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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
O farol de El Jadida
A questão do cereal foi fulcral em todo o processo da expansão portuguesa no norte de África. A edificação de fortalezas a sul tinha como objectivo o escoamento dos produtos da região de Duquela, fértil em trigo. Na busca de um lugar que lhes proporcionasse desembarque seguro, a coroa portuguesa recorreu à baía de Mazagão, apetecido posto comercial, exemplo de resistência até ao final do século XVIII. Foi a última das praças do Magrebe a ser abandonada. É para lá que vou. De comboio.
De Rabat a Casablanca é um tirinho. Sessenta minutos de viagem apenas, com paragem em Mohammadia, o único registo urbano antes de chegarmos à badalada cidade. Depois de uma breve incursão ao país real, recorrendo a desconfortáveis camionetas apinhadas de gente, eis-me de regresso ao universo das viagens à europeia, onde cada um dos passageiros vai metido consigo próprio. A rapariga sentada a meu lado é uma dessas brasas de capa de revista, com longas pestanas, das verdadeiras, embora com excesso de rímel, o rapaz em frente entretém-se a folhear uma revista francesa sobre gestão, a jovem sentada a seu lado fala ao telemóvel, em francês, e a mulher no assento oposto é uma verdadeira sósia da actriz São José Lapa. Pergunto-me: «estou mesmo em Marrocos?»
Como se me tivesse adivinhado o pensamento, a que fala ao telemóvel, pondo fim ao diálogo com um decidido «alors, à demain!» saca de dentro da mala de um pequeno livro em árabe e fixa os olhos atentamente no conteúdo das suas páginas, como a mais devota das muçulmanas.
O mar, ao largo, continua a ser referência, embora as águas cinzentas de chumbo sejam pouco atractivas. Nuvens carregadas toldam os céus de Casablanca, a Bar El Beida dos árabes. No meio dos campos de cereais surgem agora tamareiras isoladas como que se as sementes tivessem voado para aqui a partir do deserto, que se adivinha a sul. A alguns quilómetros do destino final avista-se Azemour (Azamor), no lado esquerdo do rio Houm Rabia, exactamente como indicam as nossas crónicas de antanho. O dilúvio acontece em Mazagão no exacto momento em que ganhamos a estação ferroviária, nas antípodas do coração da cidade.
Cité Portugaise. Assim é conhecido o perímetro amuralhado da Mazagão antiga, Património da Humanidade, outrora totalmente isolado por um fosso cavado na rocha. Ligava-o à terra uma ponta levadiça. Era pela Porta do Mar, virada ao oceano, que entravam os meios que lhe permitiam a sua sobrevivência.
Hotel du Magreb. Hotel de France. Hotel de Bordeaux. A escolha não é muita e cheira sempre a francês. Opto por ficar no Nice, que é mais pensão do que hotel. Tal como os restantes, situa-se fora do recinto amuralhado. Por 60 dirhams disponho de um quarto minúsculo no último andar com vista para as ruelas dos diferentes mercados – os kissakanis dos panos, dos legumes, da carne, caracterizados (todos eles) por arcadas góticas quem lembram o estilo manuelino. O mesmo acontece com os umbrais das portas das casas do bairro. Existia aqui um bem organizado sistema de trincheiras e muros – os belagins – destinados a proteger as hortas onde os moradores da praça se abasteciam de verduras e frutos. As ruas têm nomes franceses, ou simples números. No extremo sul, onde outrora estavam os «espadões que defendiam mar e terra», ergue-se um farol que à noite espalha luz pela cidade.
Em Mazagão não há sinais de guias nem mendigos ou sequer o habitual vendedor disto ou daquilo, o que não deixa de ser estranho, pois é um dos destinos turísticos do país. As pessoas são de poucas palavras e parecem preferir o distanciamento, quando se trata de lidar com forasteiros.
A Cidade Portuguesa é a verdadeira vedeta de Mazagão, que desde 1769 é oficialmente conhecida como El Jadida, que, em árabe, significa «a Nova». Porque dava «muita despesa e pouco lucro à coroa», o marquês de Pombal mandou esvaziá-la, enviando para isso uma esquadra para trazer os portugueses de volta. Estes, porém, preferiram partir para o Brasil, onde fundaram a Nova Mazagão. Apesar da debandada, em todos os cantos de Marrocos ainda hoje se fala «dos portugueses de El Jadida».
«Porque é que me tirou a fotografia? Para ver se era um dos vossos?», pergunta Madi, a porteira da Cisterna Portuguesa, a principal atracção histórica da cidade. Madi assume-se, acima de tudo, como «mazagense», dizendo: «nós e os portugueses, somos como irmãos».
Para além desta cisterna, não há relevantes iniciativas que aproveitem todo este potencial turístico. São excepções o Restaurant Portugais (que apenas serve comida marroquina), a Leitaria Mazagan e duas ou três lojas de venda de artesanato, mantendo-se a cidade um espaço essencialmente residencial que se encontra bastante degradado.
A fortaleza era olhada como terra lusitana e dali partiram cavaleiros e diplomatas que tanto influíram no destino do país e na sorte das populações. Muralhas, bastiões, torres testemunham bem essa época. Assim como as entradas – a Porta do Mar, a Porta da Terra e a Porta dos Bois – e as ruas, a Rua do Arco, a Rua Direita, a Rua da Cadeia, a Rua das Curvas. Estes nomes, se bem que pouco visíveis, podem ler-se nas placas incrustadas nas paredes.
Chama a atenção a Praça do Terreiro, situada entre o Palácio do Governador, hoje uma mesquita cujo minarete é a adaptação da torre de Rebate, e a antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, que se destacava, pela sua imponência, de oito outros pequenos templos espalhados pela cidade. Subsistem as torres da Cegonha, do Rebate e da Cadeia, para além dos bastiões de São Sebastião, de Santo António, do Espírito Santo e do Anjo e os baluartes do Norte, do Serrão (também conhecido como Cavaleiro) e o baluarte do Governador, na Porta da Terra, todos eles ainda em bom estado de conservação.
No período da ocupação filipina a praça contava com 400 a 500 casas, muitas delas de dois andares e outras com terraços em vez dos tradicionais telhados, numa clara adaptação das construções ao clima do norte de África, na qual habitavam entre 1500 a 2000 habitantes, entre governador e capitão (autoridades máximas), cavaleiros, funcionários, padres, artilheiros, trabalhadores, viúvas e órfãos, velhos e inválidos e «120 marinheiros ao serviço dos navios de que dispunha a fortaleza». Também ali viviam mercadores europeus, mouros, mouriscos (andaluzes expulsos de Espanha) e os judeus, que era quem dominava o comércio em todo o Marrocos e cumpria na perfeição o papel de intérprete e intermediário.
Chegou a existir na cidade um hospital «para albergar os pobres e os estrangeiros», para além da habitual Misericórdia e das confrarias. A maioria dos visitantes, no entanto, ficava alojada no interior dos navios ancorados na parte norte da fortaleza, onde hoje funciona um estaleiro naval e um porto pesqueiro com intensa actividade. Para Norte, estende-se um areal a perder de vista. São vários quilómetros de praia aproveitada pelos jovens como campos de futebol, já que a presença dos rochedos junto à costa refreiam qualquer tentativa para tomar banhar.
O interior manuelino da Cisterna Portuguesa – cartaz turístico de Marrocos a nível internacional – convida ao silêncio e recolhimento. Sinto-me como se estivesse num convento. Uma impressão agudizada pela presença do guia, enfiado na sua chalaba de capuz cónico a fazer lembrar o hábito dos monges.
Na sala anexa à cisterna pude confirmar a existência de uma lápide com a inscrição que comemora a fundação da capela de Santo António do Socorro pelo governador Brás Teles de Meneses no ano de 1621 e que foi descoberta pelo arqueólogo francês Luquet, em 1949, quando este procedia aos trabalhos de desentulhamento do baluarte de Santo António, numa altura em que os serviços históricos do Protectorado Francês de Marrocos se interessavam pelo restauro da fortaleza portuguesa. A lápide, que os operários inadvertidamente partiram em duas, danificando-a, é de leitura difícil. Reflecte um momento particularmente árduo da vida desta praça, privada de mantimentos, o que levou o governador a pedir ajuda ao reino.
Uma das inscrições foi cimentada no topo da entrada principal da cidade – a porta do Arco ou do Governador, no baluarte com o mesmo nome –, encimado pelo brasão de Luís de Loureiro, herói de Mazagão, cujas façanhas perduraram no tempo. Ao lado da inscrição guardada no anexo estão outros objectos de valor, à espera de serem instalados num futuro museu português. Um projecto que remonta ao final da década de 50 do século passado e que se espera que um dia venha a ser concretizado.
publicado por JoaquimMDC às 13:27
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