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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
A vila dos sete morros
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Quem, vindo do sul do Brasil, pretenda chegar a Olinda, tem de atravessar as pontes e os canais do Recife, essa tentativa de recriar Amesterdão nas Américas, sendo o último de uma série de viadutos com que se deparará, aquele onde pereceu, num acidente de viação, Chico Science, criador do mangue beat, um dos recentes estilos musicais de Pernambuco, que veio enriquecer a já vasta panóplia de ritmos nordestinos onde, entre outros, se inscrevem o frevo, o maracatú e, claro, o endiabrado forró.

Enquanto os traços holandeses pouco se notam, a lusitanidade transpira por todos os poros desta cidade caracterizada por um número elevado de igrejas e um estilo arquitectónico, no mais puro barroco tardio, comum a todos as povoações fundadas pelos portugueses, fosse na América, em África ou nos diferentes recantos da Ásia. Acresce a tudo isto, a curiosa singularidade de serem sete as colinas onde foi crescendo o povoado original, como sete são as colinas de Macau (sua concorrente nesta iniciativa), Lisboa, Roma e um número indeterminado de outros locais do planeta. As sete colinas associadas a cidades é uma desses mistérios e coincidências que não se conseguem explicar.

Desloco-me a Olinda na companhia de três das minhas primas brasileiras, um passeio que tem como destino final a casa onde actualmente vive o responsável por esta muito unida prole, decano da família, pelo lado da minha mãe, o português e meu tio-avô Elísio Caldas, natural de Lobão, Santa Maria da Feira.
Elísio foi um dos muitos jovens que nas primeiras décadas do século XX vieram procurar a sorte numa cidade que quatro séculos antes o primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, mandou erguer numa colina sobranceira ao mar. Ela acolhe o mosteiro de São Bento, símbolo maior do barroco, que serviria de inspiração a tantos outros em todo o nordeste brasileiro.

Estamos no início da tarde a as ruas próximas ao monumento estão vazias. A cidade, rendida aos 35 graus centígrados, dormita ainda.
Embora não o aparente exteriormente, o mosteiro de São Bento, datado de 1760, obra do arquitecto Francisco Nunes Soares, é a mais categorizada edificação da cidade. O seu altar-mor de talha dourada, executado por frei Miguel Arcanjo da Anunciação, regressou recentemente dos Estados Unidos, onde permaneceu durante vários anos para obras de restauro. Chegou mesmo a estar exposto ao público durante algum tempo. Pelo menos é o que diz o guia de um dos raros grupos de turistas com que me cruzo no interior.
Inspirado no Mosteiro de Tibães, no norte de Portugal – dizem os entendidos –, este edifício situa-se a meio caminho entre a parte baixa e a parte alta da cidade, antes de chegarmos às ruas dos entalhadores, ceramistas, pintores e escultores, pois do cultivo das artes vive ainda esta pequena e tranquila pérola pernambucana.

Fabricam-se em Olinda estampas, máscaras (algumas estão expostas nas fachadas das casas que as produzem) e xilogravuras – os folhetos impressos com moldes de madeira é uma tradição europeia que remonta ao século XV.
Mas são os bonecos gigantes, com origem nos gigantones das festas populares das povoações do litoral norte de Portugal, o que mais impressiona. Eles são, aliás, uma das principais atracções do Carnaval, e a prova provada que foram os portugueses que introduziram esta festividade no Brasil, e não contrário, como ainda muita gente pensa.

No alto da Sé, deixo as primas entregues as suas compras, e avanço para a cidade que continua meia deserta, numa busca que terá de ser pessoal e totalmente pedestre. De outra forma não podia ser. Olinda é pequena e compacta. Uma verdadeira concha que encerra pérolas arquitectónicas que se tornam ainda mais belas quando as vemos alinhadas ao longo das ladeiras íngremes e fortemente arborizadas.

Entre as duas dezenas de templos católicos, destacam-se a igreja do Santo António do Carmo, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos – a primeira em Pernambuco a autorizar a entrada de negros escravos ou alforriados – e, no Alto da Sé, principal palco da cidade, a igreja de São Salvador do Mundo, fundada em1540, onde está o túmulo de Dom Hélder Câmara, o «bispo vermelho», defensor dos sem-terra e opositor à ditadura militar.

Em Olinda viveu também, em 1627, tinha então 18 anos apenas, o padre António Vieira, paladinos dos povos indígenas e dos escravos africanos, e certamente alguém que inspirou o inspirador da «teologia da libertação». Numa das suas alas laterais exteriores consegue-se uma das melhores panorâmicas.
A tradição social reflecte-se também no domínio académico. Inspirada pela Universidade de Coimbra, Olinda acolheu a primeira Escola Superior de Direito, fundamental no processo de evolução do Brasil imperial rumo à República.

No Alto da Sé onde, em 1860, um astrónomo instalou o seu observatório, tendo descoberto um cometa a que deu o nome de Olinda, o prédio Caixa d´Água, a primeira construção modernista no Brasil, chama a atenção e divide opiniões. Apesar de não ser da sua autoria teve a mão do «intocável» Oscar Niemeyer, que aos 100 anos, tal como o nosso Manoel de Oliveira, continua a trabalhar com uma energia invejável.
Alto da Sé é também sinónimo de gastronomia pernambucana. Em pequenos estabelecimentos, ou numa simples esplanada, podemos degustar a tapioca (bolinhos feios de mandioca), o queijo de coalha assado na brasa, as cocadas, os biscoitos e licores artesanais produzidos nos conventos ou mosteiros, enquanto ouvimos os afamados repentistas locais. Munidos de uns instrumentos de corda híbridos, entre a guitarra e o banjo, improvisam versos num estilo que faz lembrar o cantar ao desafio popularizado no Douro e Beira litorais.

Mas nem só de igrejas e Carnaval vive Olinda. Existem muitas outras construções históricas de relevância. É o caso do forte de São Francisco, «o fortim do Queijo», o palácio dos governadores e inúmeros sobrados onde é por demais evidente a influência árabe. Os residentes de Olinda estão proibidos de alterar o exterior das casas onde vivem, mas ninguém os pode impedir que, pelo Carnaval, as aluguem aos foliões vindos de outras partes do país, e até do estrangeiro. Muitas destas moradias foram transformadas em pensões e hotéis de charme, numa variada e abundante oferta para todos as bolsas. Os fios eléctricos e de telefone – a maior nódoa visual de Olinda – esses, é que continuam por soterrar.

«Mas que lindo local para erguer uma vila», teria dito um subordinado de Duarte Coelho (há quem atribua a frase ao capitão donatário) ao subir a colina que se ergue a norte da actual cidade de Recife. Desde então muita obra foi feita no lindo lugar de Olinda, graças aos proveitos da produção da cana-de-açúcar, uma economia onde tiveram um papel fundamental os cristãos-novos portugueses aqui refugiados, que na cidade vizinha fundariam a primeira sinagoga das Américas, e, anos mas tarde, estabeleceriam as bases da hoje poderosíssima comunidade judaica de Nova Iorque.
Nem a destruição e o saque perpetrados pelos holandeses, que obrigaram a uma alteração radical do tecido urbano – que é o actual e data do século XVIII –, impediu essa evolução, que culminaria, em 1982, na obtenção do almejado título Património da Humanidade. A isso se deve, com certeza, a harmonia mantida entre os edifícios e os espaços verdes, ainda hoje um dos principais atractivos deste aprazível local cantado por Alceu Valença, filho da terra, que não hesita em chamar «minha mulher» a Olinda: «Tu és linda/Para mim és ainda /Minha mulher/Calada /O silêncio rompe a madrugada».

Já o sociólogo Gilberto Freyre, autor de um dos livros fundadores do pensamento moderno brasileiro, «Casa Grande e Senzala», diz que «não há apenas as árvores que convivem numa excepcional intimidade com as igrejas antigas. Há também os pássaros e as crianças», justificando o seu fascínio pela cidade do seguinte modo: «Tudo isso é por causa da luz, que permite que a natureza refresque constantemente a tradição».
Agora sei porque razão o tio-avô Elísio não foi capaz de partir para o sul em busca de cidades mais prósperas, Rio de Janeiro ou São Paulo, como muitos outros o fizeram. Olinda, era, apesar de longe o que mais perto tinha da sua aldeia natal. Com uma vantagem: um mar que, ao contrário do nosso, parece incapaz de se zangar.
publicado por JoaquimMDC às 16:03
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2 comentários:
De jorge barros a 14 de Maio de 2009 às 20:04
Boa tarde Joaquim
sou Jorge Barros editor da revista Style from Brazil
gostava de trocar uma ideia sobre um matéria na revista.

meus contatos
91 682 94 80
jorge.barros@stylefrombrazil.com

msn: jorgebarros_producao@hotmail.com

obrigado

Jorge Barros
De Eunice Vasco a 31 de Maio de 2009 às 18:06
Vim dar os parabéns: o blog tem fotografias muito bonitas, e através dos textos faz-nos, de certa forma, "viajar".

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