.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Quiloa de barco à vela
Viajar por terra no leste de África requer sono leve e um madrugar voluntarioso, caso contrário não se avança no terreno, que isto por aqui é chão que nunca mais acaba. Quatro da manhã parece-me uma boa hora para começar o dia. E mesmo que não me parecesse teria de me levantar por essa altura na mesma, pois luxos como camionetas a horas certas e regulares é coisa que não há nestas paragens.
Para atingir Quiloa, onde me espera a fortaleza mandada construir em 1506 por Dom Francisco de Almeida, necessito de cumprir as etapas Pemba, Mocimboa da Praia e Palma, a mais setentrional povoação da província do Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzânia.
Esqueçamos os transportes directos. Viajo na caixa de carrinhas, de encruzilhada em encruzilhada, intervalos com longas horas de espera, fundo de picada no horizonte e muitos percalços pelo caminho. De realçar uns inesquecíveis, algo aterradores, 100 quilómetros praticamente sem travões. Nas descidas, felizmente pouco acentuadas, valeu-nos (a mim e a uma meia dúzia de outros passageiros) uma estóica primeira que se fartou de gemer.
Generosas mangueiras dão a sua sombra a aldeias de cubatas cobertas com o capim que cresce nas bermas da trilha percorrida por centenas de mulheres, homens e crianças com carregos na cabeça. Inúmeros ciclistas transportam sacos com carvão vegetal, o bem de consumo mais comercializado nestas paragens. Cena habitual em África: gente, dir-se-ia, num êxodo permanente, quando, afinal, macuas e macondes, etnias predominantes, se limitam a locomover, de aldeia em aldeia.
A nossa carrinha transporta ladrilhos, três caixilhos de alumínio para pendurar cortinas e quatro homens com a missão de preparar um palanque condigno para o presidente moçambicano, que, proximidade eleitoral o exige, visitará em breve a região. Quando lhes digo que esta é uma óptima oportunidade para que o chefe de estado se inteire sobre a necessidade de melhorar as estradas, responde-me um deles: «Infelizmente não terá essa oportunidade pois aqui chegará de helicóptero».
Chegamos a Palma já de manhã, após uma madrugada dormida à bela estrela.
Dado o adiantado da hora (8 da matina é tarde para apanhar transporte seja para onde for), tudo indica que seja o fim do caminho, por hoje. Um mero acaso, porém, conduz-me ao encontro de Mussa Abdulai, um desses moçambicanos miscigenados que preferiria que os portugueses nunca tivessem partido. Este jovial empreiteiro oferece-se para me levar à fronteira e fala-me com entusiasmo das ilhas de Ibo e das Quirimbas, terra de antigos aliados de Vasco da Gama. «Se calhar vamos ver elefantes», alerta enquanto, aos solavancos, o seu todo-o-terreno procura caminho pelo estradão de saibro e areia. Não vi elefantes mas vi as bostas que produzem, enormes amontoados de erva seca, pois é disso que se trata. «Marcam desta forma o seu território», diz Moussa. Eu tento marcar o meu com algumas fotos que, lamentavelmente, assustam um grupo de crianças que tomam banho num riacho. «É normal. Se calhar nunca viram um branco», comenta o moçambicano.
Na época seca o rio Rovuma pode ser atravessado a vau, mas agora que abundam as águas e rareiam os viajantes, o preço da passagem é aquele que barqueiro quiser cobrar. Desembolso 30 dólares por uma travessia de 10 a 15 minutos. Barcaças como a que nos transporta, quando acopladas umas nas outras com a ajuda de varas compridas e cordas, chegam a transportar viaturas para a outra margem do rio.
Algumas dezenas de quilómetros para oeste, está em fase adiantada de construção uma ponte – a Ponte da Amizade (mais uma?) – que porá fim a esta não obrigatoriamente desagradável aventura.
Até Mtwara, a primeira povoação tanzaniana digna desse nome, são mais 40 quilómetros de terra batida, tendo de pagar o preço que me quiserem cobrar, acrescido, claro, do custo do visto tanzaniano, que é de 50 dólares, seja a estadia de um dia, duas semanas ou de um mês. Não há alternativa.
Mtwara vale sobretudo pelo seu mercado nocturno, onde janto um caseiro peixe de caril com arroz a saber a coco, regado com um açucarado chá de gengibre. Tudo isto por um euro apenas, e à luz de lamparinas! Um verdadeiro luxo.
Às 5 da manhã do terceiro dia de jornada, eis-me numa camioneta que alegremente testa o asfalto financiado pelo general Kadafi, que nisto de construção de estradas em África anda em aberta concorrência com os chineses. Mas a empreitada do líbio não está concluída, e cedo compreendo o alerta para «uns 60 quilómetros em mau estado». Mau estado?! Melhor é dizer, pesadelo de poeira e buracos.
Kilwa Masoko é a antecâmara continental da ilha da Quiloa, que apesar do título Património da Humanidade que ostenta desde 1981, não é propriamente considerada atracção turística. Não passa de uma pequena povoação dotada de um porto e de um banco onde vou trocar dinheiro mas acabo por me vir embora sem a missão cumprida, pois se fosse a compactuar com a propositada lentidão dos funcionários, perderia a oportunidade de visitar a ilha. Para tal devo requisitar uma autorização oficial, num outro dos raros edifícios da administração pública.
Parto para Kilwa Kisani, «a velha Quiloa», na companhia de uns tanzanianos de origem persa que não gostaram nada que os tivesse confundido com árabes. Como os compreendo... Tão pouco gosto que me confundam com espanhol ou italiano.
A emocionante travessia é feita num barco tradicional: o dhow. Desfraldada a vela, num instante pomo-nos ao largo. Na ilha de Moçambique limitei-me a avistar estas belas embarcações, inspiradores da nossa caravela; agora estou dentro de uma delas, adornando a bombordo, o que obriga a movimentação de passageiros para equilibrar a coisa. É como navegar numa falua do Tejo, só que neste caso o cavername do barco é bem menor, o que permite a entrada de golfadas de água que transformam a viagem numa espécie de desporto radical com a utilização de recursos locais em vez dos artigos especializados de marca, sempre sofisticados e caros.
O forte de Quiloa, a Gereza como lhe chamam aqui, surge-nos pela frente, recortado num céu azul. Enriquecem o quadro uma série de barcos varados num fundo lamacento rico em moluscos que a maré vaza revela.
Só o torreão da Gereza (que significa prisão em swahili) mantém a origem portuguesa. A restante estrutura sofreu transformações depois de termos abandonado a ilha, em 1512, dando lugar aos sultões omanitas, que se revezariam no poder durante séculos.
Quiloa ostenta o título de Património da Humanidade, conjuntamente com a ilha vizinha de Songo Mnara. Habitam aqui – apesar da aparente desolação – um milhar de pessoas, entre os quais alguns adolescentes moçambicanos que frequentam a escola corânica local. Um deles cumprimenta-me com um sonoro «bom dia» que me deixa surpreendido. É como se não tivesse deixado ainda a esfera do mundo lusófono.
Protegido pela sombra proporcionada pelas ameias, pescadores remendam a lona das velas triangulares e estudantes decoram em voz alta passagens do livro sagrado. À conversa com eles, e de forma involuntária, descubro dois verbos que me soam familiares. Nesta região os termos «pegar» e «chegar» têm exactamente o mesmo sentido que nós lhe damos. A Portugal chamam-lhe «unrenu», o que soa bastante a «reino» ou «no reino»... Mas aqui, pisamos já território da especulação. Comprovadamente portuguesas são as palavras família, chupa, mesa ou calafate, que já antes, ao escutar conversas avulsas entre falantes de swahili, me tinham chamado a atenção.
Poderia ficar o resto da tarde na companhia destes homens do mar (ainda mais entusiasmados do que eu, nesta improvisada busca de palavras que, pelos vistos, temos em comum), porém, antes do regresso ao «continente», impõe-se uma visita à mesquita e ao palácio de Makutani, comprovativos arquitectónicos de que Quiloa sempre foi um dos principais portos da África ocidental. Já em 1332, Ibn Batuta, o famoso viajante e geógrafo marroquino, falava em «edifícios construídos de pedra de coral» e em «estruturas formidáveis de vários pisos».
Infelizmente, desde 2004 que o local integra a nada prestigiante lista do Património Mundial em Perigo. E os holofotes partidos e desactivados em frente a Gereza, testemunham isso muito bem. É óbvio que o local viveu já dias mais luminosos.
publicado por JoaquimMDC às 13:30
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds