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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A asiática Mombaça
Poderia começar por me deixar inebriar pelo cheiro intenso a caril e a incenso, mas opto por me concentrar nos riquexós motorizados e na mole humana, de diferentes raças e credos, que se concentra à entrada desta península que já foi ilha.
Mombaça, velhinho entreposto frequentado pelos comerciantes do mar Arábico e da África subsariana, é hoje patrulhado pelos barcos da Nato que dão caça aos cada vez mais atrevidos piratas somalis. Ancorado no mesmo porto onde acostam os ferries que num constante vai e vem transportam viaturas e passageiros, está uma fragata de guerra espanhola. Em contraste com o couraçado cinzento, esvoaça uma enorme bandeira amarela rubra. Sei, pelas notícias, que a nossa Corte Real com certeza não andará longe. Provavelmente no Golfo de Adém.
Aqui não é mais a África, antes uma mistura de realidades asiáticas pontilhada por uma população negra considerável, mas sem grande peso na economia local, dominada pelos árabes e indianos, sem esquecer, claro, os sempre presentes luso-descendentes.
«Sou o Fernandes e este é o meu amigo Joseph Souza». Esta afirmação, feita assim de rompante, poderia ser gratuita. Mas não é. O indivíduo que me aborda não tem a mínima ideia de onde venho. Está sentado numa esplanada em frente ao forte construído pelos portugueses em 1593, décadas depois de Nuno da Cunha ter mandado arrasar a cidade que fora visitada, ainda no século XV, por Pêro da Covilhã, e ter feito tributário da coroa de Portugal o sultão local. Jesus de Mombaça foi a primeira fortificação levantada de raiz na costa oriental de África.
Mombaça foi terra de traição e conflitos, desde os tempos em que Dom Jerónimo Chingulia, ou melhor, Muhamad Yusif, educado e cristianizado em Goa, sultão de Mombaça em 1631, aproveitando-se da confiança nele depositada, ordenaria o massacre de toda a população portuguesa – 45 homens, 35 mulheres e 70 crianças – no tempo em que era seu capitão Pedro Leitão de Gamboa. Como retaliação foi enviada uma expedição da Índia para retomar o poder, mas sem sucesso. Chingulia, por vontade própria, despiu o disfarce de sultão e vestiu o de pirata, sendo a cidade reocupado, em 1632, sob o comando de Pedro Rodrigues Botelho.
Confirmados os nossos laços genéticos e – porque não – culturais, os amigos Fernandes e Sousa oferecem-se para me dar todo o apoio que necessite, e insistem para que, após Mombaça, visite as ilhas de Lamu, a norte de Melinde, outro importante entreposto ligado à nossa passagem. «É um paraíso, e tem um forte também. Se lá for dificilmente terá vontade de deixar o local», assegura Sousa.
À nossa frente, o amarelo-torrado da fachada do Fort Jesus – como é agora conhecida esta construção reabilitada com dinheiros da Fundação Calouste Gulbenkien – contrasta com o azul intenso do céu. Situada num ponto estratégico, junto a um porto de águas profundas, assente no coral e numa escarpa ondulada repleta de magnólias que lhe emprestam o seu perfume, a fortaleza acabaria por cair em poder do sultão do Omã em finais do século XVII, passando depois, de sultão em sultão, para mãos inglesas, e daí à independência, já no século XX.
Também por cá, como em muitas partes de África e do Brasil, a intervenção das ordens religiosas, que a determinada altura se concentraram mais no comércio do que na tentativa de redenção das almas, esteve frequentemente em conflito directo com os interesses da coroa. Havia quem os acusasse de vender «armas e munições aos cafres macuas, inimigos do Estado».
Assim que se instalaram no forte, os omanitas atacaram e ocuparam a cidade portuguesa de Gavana, que era assim que se chamava então a velha Mombaça. Restam hoje poucos edifícios dessa época. O local onde os mapas antigos indicavam uma igreja não passa de um parque de estacionamento. Sobreviveram fachadas, portas e sobretudo varandas de madeira rendilhada. Pedaços de património para os quais nos chamam a atenção uma série de tabuletas afixadas em diversos locais, iniciativa da cooperação francesa cujos funcionários aqui destacados que não perdem uma oportunidade de realçar o facto. Muito mais dispendioso e importante foi o trabalho de restauro da fortaleza levado a cabo pela Fundação Calouste Gulbenkien, entre 1958 e 1960. Essa fundamental intervenção merece, tão só, uma simples placa em metal à entrada do forte, apenas em inglês, como se a Gulbenkien não estivesse sedeada em Portugal...
Mas aqui há quem, felizmente, conheça bem os factos e saiba dar o seu ao seu dono.
«Pode fotografar á vontade. É o seu país que ajuda a preservar este monumento, o mais importante do Quénia. Estamos muito gratos por isso», encoraja o guarda do museu.
No interior, algumas das construções – capela, paiol e armazéns – estão ainda bem conservadas, e foram resgatadas umas interessantes pinturas murais que representam caravelas e naus, soldados, peixes e uma espécie de camaleão, no que podemos considerar como uma pioneira banda desenhada em Portugal.
Entre 1741 e 1837 Mombaça foi cidade-estado independente, até ao regresso dos omanitas que a ocuparam até 1888. Contudo, já em 1875 os ingleses dominavam, de facto, a cidade. Com a efectivação, em 1895, da colónia inglesa do Quénia, o que já era então denominado Fort Jesus seria convertido numa prisão governamental.
Mombaça não é África, mas o caminho que é preciso percorrer para aqui chegar, esse sim que é africano, puro e duro. Desde que deixei Quiloa, as etapas contabilizaram uma média diária de 400 quilómetros. Foi assim de Quiloa a Dar Es Salam – com as habituais paragens para a oferta de peixe frito e a preciosa ajuda de Jonas Wairimu, um vendedor de «trelas» (assim se designam os atrelados para tractores em sawhili), que me tratou como se eu o fosse o seu irmão mais novo.
Passei de uma carrinha apertada para uma camioneta com os assentos desconchavados, para onde fui literalmente empurrado com o bónus de ser obrigado a pagar quase o dobro do preço do bilhete, pois era isso ou um dia de pausa na capital. E, de Dar Es Salam, nesta viagem, bastavam-me os subúrbios, feios como todos os subúrbios do países do dito terceiro mundo. O afã em chegar a Mombaça era tanto que nem me dei ao trabalho de fotografar o emblema da águia benfiquista em lugar de destaque na carroçaria o colorido autocarro Mombassa Express estacionado do lado de fora de rodoviária e cuja partida estava prevista para a manhã do dia seguinte. Eu tinha que partir esse mesmo dia. Para Tanga, amais setentrional das cidades tanzanianas, que dista da fronteira ainda umas boas dezenas de quilómetros. Uma vez aí tenho, finalmente, a oportunidade de usufruir de uma cama larga e de uma ventoinha que parecia querer levantar voo. É dessas mesmo que gosto.
Ainda de madrugada vi-me de novo atafulhado em mais uma amostra de camioneta. Esta foi buscar a inspiração aos Emirates, não pela companhia aérea, mas pelo Chelsea, o clube de eleição do homenzinho que me vendeu o bilhete e não perdeu a oportunidade de lamentar a saída do Mourinho da equipa londrina.
Agora, visitado que está o forte (é tudo o que permite as poucas horas que passo em Mombaça), regresso à África continental, observada através do vidro baço do autocarro. De um lado, a savana a perder de vista; do outro o perfil do Kilimanjaro, os parques naturais com descarados babuínos que pacatamente atravessam a estrada e os fotogénicos masaai, esquálidos e de sandálias, dentro das suas vestes avermelhadas, como o barro de que são feitas as minúsculas cubatas onde habitam. O tráfego é intensíssimo. Não admira. Esta é a única via de acesso ao mar para países como o Uganda, o Burundi ou o Ruanda. Nairobi é, neste caso, a minha porta saída. Pelo ar. Adis Abeba é o destino que se segue.
publicado por JoaquimMDC às 13:31
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