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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Os pedreiros do Preste João
O legado arquitectónico português na Etiópia é vasto e estende-se por uma região que tem como ponto de referência o lago Tana, situado num planalto a 1800 metros de altitude, bem no interior do país.
Aprendi sobre a Etiópia e a sua relação com os portugueses – os primeiros interlocutores europeus nesse mítico reino cristão ortodoxo – graças a um livrinho de Elaine Sanceau que encontrei num alfarrabista, já lá vão uns bons anos. Sanceau, mestre em ensinar-nos a história contando histórias, forneceu-me, por assim dizer, as entradas para um delicioso repasto que tem de ser saboreado devagar. A Etiópia é um país que se aprende a gostar. E por isso há que visitá-lo diversas vezes, insistindo na ementa.
Tomei a minha primeira colherada da sopa etíope após um aperitivo chamado Eritreia – pessoas adoráveis, regime brutal –, pois a Abissínia de antanho era o conjunto dos dois países, hoje inimigos figadais. O roteiro de então incluiu Asmara – uma «Roma no corno de África», como ouviria alguém dizer uns anos mais tarde – e Lalibela, com as suas igrejas talhadas em pedra, datadas do século XII. Claro que visitei também os castelos de Gondar, amuralhados, adaptados ao longo dos tempos, mas de matriz muito nossa. Gorgora Nova, nas margens do Tana, ficara, como lamentavelmente ficam muitos locais obrigatórios, para uma visita futura. Que, se bem que com considerável atraso, acabo por concretizar, ao contrário das muitas eternamente adiadas.
Desta feita a entrada na Etiópia é a partir do sul. De avião. De Nairobi até Adis Abebba.
No aeroporto da capital etíope há voos baratos para Gondar à disposição no balcão da Ethiopia Airlines: apenas 150 dólares. Estoicamente, resisto à tentação. Quero chegar ao lago por terra, pois falta-me visitar Bahir Dar, onde se situa a nascente do Nilo Azul, cuja «descoberta» as enciclopédias anglo-saxónicas (que frequentemente ignoram os feitos portugueses) atribuem a um escocês quando esse local foi muito antes visitado por portugueses – missionários, soldados ou simples aventureiros, pois dessa massa era feita a gente que palmilhou os recantos da Abissínia séculos antes de quaisquer outros europeus. Não me espantaria nada que o próprio Pêro da Covilhã aqui estivesse estado… Impedido de regressar a Portugal, casado com uma mulher local, proprietário de uma casa e terras em redor, tempo para isso certamente não lhe faltou
Como se sabe dos compêndios históricos, em 1487 Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã são enviados por D. João II, por terra, em busca do Preste João e para obter informações sobre o Índico e as preciosas especiarias que ali se transaccionavam.
A viagem de autocarro através de montes escarpados rumo à região norte de Amhara, além de longa e extenuante, tem algo de suicida. Os motoristas conduzem as camionetas como doidos varridos. Para piorar as coisas é impossível abrir as janelas sem armar uma grande discussão – os etíopes tem o estranho hábito de viajar com os vidros fechados, mesmo quando se registam temperaturas elevadíssimas. Que me desculpem, mas não estou para isso. Que venha a discussão, ausência de ar é que não.
Para atingir o Tana são precisos dois dias e alguma sorte. As armadilhas pelo caminho tanto podem ser uma cabra extraviada como um pedaço de estrada que foi levado por uma enxurrada recente. A paisagem, quando não se apresenta agreste é rural, o que não é de surpreender, já que 80 por cento da população vive da agricultura. O hábito de beber café nasceu na Etiópia e daqui partiu para o mundo.
Sensivelmente a meio caminho, pernoitamos num hotel onde não há água, embora haja electricidade, o que já é óptimo, tendo em conta o panorama habitual no interior do país. Cá fora, à chegada, levo com crianças transformadas nos mais insistentes dos pedintes. No quarto, esperam-me as já afamadas pulgas etíopes. Para comer, não muito mais que a habitual opção culinária etíope – um shiro sobre uma injera – que a mim me deixa satisfeito, ao contrário do que se passa com os outros dois europeus que viajam na mesma camioneta.
O dia seguinte é marcado por subidas intermináveis. Cruzam por nós, em sentido contrário, vários luxuosos todo o terreno com o logo da ONU. Aqui, como noutras partes deste planeta sem solução à vista, parecem estar mais em passeio do que em qualquer tipo de missão, nobre e necessária, para o bem-estar da humanidade.
Finote Selam. Dangla. Bahir Dar. Finalmente, a mais afamada das cidades etíopes. Alertam-nas para a perigosidade da água do lago, que «não se pode tocar pois está infectada com um verme que penetra na pele». Mas isso não parece preocupar minimamente os habitantes locais. Não só tomam banho no lago como bebem da dita água interdita. Provavelmente estão já infectados pelo tal verme, o que talvez explique o facto de a esperança de vida nesta região não ultrapassar os 50 anos de idade.
Quando se fala em nascente do Nilo Azul fala-se em hipopótamos (se bem que não tenha avistado nenhum) e nas cataratas do mesmo rio, que se pagam para ver. Como se paga também a mais breve das visitas aos pequenos mosteiros erguidos perto do lago. Monges tão sedentos de dinheiro como os que encontrei por aqui, só mesmo em certos locais do Tibete.
No cimo das colinas avistam-se intrigantes conjuntos monumentais, hoje totalmente em ruínas. Todos obedecem a um mesmo padrão arquitectónico: uma muralha de pedra muito alta que rodeia um castelo de planta quadrada. Associados a estas estruturas defensivas existem ruínas de igrejas católicos, o resultado das diversas missões jesuíticas de desde 1557 foram entrando na Etiópia e ali permaneceram até 1634.
Esse legado reflecte, afinal, um contacto pioneiro e duradoiro que teve início com a viagem de Pêro da Covilhã, ainda no século XV, e se prolongou ao longo de séculos. Missionários e soldados acompanhariam de perto os soberanos coptas etíopes na sua luta contra os muçulmanos, eritreus e outros. Numa fase posterior, a desastrosa acção evangelizadora dos primeiros conduziriam a fratricidas guerras civis que marcariam para sempre a história da Etiópia
Desde cedo (1543) uma comunidade lusa, mestiça, passou a viver nesse reino cristão associado ao mito do Preste João. Inevitavelmente, esse contacto levaria a alterações significativas num modo de vida que se baseava em acampamentos de tendas e passaria a construções de pedra e cal, à semelhança dos castelos europeus, de forma quadrangular com dois ou três pisos. Fomos nós que transmitimos aos etíopes a técnica da construção em pedra e argamassa. Ironicamente, esse fenómeno atingiria a sua expressão máxima após a expulsão dos portugueses da Etiópia, com o estabelecimento da primeira capital sedentária em Gondar.
Dos vários castelos, palácios, igrejas, mosteiros, edifícios públicos ou privados, onde é visível a influência cultural hindu, árabe e barroca portuguesa, destaque-se Gorgora Nova, para onde vou depois de ter alugado um carro. Não há qualquer transporte público com destino a esse local, situado numa pequena península na margem norte do Tana, que pertence, tal como cidade de Gondar, à região de Dambiá.
Gorgora é uma obra da autoria do padre arquitecto Pêro Pais, um dos descobridores da nascente do Nilo Azul. Tal era a sua importância, que, entre 1611 e 1618, foi escolhida como acampamento real. Do conjunto subsistem partes do palácio, da residência dos jesuítas e da catedral, edifícios concluídos por volta de 1622.
Gorgora está num estado bastante lastimoso, muito embora tenha sido recentemente alvo de uma intervenção arqueológica de fundo protagonizada por técnicos espanhóis. O pouco que resta da abóbada da igreja jesuíta é sustentado por alguns toros de madeira que evitam que tudo se desmorone. É, certamente, de todos os locais a concurso aquele que se encontra em pior estado de conservação.
Nesta região, para além de Gorgora, sobressaem, pelo seu valor histórico, lugares como Guzara, Fremona, Azazo, Dabsan, Aringo e Debra Mai, só para citarmos alguns. E ficaria este apontamento incompleto se não mencionasse as diversas pontes na região atribuídas aos portugueses. As pontes junto às cataratas de Tisisat e as de Alata e Avala-Andahé, ambas no Nilo Azul.
publicado por JoaquimMDC às 13:32
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