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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A protectora dos Axiluandas
Quem viaja para Angola continua a aterrar no desgastado Quatro de Fevereiro, já que se apronta ainda o novo aeroporto internacional na parte sul da cidade, previsto para 2011. O aeroporto está a caminho, mas os aviões já aqui estão. Na pista vejo alguns aparelhos da TAAG novinhos em folha. Um deles é um 747 que não deve ter ainda um ano.
Uma névoa acinzentada ergue-se no horizonte impedindo que o céu e o sol se revelem em todo o seu esplendor, como é seu hábito. Embora não pareça, estamos ainda na estação das chuvas, que se prolongará até finais de Agosto.
A medida que avanço para o centro da cidade a névoa passa a ser de poeira alaranjada, certamente o resultado da grande quantidade de prédios em construção. Luanda não é uma cidade para agora. Ou melhor, não é uma cidade para todos, pelo menos para os tempos mais próximos. Quem não está aqui para trabalhar numa companhia de petróleo, de diamantes ou algo do género bem sólido, bem se pode queixar de coisas inacreditáveis como 10 dólares por uma alface (congelada na Califórnia) à venda num desses supermercados frequentados pela elite e pelos expatriados. Não é por caso que Luanda é considerada a mais cara cidade do mundo.
Também o porto de Angola está a voltar aos seus tempos áureos, com uma expansão mais rápida do que o previsto. Neste processo de modernização geral do país, estão envolvidos capitais e recursos humanos de vários países, sendo de destacar a China e o Brasil. Enquanto este se ocupa das auto-estradas e vias rápidas, aquela reconstrói as linhas férreas, ergue novos arranha-céus (eliminando implacavelmente muito do património histórico da cidade), mas também bairros sociais destinados aos que actualmente vivem nos bairros da lata, que ainda são cartão de vista da capital angolana. Optimista, o ministro angolano da saúde disse recentemente que a pobreza seria erradicada graças à criação de novos postos de trabalho e habitação condigna para cada uma das famílias.
Não se afigura fácil a tarefa. Luanda tinha em 1974 apenas 880 mil habitantes, hoje esse número ascendeu aos 4 milhões. Ou seja, um quarto da população de Angola vive na capital, maioritariamente nos musseques.
Nas ruas o contraste é extremo. O trânsito é um caos, mas as viaturas em circulação é o que de melhor há na indústria automóvel. Vêem-se os modelos mais caros da BMW, da Mercedes, da Volvo, a comprovar que há gente com muito dinheiro por aqui. Insinuando-se entre os carros parados nas filas intermináveis, vendedores ambulantes tentam a sua sorte. Por toda a cidade é assim: gente com objectos para vender (de telemóveis a roupa interior, passando por conjunto de talheres), mas raramente se vê alguém adquirir o que quer que seja, embora se improvisem mercados nos locais mais inesperados, de resto, à boa maneira africana.
Luanda já foi considerada uma das mais belas e animadas capitais africanas. E é óbvio que procura recuperar o estatuto perdido. Na baixa da cidade, junto à zona portuária, onde o traçado urbano reflecte ainda o passado colonial devido à presença de diversas igrejas e imponentes moradias, bares e discotecas oferecem música até ao sol raiar. O som é essencialmente angolano – kizomba, rebita, semba, cabutela – embora haja por aqui oferta das mais diversas partes de África.
Onde se dança também se pode comer. E não faltam pratos compostos por ingredientes e temperos originais: a muamba e o cululu (dois tipos de guisados), o mufete (peixe grelhado com um molho secreto), o funge de bombó (à base de farinha de mandioca), o kizaca (esparregado de folhas de mandioca) e o bagre seco ou fumado (peixe gato), entre muitos outros.
A renovação da marginal é um projecto ambicioso que retirará algum espaço à baía mas que, em contrapartida, se traduzirá no alargamento da via pedestre e no aumento das infra-estruturas de apoio.
Ao longo dos séculos, Luanda viu passar de tudo. Através do seu porto escoaram-se as riquezas vindos do interior e partiram para as Américas os escravos capturados na savana, na floresta aberta e até na zona desértica do sul do país. Durante séculos foi Luanda uma dependência do Brasil e da América espanhola, mero entreposto para fornecimento de mão-de-obra escrava.
Um dos produtos comerciados na época era o zimbo, um tipo de búzio que se pescava nas costas da ilha de Luanda e que era a moeda única corrente nos reinos do Congo e de Ngola. Quem desempenhava essa tarefa eram, normalmente, as mulheres, como acontece ainda hoje em Cheju, na Coreia do Sul, com a pesca do marisco.
Originária da ilha de Luanda é a dança bassula, uma forma de luta popular entre os pescadores que no Brasil, segundo o entender de alguns estudiosos, deu origem à agora mundialmente conhecida capoeira.
À entrada da baía de Luanda situa-se a restinga Ilha do Cabo, que se desdobra por mais de 14 quilómetros. Os axiluandas, «os homens do mar», nativos desse local – onde inicialmente desembarcou Paulo Dias de Novais, em 1575, quase um século depois de Diogo Cão ter seguido o curso do Congo – inspirariam o nome da futura capital de Angola, que começaria por ganhar o estatuto de cidade em 1776, com o nome de São Paulo de Assumpção de Loanda.
No cimo de um morro, onde se disfruta de uma magnífica vista sobre a baía de Luanda, ergue-se, resistente a todos os atropelos da história, o bastião que defendeu a cidade dos ataques navais dos holandeses, ingleses, espanhóis, franceses. Trata-se da fortaleza de São Miguel, edificada em 1576 e que hoje acolhe no seu interior o Museu Central das Forças Armadas, com algum espólio interessante. Pena é que nenhuma das peças expostas esteja identificada, como não estão identificadas as estátuas de figuras históricas que se vêem no exterior.
Porém, de acordo com os livros dos entendidos, o mais valioso património arquitectónico de Angola remonta à época em que Dona Luísa de Gusmão exercia o poder, devido à menoridade de D. Afonso VI. Entre 1660 e 1689, a regente mandou edificar em Luanda (no actual largo Cohen) a majestosa igreja do Carmo, e a ela associada, um convento. No seu interior podemos admirar um conjunto de azulejos lisboetas do século XVIII, sendo o seu tecto um bom exemplo de pintura de estilo barroco. Barroco também – e neste caso sem qualquer influência de elementos locais – é o interior da capela-mor deste conjunto arquitectónico, que mais parece a transposição de uma capela portuguesa em África.
Contemporâneas do Convento de Carmo, destaquem-se aqui a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, construída em 1679, a actual Sé de Luanda, na rua Rainha N´Ginga, e a recentemente restaurada Igreja de Jesus. Datada de 1636, este é mais antigo edifício religioso do núcleo central da cidade.
A presença dos arranha-céus, que rapidamente estão a mudar fisionomia da cidade, é mais visível na zona sul. Muitos são os imóveis com história a necessitarem de urgente restauro. Entre eles, o Palácio de Ferro, obra de Eiffel, datado de finais de 1800. Andou pelo mundo em exibição e acabaria por ser comprado, em 1901, pela Companhia Comercial de Angola.
Pena é que esta minha visita não se possa prolongar, pois gostaria muito de percorrer os 1.650 quilómetros de costa em direcção à Namíbia, embora me desse já por satisfeito se pudesse estender o olhar pelas praias desertas da Barra do Kwanza, onde desagua o maior curso de água doce de Angola.
Luanda, «a mais velha cidade a sul do Sara», é uma designação certamente discutível. Como são discutíveis algumas das opções da wikipedia. Como a de ter escolhido para «notáveis residentes de Luanda», não o presidente Eduardo dos Santos, não o Pepetela, não o Luandino Vieira, mas sim (o ilustre desconhecido) Hugo Ferreira, vocalista do Tantric, banda post-grunge de Louisville, Kentucky. Como diria o Peça: e esta, hein?
Outra das vantagens de uma consulta a uma enciclopédia virtual é saber que Luanda está geminada com as cidades do Porto, Belo Horizonte, Salvador da Baia e Houston. Esta última casa bem com o crescimento vertiginoso do país. Já os estou a ouvir: «Aqui Houstan, a nave N´Gola vai levantar».
publicado por JoaquimMDC às 13:29
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1 comentário:
De jose rui a 6 de Agosto de 2014 às 22:24
a TAAG não tem 747, luanda existe por isso vive o agora, vê-se logo que não vive em angola, o angolano não faz compras nos supermercados dos expatriados pork não são expatriados, por isso vai a praça de Katinton que a senhora não vai por pensar que é superior aos outros mortais angolanos.

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