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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A cidade do vento de leste
Nunca fiz uma viagem do género. À ilha de Santiago, Cabo Verde, vou num dia e regresso no outro. O objectivo é um só: visitar a Cidade Velha, uma das nove maravilhas africanas a concurso.
Chego em pleno período da «lestada», o regime de ventos mais apreciado entre os praticantes de vela, windsurf e kitesurf. Também é a altura seca, se bem que no dito período da chuva (entre Agosto e Outubro), esta raramente apareça, para desgraça dos terrenos que se mantem áridos o tempo inteiro.
Despreocupado por natureza, quando se trata de viajar, venho sem reserva de hotel, esperando encontrar na Praia, capital do país, algum tipo de alojamento, apesar de saber que o voo originário de Lisboa chega já de madrugada ao arquipélago. Após uma meia hora de tentativas frustradas para encontrar poiso, na parte baixa e alta da cidade, chego à conclusão que o alojamento disponível é insuficiente e o que existe é caro. Vale-me o taxista que me desenrasca um quarto por 30 euros em casa de um amigo.
Dez ilhas, uma população de meio milhão de habitantes, cerca de 500 quilómetros da costa africana, eis, em pinceladas breves, o quadro do arquipélago de Cabo Verde, o «destino tropical mais próximo da Europa», como o turismo local gosta de chamar-lhe.
Dez quilómetros apenas separam Praia da antiga capital de Cabo Verde, escondida ao fundo de uma angra que literalmente se enfia num enorme canyon, mas não o suficiente para proteger a agora aldeia do irritante e ousado vento que durante todo o dia deste domingo não pára de soprar tornando a tarefa de fotografar uma experiência muito desagradável. O vento também afasta as pessoas da rua e os poucos restaurantes aqui existentes não só fecharam as esplanadas como também as portas.
Santiago, a mais fértil ilha de Cabo Verde, impulsionada pela actividade negreira, manteve-se como centro da vida económica, social e política do arquipélago, desde a sua descoberta pelos portugueses, em 1460, até à transferência, da sede do governo, estabelecida na Ribeira Grande, para a cidade da Praia, em 1770.
Ribeira Grande, a actual Cidade Velha, era um concorrido porto de escala que bem cedo provocou a inveja das restantes potências europeias. Em meados do século XVI infestavam estas águas os mais temidos corsários da época, deixando marcas na paisagem humana, parte dela candidata a Património da Humanidade.
Viajante que se preza reserva algumas horas para perscrutar os surpreendentes recantos daquela que foi a primeira urbe europeia no continente africano. Apreciará então o rigor no desenho da fortaleza de São Filipe (início do século XVI) e o que resta da Sé Catedral, um dos mais emblemáticos e imponentes edifícios do período colonial. Mas é a igreja da Nossa Senhora do Rosário que em melhor estado de conservação se apresenta. Na abóbada do tecto são visíveis as armas régias, a esfera armilar e a Cruz de Cristo, exactamente como na «catedral portuguesa» de Safi, em Marrocos. No chão, são várias as lápides tumulares com inscrições e brasões.
Também são importante património as pessoas e as manifestações culturais que protagonizam. É impossível passear pela ilha sem estabelecer paralelos com Portugal. Refiro-me à língua, mas também à música, aos costumes pagãos e religiosos, à culinária, e, claro, ao resultado de um dos primeiros processos de mestiçagem levados a cabo pelos portugueses. Nesta visita o encontro acontece naturalmente, junto às ruínas da Sé, com o pessoal do bairro de São Sebastião. Primeiro com o Nandinho, aliás, Emanuel Jesus da Veiga, defensor do património local por iniciativa própria – nomeou uma rua ali próxima como a Rua da Nossa História; mais tarde com o Dá, aliás, Isaías, funcionário do Instituto da Investigação do Património Cultural, que apesar de não estar de serviço acompanha-me para me mostrar todos os locais de interesse histórico. E mais. Dá indicações aos seus colegas para que não me cobrem os bilhetes de ingresso para
o forte e as ruínas do convento de São Francisco (edifício datado do século XVII que foi parcialmente recuperado pelos espanhóis, que agora cobram bilhetes ao turistas…) os únicos de acesso pago.
Entre as «10 boas razões para conhecer Cabo Verde» sugeridas pelo Guia Turístico 2009 não consta qualquer atracção arquitectónica ligada à história do país. E é injusto, pois a gente da Cidade Velha preza muito o local onde vive.
Asseguro-vos que uma viagem à principal ilha do arquipélago não é visita nem é nada se não reservarmos algumas horas para perscrutar os apetitosos recantos da Cidade Velha.
Em 1585, Drake arrasou-a e saqueou-a. Dez anos depois voltou para repetir o feito. Mas não era apenas o inglês, também franceses e holandeses acossaram permanentemente esta costa. Estabelecidos na ilha da Goreia, em frente ao Senegal, os holandeses tudo fizeram para se apoderar de Santiago. E os estragos do constante e devastador assédio foram tais que muita da população branca optou por voltar ao reino, enquanto os negros e mestiços fugiam para pontos inacessíveis do interior, onde a topografia irregular das cordilheiras de origem vulcânica os protegia do invasor. Ainda hoje muitas das povoações dessa região têm nome de santos e santas. As mais importantes, porém, revelam as difíceis condições de acesso – Assomada, Boa Entrada – ou o nome de algum ilustre pioneiro, como é o caso das localidades Rui Vaz ou João Teves. Se o interior é beato, a costa limita-se a constatar a realidade terrena. As povoações ou são ribeiras, praias,
portos, ou achadas.
Em 1553 foi aqui instituída a sede da nova diocese do arquipélago. Numa ilustração holandesa de 1635, a cidade é-nos apresentada com os bairros de São Sebastião, de São Brás, de São Pedro, mostrando-nos duas ruas a intervalá-los. As ruas da Carreira e da Banana, dois dos troços viários ainda bem preservados, actualmente vocacionados para o turismo de habitação, era na altura o local onde se situavam as casas mais humildes.
Símbolo do poder municipal, onde justiça e injustiça eram aplicadas, o pelourinho foi recentemente objecto de restauro. O que resta da Sé catedral, um dos mais emblemáticos edifícios da era colonial, é suficiente para dar-nos uma ideia da imponência do edifício. Mesmo assim há quem queira reconstruí-la por completo.
Situado no topo do planalto, à entrada do centro histórico da Cidade Velha, impõe-se a fortaleza de São Filipe, a principal fortificação da cidade. Daqui obtém-se uma bela panorâmica da Cidade Velha e redondezas.
A vegetação é escassa. Quanto à abundância animal de que os cronistas falavam, restam pouco mais de sete dezenas de espécies de aves raras e uma pequena comunidade de babuínos. A única espécie vegetal que sobrevive para contar a época dos descobrimentos é o dragoeiro, utilizado então na tinturaria e que constava na lista dos bens que permitiam acumular riqueza, pois esse era um dos principais objectivos de quem viajava na altura.
As tartarugas continuam a ser, como antes, visitantes fiéis. Elas foram uma das razões pela qual o homem branco se estabeleceu nas ilhas vizinhas de Boavista e Fogo, anos antes da «importação» dos escravos, pois acreditava-se que o seu sangue curava a lepra.
No fundo marinho, os corais ainda bem preservados coabitam com os fantasmas dos barcos que naufragaram ao longo da costa. Dizem os entendidos em arqueologia subaquática que nos recifes do arquipélago existirão mais de 600 navios afundados.
Regresso a Praia já de noite. É domingo e não se vê vivalma. Consigo jantar um quarto de pizza e um copo de chocolate no Pão Quente, o único estabelecimento aberto no Plateau, em pleno centro histórico. A minha preocupação da noite anterior fora o hotel, desta vez vejo-me e desejo-me para encontrar um simples táxi que me leve ao aeroporto. O voo para Lisboa, para não destoar, também parte tarde. Apesar da ventania contínua a viagem é de uma tal tranquilidade que permite soneca. Quase sem dar por isso vejo-me de novo em Lisboa, como se nunca tivesse saído da cidade.
publicado por JoaquimMDC às 13:28
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