristalinas o que mais de precioso há a preservar.

Porto de excelência, que começou por ser um apêndice da já estabelecida povoação de Olinda, Recife – «o Arrecife quinhentista» – era, em 1609, um simples acumulado de casas que em quinze anos apenas se transformaria num traçado urbano povoado por duas centenas de portugueses muito devotos, que para o provarem erigiram a capela de São Pedro Gonçalves, ou do Corpo Santo, como também era conhecida.
À força de se entulharem terrenos alagadiços, a localidade foi-se expandindo, e de uma forma desorganizada surgiram ruas paralelas. Curiosamente, a cidade só adquiriria esse estatuto com Maurício de Nassau, governador holandês que em 1637 assumiu as rédeas do poder (sete anos após a conquista da cidade pelos seus compatriotas), começando por fundar o bairro de Santo António, na época uma das três povoações que acabariam por dar origem a Recife propriamente dito.
Agora existem muitos outros bairros, ligados por uma extensa marginal, que só não constituem um elo urbano ainda mais longo, porque entre Vitória e Joabatão de Guararapes há que deixar um corredor aéreo, pois o aeroporto fica muito perto da cidade.
É nesta última cidade satélite que tenho familiares, nados e criados no Brasil.

Chego à rodoviária de manhã bem cedo. E lá estão, o primo Fernando e a prima Ana, como se nunca se tivessem regressado a casa desde que os deixei, neste mesmo local, já lá vão oito anos. O Fernando, pai da Ana, um entusiasta pela história, como eu, certamente já não se recorda o que então me dissera, pois volta a dizê-lo, um facto atrás do outro, um número após outro, tal é a paixão que nutre pela sua terra.
«Aqui nasceu o Brasil», vejo escrito nalgumas placas desta zona da cidade, como que a corroborar a dedicação e empenho deste meu primo em segundo grau.
Os pernambucanos orgulham-se da derrota que infligiram aos holandeses, em 1648, na famosa batalha de Guararapes, num local assinalado hoje por um miradouro e uma maqueta onde o episódio é contado em miniatura. Este é um excelente posto de observação para quem, como eu, gosta de ver levantar e pousar aviões.
Expulso o invasor holandês, as ordens religiosas regressaram em força, prontas a restaurar os antigos conventos e mosteiros e, claro, a erguerem mais e mais igrejas. A que nos interessa surgiu de uma iniciativa dos franciscanos que a dedicaram a Santo António, mesmo ao lado de um convento que já exista em 1606.

Ao inteirar-se da minha missão, a principal preocupação de Fernando passa a ser levar-me a esse local. O dia está magnífico, mas na mente do comum dos brasileiros paira, como sempre, o receio das ruas vazias.
– É sábado papai – alerta Ana – é melhor irem lá durante a semana. Agora é perigoso. Está cheio de vagabundo. Ainda vão ser assaltados.
Pese o exagero, Ana tem alguma razão. Passear no Recife com uma máquina fotográfica profissional, mesmo em pleno dia, é estar a pedi-las.
Mesmo assim, dirigimo-nos ao convento onde travamos conhecimento com o frei Salvador Macedo de Oliveira, que está na Ordem há 54 anos. Contrariamente ao que se passou no convento de São Francisco, em Salvador, aqui é tudo facilidades.
– Pode fotografar à vontade – convida o simpático frade, aproveitando para me chamar a atenção para o avançado estado de degradação dos azulejos do claustro.
– O salitre está a destrui-los – diz.
Não precisava de o dizer. A coisa salta à vista. Há até secções onde esses azulejos, fabricados em Portugal no reinado de D. João VI, já caíram. Quando lhe pergunto se há algum projecto de restauro previsto pelo IPHAN ou por alguma entidade portuguesa, frei Salvador desabafa:
– Até agora ainda não vi nenhum português chegar aqui não.
E aproveita para recordar que em Salvador tem havido muito mais investimento na recuperação do património, pois «os azulejos de lá estão em melhores condições».

No convento vivem 12 frades, entre brasileiros e alemães. Um deles conversa com Fernando enquanto eu me entretenho a fotografar. De tempos a tempos o pequenino frade, irrequieto e sempre sorridente, dá-me algumas indicações. Conduz-me por um corredor até uma das portas de saída do convento.
– Debaixo das pedras deste corredor foram enterrados muitos frades portugueses, assassinados durante um ataque holandês – diz.
Reparo que a porta de cor verde tem as mesmas barras de ferro, para a tornar mais resistente. Pelos vistos, de nada valeu.

O conjunto de azulejos no interior retrata cenas da criação do mundo e está em muito melhor estado que o do claustro. Todo o mobiliário da sacristia é feito em madeira de jacarandá. Frei Salvador destaca a pia baptismal, um cadeirão de estilo D. João V e um bonito e compacto armário com dezenas de pequenas gavetas.
– Era aqui que os frades guardavam os seus pertences – diz.
Indica ainda uma pesadíssima mesa colocada no meio da sacristia a que chamam «mesa de bolacha», devido à forma torneada da madeira na sua base.
Minutos depois, sob as arcadas do claustro, vejo-o receber uns donativos de uma senhora ainda jovem.
– É a mulher do prefeito – segreda-me ao ouvido o primo Fernando.
Antes de irmos, frei Salvador faz questão de lançar um apelo em frente da minha máquina de vídeo. Lembra ao «nosso querido Portugal, nossa mãe, que veio de lá para cá, descobrindo esta terra maravilhosa de Santa Cruz» a sua obrigação «para salvar toda a história do azulejo do Brasil que pertence totalmente a Portugal», concluindo, em jeito de bênção, que «há que procurar o mais rápido possível soluções de restauro e de vida, ámen».

A igreja da Ordem Terceira fica colada ao convento de Santo António, mas a sua administração é feita separadamente.
Invertem-se agora os papéis. Ao contrário do que se passou em Salvador, no Recife são os responsáveis da Ordem Terceira que começam a complicar, conduzindo-me a um quarto onde terei de aguardar para poder falar com um dos responsáveis que irá ou não conceder-me autorização para fotografar. Claro que não fico à espera, pois logo me apercebo que é mais fácil fazer a visita na condição de turista, e assim tirar as fotos que quiser, pois ninguém me irá impedir de o fazer, como não impedem os restantes visitantes.

A decoração interior, da autoria de António Santiago, é unanimemente considerada pelos especialistas da história da arte «a mais importante obra de talha do espaço português». Nas paredes laterais podem ser apreciados vistosos retábulos. A pintura é, aliás, a componente predominante, e uma vez mais deparo com temas alusivos ao Oriente, desta feita alguns quadros que contam a história dos franciscanos martirizados no Japão. Há, no entanto, uma série de pinturas que me deixam intrigado, pois foram vandalizadas. Alguém riscou os olhos de todos os personagens nelas retratados.
– Consta que são os judeus que fazem isto, por não concordarem com a versão dos factos retratados nestas obras de arte – diz-me em voz baixa o primo Fernando.
«Mas quais factos?», apetece-me perguntar. Pois. Se calhar deveria ter aguardado na sala, obedientemente, pelo tal responsável da Ordem Terceira…
A verdade é que não posso dar-me ao luxo de aprofundar muito as visitas que faço. Antes que o dia termine há que regressar a Joabatão de Guararapes, onde a identidade brasileira se afirmou pela primeira vez, e onde nos espera uma refeição quente preparada pela prima Lúcia, a mulher do Fernando.
publicado por JoaquimMDC às 15:59
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