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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A fortaleza fluvial
A construção de praças-fortes na costa sul de Marrocos, tarefa do incansável Dom Manuel I, começou do sul para o norte. No universo geográfico que se estende entre Meça, na fronteira com o deserto do Sara, e Azamor, foram erguidos castelos em Santa Cruz de Guer (actual Agadir), em Mogador, Aguz, Safim e Mazagão. Tudo num espaço de 15 anos.

A minha viagem prossegue no sentido inverso à cronologia que marcou a construção das duas praças-fortes marroquinas a concurso. Azamor, também património de origem lusa, é uma cidade que os forasteiros visitam numa tarde livre, aproveitando a sua estada em Mazagão. É o que faço, mas com plena consciência que Azamor merece ser apreciada mais demoradamente. Entre estas duas cidades amuralhadas, estende-se uma costa batida pelo vento constante e um mar alteroso. Os despojos ferrugentos de um barco naufragado comprovam a perigosidade dos recifes. Já o luxuoso complexo turístico Mille et Une Nuits pisca o olho aos indecisos dando-lhes a entender que não precisam de enfrentar o mar para poderem passar umas férias relaxantes. Outros projectos do género estão em preparação, prontos a justificar a nova auto-estrada que, vinda de Tânger, passa ao largo de El Jadida, prolongando-se depois até Marraquexe.

Faço a viagem até Safi de autocarro. O trajecto é pela estrada antiga. Lá fora vêem-se campos de trigo a perder de vista. Quebram a monotonia alguns silos que aqui podem ser considerados verdadeiros arranha-céus.
Classificada como a mais bela das praças-fortes portuguesas, Safi respira simpatia logo à chegada. Ainda por cima o céu é iluminado por um sol que já tardava.

O terraço do Magestic Hotel tem uma excelente vista para a torre manuelina do Castelo do Mar, a uns 200 metros de uma zona portuária que regista a maior actividade do país. Daqui sai muito do peixe que Marrocos exporta. Em frente ao castelo passa uma linha ferroviária ao longo da qual, várias vezes ao dia, uma locomotiva transporta vagões com o fosfato originário do complexo industrial que temos como pano de fundo, na zona norte da cidade.
O Castelo do Mar guarda no seu pátio interior uma impressionante colecção de trinta peças de artilharia, tendo algumas delas inscrições portuguesas. Sob o arco da Porta do Mar, onde se fazia a descarga de passageiros e mercadorias, dois homens bebem cerveja, longe dos olhares indiscretos e certamente reprovadores.

O que mais impressiona neste forte é a beleza das suas janelas de recorte tipicamente manuelino. Manuelinas são também as esferas armilares e os dois anjos que ladeiam o escudo com as quinas esculpido na parte norte das muralhas que rodeiam a cidade num perímetro de vários quilómetros. Este é um bom exemplo da intervenção portuguesa operada numa estrutura militar já existente e onde tem agora a sua sede o Museu de Cerâmica, pois as coloridas peças de olaria de Safim são reputadas a nível mundial.
No lado sul da cidade, a encosta é bastante escarpada. O abismo é de uns quarenta metros, o que não impede que as pessoas se aproximem dele perigosamente. Há até quem faça piqueniques com os pés lançados sobre o vazio…Olhando daqui a cidade, reparo que a torre da mesquita em frente assemelha-se muito mais a uma torre de igreja. Outro exemplo de um edifício transformado aquando a mudança do senhorio da comarca. Nesta matéria, no lado de cá e de lá do estreito de Gilbraltar, passou-se exactamente o mesmo.

Também de estilo manuelino é a dita Catedral Portuguesa, escondida numa das vielas do souq. Da igreja original resta uma sala de estilo gótico com a cruz de Cristo e elementos decorativos na pedra das paredes e do tecto abobadado. Quem a vê fica com uma vaga ideia de como é o mosteiro da Batalha.

Safim considerava-se vassala de Portugal desde a tomada de Arzila e Tânger, no reinado de D. Afonso V, colocando-se desse modo ao lado do esperado vencedor num tabuleiro com muitas peças onde se jogavam variados interesses. Na realidade, todos estes lugares funcionavam como pequenas repúblicas com grande autonomia. Foram os conflitos entre as famílias locais que permitiram a ocupação definitiva da cidade pelos portugueses. Que foi quase um passeio, liderado por Diogo de Azambuja, até ao porto, onde tínhamos já feitoria. Em torno dela se levantou a fortaleza. Azambuja juntava Safi às capitanias de Mogador e de Aguz, deixando na cidade um legado de abusos, violências e crueldades que levariam ao seu afastamento poucos anos depois.

Safi é daqueles locais que temos dificuldades em deixar. A medina é feita de vielas entrecruzadas que se alargam e se apertam, às vezes permitindo que as casas quase se toquem. O espaço de passagem é proporcionado pelas arcadas ogivais que provocam sombra, ou mesmo escuridão total, e anunciam túneis labirínticos que se subdividem partindo em diferentes direcções, convidando a descobrir para um lado, a descobrir para o outro. Crianças brincam, velhos exercem ofícios ancestrais que não correm o risco de desaparecer tão cedo, mulheres conversam à porta de casa ou à janela.
Curiosamente, não me sinto intruso. Passeio sempre à vontade e raras são as vezes que me negam a fotografia. Apesar dos trabalhos de restauro, para posterior aproveitamento turístico, não há qualquer sinal indicativo de que esta foi praça-forte estrangeira.

Há tempos ouvi alguém dizer que «vê-se uma medina, vêem-se todas». Não iria tão longe, mas a verdade é que, entre umas e outras, são mais as semelhanças do que as diferenças. Também aqui há casas à venda, e não são poucas.
Uma mulher convida-me a beber chá em sua casa. Lá dentro, o marido assiste a um jogo de futebol e um jogo de futebol por mais insignificante que seja é sempre um bom motivo para meter conversa. Também o são as fotos de outros estrangeiros (no caso, italianos) que aqui passaram e que também beberam chá e até houve quem ficasse para jantar, convite que também me é feito. Admito que há na inesperada recepção muita hospitalidade, mas também alguma esperança em encontrar um marido estrangeiro para a filha mais velha, se bem que seja a mais nova a fazer as honras da casa. Segundo os cânones muçulmanos, vinte e sete anos é já uma idade avançada.
Mathew Sanders, um engenheiro químico inglês recentemente aposentado conhece bem Safi. «Esta é a minha décima quinta visita», especifica. E à décima quinta visita decidiu finalmente comprar casa, pois aprecia «o sossego daqui», longe do buliço de Marraquexe e Essaouria. Durante as suas estadas nesta cidade aprendeu a misturar-se com os locais. Se for discreto, um europeu pode passar despercebido, mas não por muito tempo. «A intuição dos marroquinos depressa desvenda a nossa verdadeira identidade», confessa Mathew.

Estabeleço laços de afinidade com o vendedor de jornais na rua e com os donos do café (coisa fácil em Marrocos) onde de manhã vou beber um galão e à noite me entretenho a ver jogos de futebol com os homens do bairro. Denominador comum nos cafés marroquinos é o retrato de Hassan II ou o seu filho Mohammed V (expostos em lugar de destaque) bebendo chá num copo ou uma chávena de prata. Se estamos num restaurante, os monarcas são retratados a comer. Se é num hotel a pose terá de ser mais digna. Surgem, neste caso, vestidos de branco em posição de prece, com o terço islâmico e o alcorão nas mãos; ou então, em foto de família.
No mercado, não sei a que propósito, alguém pergunta-me se sou judeu. Respondo que não e replico com um «e você?» que deixa o meu interlocutor mudo. Presumo que não seja fácil assumir uma origem destas nos tempos que correm, mas que subsistem judeus na cidade é um facto adquirido. Talvez sejam aqueles que vejo sentados nalgumas das pequeníssimas ourivesarias, velando pelos objectos em ouro e prata…
“Souira, Souira! Marrokuch, Marrockuch!”. São estes os pregões que mais se ouvem na rodoviária de Safi. Referem-se a Marraquexe e a Essaouira, a «cidade dos ventos alísios», outro do património de origem portuguesa que merecia também fazer parte da lista. Mas como não faz, regresso a Casablanca. E dali partirei, via Dacar, para São Jorge da Mina, no Gana, para ver o que lá deixou construído, o carrancudo Diogo de Azambuja.
publicado por JoaquimMDC às 13:26
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