.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
De macuti e pedra e cal
O aeroporto de Maputo é daqueles aeroportos com vista para a pista, ou melhor dizendo, com terraço no primeiro andar, onde crianças com os olhos iluminados e encarapinhados motivos geométricos no cabelo vêm ver os aviões poisar e levantar. Pela frente tenho um país que desde logo me desencorajam a percorrer utilizando a via a que habitualmente recorro, que é a via terrestre.
«Nem penses». «Estás louco». «Só em sonhos». Assegura-me, quem por cá vive, que serão muitos os engulhos que encontrarei pelo caminho, e que, em vez dos dois ou três dias agendados para chegar à ilha de Moçambique, primeira etapa deste périplo pela costa leste africana, poderei levar quatro ou cinco. Ou até uma semana, como garante, com uma boa dose de exagero, António Pereira, ex-residente de Lourenço Marques.
Pereira regressou a Moçambique depois de longos anos na África do Sul. Encontro-o no átrio do edifício de varandas abauladas onde está sedeada a Embaixada portuguesa, o Instituto Camões e onde vivem muitos portugueses. O que deveria ser uma simples resposta a um pedido de informação, para resolver o usual problema de câmbio, acaba por se transformar numa agradável mini visita, «para que fique com uma ideia da cidade». Numa carrinha de caixa aberta percorremos as avenidas Julius Nyerere – onde está o mítico hotel Polana, o palácio presidencial e algumas das embaixadas – e a Marginal, até a um café gerido por um grego, na Costa do Sol, «o ponto de encontro dos portugueses». Ao largo avista-se a ilha onde funcionava o presídio no tempo da outra senhora. «Só escapou de lá um prisioneiro», informa Pereira. Chamava-se Zeca Russo e era uma espécie de Zé do Telhado na província ultramarina, que acabaria por morrer, em
circunstâncias estranhas, na Tanzânia.
A respeito de deslocações terrestres em território moçambicano, há opiniões contraditórias. Joaquim Falé, proprietário de uma agência de viagens, certamente com conhecimento de causa, assegura que o sombrio cenário traçado é exagerado. «As estradas lá para o norte estão em melhor condições que as daqui», diz.
Como não me posso dar ao luxo de ir comprovar o que me parece simples especulação, opto jogar pelo seguro. Com a ajuda do italiano Matteo Angius, bibliotecário do Instituto Camões e meu anfitrião, compro o bilhete para Nampula, capital da província homónima à qual pertence a ilha de Moçambique. E com alguma relutância o faço, pois essa mesma noite tem início o festival de Jazz de Moçambique, um dos eventos que contribui para reputação de Maputo como um dos pólos culturais mais activos de África.
«Vais à ilha?». Os moçambicanos nunca acrescentam a palavra Moçambique quando se referem à ilha que durante séculos foi refúgio vital, centro administrativo, atalaia de um estreito que dava acesso ao mundo efabulado das Índias.
Para Luís Filipe Pereira, o actual vice-presidente da Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, esta sua terra, Património da Humanidade desde 1993, é a jóia da coroa do país. Pede-me para que não fique mal impressionado com os aspectos menos agradáveis do local – o casario que se degrada, ano após ano. «Um olhar mais atento, revelar-lhe-á agradáveis surpresas», sugere. E convida: «Não hesite em entrar no pátio de algumas das casas para apreciar pormenores de arte indo-portuguesa ou arcos em ogiva de clara inspiração manuelina».
A missanga que a correnteza arrasta do fundo dos porões dos barcos naufragados até à praia de areia fina, é um dos produtos que os jovens locais tentam vender aos turistas. «Traziam-na os portugueses da Índia», explica o professor, «mandando-a vidrar em Veneza, integrando-a depois no «tesouro» destinado aos chefes locais». Tentavam impressioná-los, testando-os simultaneamente, pois esperavam que em troca lhes oferecessem ouro ou qualquer indício que os conduzisse ao metal precioso.
«Os anos que se seguiriam à independência foram os únicos que passei fora da ilha», recorda Flora Pinto de Magalhães, a proprietária da Casa Branca, uma das pensões mais acolhedoras da ilha de Moçambique. Foi a partir de então – condicionalismos da guerra assim o determinaram – que as coisas que funcionavam deixaram de funcionar. As vistosas moradias, orgulho da colónia, entraram num processo de degradação que o tempo depressa confirmaria. «Mas isto agora até está melhor», comenta esta distante representante do clã de um conhecido banqueiro português, com múltiplos interesses no Moçambique ultramarino.
Numa tentativa de travar o confrangedor processo de erosão de uma glória passada, é visível o investimento, por parte de instituições públicas e, já agora, da iniciativa privada também – são muitos os estrangeiros com casa comprada, para residência ou para futuras pensões e restaurantes.
No caso de Flora, investidora local, tudo não passou de uma questão de fidelidade à terra que a viu nascer. «Estive apenas uma vez em Lisboa, um dia só. Fui e vim no mesmo avião». A voz desta moçambicana, com óbvias feições indianas, mistura-se com o rumor das ondas do Índico, em fase de maré cheia. Elas insistem em bater, a intervalos regulares, no molhe recentemente restaurado, chapinhando-o com água.
É a maré que condiciona a labuta dos pescadores da ilha de Moçambique. Ousados e imprevisíveis, fazem-se ao mar em simples pirogas ou em barcos de vela triangular, pois por aqui motores não há. Cumpre-se a vida ao ritmo do vento e das marés.
Em frente à Casa Branca está uma estátua de Luís Vaz de Camões, sem qualquer placa indicativa que a identifique. A poucos metros, numa das vielas tortuosas que se insinuam na cidade de pedra e cal, deparo com a casa onde terá vivido o poeta, de 1567 e 1569. O portão, de madeira profusamente decorada, é um dos vários exemplos da arte indo portuguesa presente nos pátios interiores de casarões senhoriais abandonados ou ocupados por famílias de emigrantes originárias da vasta província de Nampula.
A frota de Vasco da Gama fez aqui aguada, em 1498, mas a ocupação portuguesa só aconteceria oito anos depois. A memória deste navegador perpetua-se na estátua erguida em frente ao Colégio dos Jesuítas onde funciona um museu, contíguo à igreja da Misericórdia, onde se pode apreciar o espólio resgatado ao processo de delapidação do património que anos de caos proporcionaram.
É difícil não ficar rendido aos encantos desta ilha que, na mais radical das hipóteses, numa hora se percorre de uma ponta à outra. Tomemos, porém, as rédeas do tempo, e ele pode convencer-nos a ali estabelecermos o nosso baluarte de sábia resistência à vida de correria e folguedos tolos.
Existe uma clara linha divisória que separa a cidade cristã, para norte, da cidade indígena (a cidade de macuti), para sul, constituída pelas palhotas tradicionais africanas, adaptadas ao clima. A amenizar de verde todo este espaço arquitectónico, fileiras de coqueiros, figueiras da índia e acácias vermelhas trazidas do Madagáscar.
Muito antes da passagem do Gama, o reino do xeque Moussa M`Biki (de onde deriva o nome Moçambique) era já importante centro de intercâmbio comercial e cultural. Como resultado, multiplicaram-se etnias e crenças que ainda convivem neste exíguo espaço, apontado como exemplo de ecumenismo. Não fosse a ténue chamada para oração das mesquitas e os topis na cabeça de alguns dos homens, seria impossível distinguir os muçulmanos dos cristãos ou estes dos hindus. O islamismo há muito tempo aqui está instalado, tal com no Golfo da Guiné, se bem que nesta costa tenha chegado via marítima e não com as caravanas que estoicamente atravessavam as regiões mais inóspitas do planeta.
Preocupado em retratar o máximo num curto espaço de tempo, quase que nem me dou conta do correr das horas e, duas noites bem dormidas depois, vejo-me, de armas e bagagens, pronto para nova arrancada, costa acima, rumo a duas outras caras metades de uma mesma rede comercial que esteve na origem da identidade swahili, fruto da miscigenação de tribos africanas de origem bantu com os mercadores árabes, indianos ou indonésios, e em relação aos quais os portugueses conseguiriam notório ascendente. Quiloa e Mombassa são os próximo portos de atracagem.
publicado por JoaquimMDC às 13:30
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds