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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Um Golfo próximo
Desembarca-se hoje em Omã, no aeroporto de Seeb (Sibo), exactamente no mesmo local onde lusonautas arribaram há quinhentos anos, erguendo, desde logo, uma fortaleza. No átrio das chegadas, olhares curiosos substituem as habituais propostas de alojamento e transporte, feitas sempre a correr. São olhares maioritariamente estrangeiros. Filipinos, paquistaneses, indianos, bangladeshis, cingaleses, tamiles. Enfim, a mão-de-obra que faz mover as infra-estruturas deste país.
Cá fora, exposto aos 45 graus de temperatura, falta-me disposição para apreciar devidamente o bonito e bem proporcionado edifício que serve de quartel-general ao aeroporto internacional. Como tantos outros edifícios públicos de Omã, faz lembrar uma fortaleza.
Mascate não é a Mascate que se imagina. Mascate começa por ser uma série de aglomerações urbanas que contabilizam centenas de milhares de almas e que desembocam na cidade propriamente dita.
Percorro a via rápida que liga Seeb ao centro da cidade a bordo de uma dessas furgonetas de praça. Usufruindo do excelente asfalto, o veículo desliza pela Medinat Quboos, zona das embaixadas, pela Al Qurm, área dos centros comerciais e stands de automóveis, pelo zona residencial de Ruwi, desembocando – meia hora e vinte e muitas paragens depois – mesmo em frente ao mercado de peixe de Mutrah, numa baia marcada por um imponente forte português utilizado actualmente pela polícia.
Mascate é uma pérola de bom gosto, embora as construções oficiais e militares vedam com frequência alguns dos acessos ao mar.
Em Omã não é excepção: são os velhos que guardam o que resta da tradição. Os adultos limitam-se a comprar carros novos e os jovens e adolescentes mais parecem réplicas de basquetebolistas norte americanos.
Ao canto direito do edifício Alasfoor, que alberga a homónima loja de móveis, flutua a bandeira das quinas e no interior, no segundo andar, em baixo da esfera armilar de madeira em alto-relevo, lê-se: «Consulate of Portugal, Muscat». O cônsul, Abdul Munem H. Alasfoor, providencia-me um encontro com o professor Mohamed Said Nasser Al-Wahaibi, o mais alto responsável pelo departamento de História do Ministério da Cultura e Património do Omã. No seu próprio escritório.
Assim que chego, nem preciso de colocar-lhe qualquer questão. Bebida a taça de café, símbolo da hospitalidade beduína, e comentada a brutalidade do calor desta época do ano, o historiador desata a falar. Com carácter de urgência. Apela aos investigadores nacionais para aqui virem estudar o legado deixado pelos nossos antepassados há cinco séculos.
– E preciso que se estreitem os laços entre portugueses e omanis. E para isso há que fazer um estudo das suas relações sociais e até consanguíneas – diz.
Sente-se, pelo empenho das palavras, que o desejo do professor é genuíno. Em Omã tudo o que se conhece sobre Portugal enquadra-se numa perspectiva militar. Sabe-se que os portugueses aqui chegaram com a sua armada, combateram os omanis, conquistaram o reino, tentaram espalhar a cristandade e, século e meio depois, derrotados, acabaram por ser expulsos. Mas, na opinião do professor, este é um aspecto de somenos importância.
– É urgente que venham para cá investigadores portugueses, nem que seja só para fazerem um estudo apurado das vossas fortalezas – insiste.
Repare-se que Al-Wahaibi refere «vossas» e não «nossas» fortalezas. Surpreendente afirmação, tendo em conta que é feita pelo representante de um governo que tenta minimizar o papel dos portugueses (ou de quaisquer outros estrangeiros) na formação do país .
Mas este catedrático de Mascate não é uma pessoa qualquer. Esteve em Portugal por duas ocasiões, «para organizar semanas culturais omanis que tiveram o apoio da Fundação Gulbenkein», e conhece bem alguns eruditos portugueses, como o professor Dias Farinha, «um grande amigo». Al-Wahaibi diz-se impressionado pela abundância de documentação que foi encontrar na Torre do Tombo e refere as «similaridades físicas entre os nossos povos», para concluir com toda a convicção: «são mais os laços que nos unem do que aqueles que nos separam».
Em Omã não só existem vestígios de arquitectura militar, como também imensas palavras de origem portuguesa. «Assim de repente», o professor lembra-se de quatro: bandera, greja (igreja), mesa, roda. E depois há os luso-descendentes, disseminados um pouco por todo o Golfo, com maior incidência na zona montanhosa, já em território dos Emirados Árabes Unidos, vizinha à península de Mussandão, no estreito de Ormuz.
O professor Al-Wahaibi abre um livro, em árabe, que reúne todos os fortes de Omã. Muitas das suas páginas são dedicadas à presença portuguesa. Um interessantíssimo desenho mostra em detalhe naus portuguesas, identificadas pelos nomes dos capitães, estrategicamente posicionadas na baía de Mascate, preparando-se para mais uma batalha contra os turcos otomanos…
Enquanto me mostra reproduções das plantas da época com a sua exacta localização geográfica, menciona os actuais fortes da costa. «Do forte de Sibo já nada existe. Foi aí construído o aeroporto internacional», diz. Em relativo estado de conservação – embora as restaurações efectuadas pelas equipas arqueológicas omanis tendam a islamizar as ameias originais – temos o forte de Quryate (Coriate, em português), a 90 quilómetros de Mascate. A reprodução de um mapa português do século XVI mostra bem como estava na altura planificada a cidade: com dois fortes e inúmeros fortins a dominarem a boca da enseada. «O forte situado a leste», informa o investigador, «chamava-se forte de São João e o outro, a oeste, era conhecido como o forte do Capitão».
Os nomes actuais – Jalali e Mirani – correspondem aos apelidos dos chefes militares persas de antanho que conquistaram Mascate aos portugueses. No sopé deste último, o forte Capitão, existe, paredes meias com a mesquita, um edifício branco, «a betel-greja», que serve hoje propósitos administrativos. Situava-se aqui uma das duas igrejas de Mascate, como se pode confirmar na carta desenhada em Seiscentos. A designação «greja» ficou, apesar de o templo ter desaparecido há muito. O mapa antigo retrata ainda vários pelourinhos e os torreões que os estrategas portugueses semearam pelas montanhas escarpadas, na altura ainda com algumas árvores, que os cartógrafos da época tiveram o cuidado de incluir nos seus trabalhos.
Muitas dessas fortalezas eram pré-fabricadas – em areia, adobe e pedra – na costa de África. Em Mombaça, Zanzibar e Pemba. Eram depois transportadas para o Golfo Pérsico. A região está cheia delas: o forte de Barca, de Doba, de Mada, de Lebedia, de Quelba. O de Fujeira, no emirado com o mesmo nome. Os fortes de Kansab e Kuzmar, já na península de Mussandão. No sul do país, temos o forte da ilha de Masirah. Se porventura algumas destas estruturas não são de construção portuguesa, há sempre um ou outro episódio ligado ao nosso passado.
Após a passagem dos portugueses, as «bagallas», embarcações locais, passaram a contar com a coberta à ré. O uso dos pregos foi outra das contribuições lusas na construção naval local. Já no plano estritamente militar, de realçar as espingardas e canhões, que eram desconhecidos no mundo árabe até à chegada das caravelas.
No verso das notas de 10 rials – uma das denominações mais altas da moeda omani, cujo nome deriva do termo «real» – é português o baluarte representado. Trata-se de Mutrah. Matara, na versão da cartografia nacional da época.
No final do dia (quando finalmente ouso enfrentar a canícula), depois de sucessivas escaladas pelos penhascos em busca da melhor perspectiva para obter fotografias, entro numa pequena mercearia para pedir uma garrafa de água mineral Gulfa e ouço o proprietário, de origem indiana, como quase todos os proprietários de mercerias do Omã, lançar um “kidar” interrogativo, que é como quem diz: «de onde és?».
Sem esperar pela resposta o homem deduz que eu seja suiço, vá-se lá saber porquê! Respondo-lhe: – No, I am from Portugal. E ele: – Ah?!. Pensando que não tivesse ouvido bem, repito: – Portugal. Insiste o homem: – America?!
Palavras para quê? Cai a noite. Das mesquitas ouve-se o apelo à quarta das cinco orações que todo o bom muçulmano deve fazer diariamente, e uma pequena brisa vem em socorro dos pobres dos mortais. Sobressaíndo por entre as bandeiras do sultanato que esvoaçam nos telhados do luxuoso palácio que o monarca visita de quando em vez, avistam-se, como que implantados no mar, os fortes de Jamil e Mirani, que os portugueses ergueram e ocuparam durante mais de um século.
O livro sobre o Omã mais visível nas estantes das livrarias de Mascate intitula-se Dawn Over Oman. É da autoria de Pauline Searle e foi publicado pela primeira vez em 1979. A obra em questão, condimentado com desenhos e fotos a preto e branco, é manifestamente hostil em relação aos portugueses. A autora refere frequentemente «os terríveis crimes» que cometemos, das quais destaca «cortes de orelhas, narizes e membros». Todos sabemos que os Albuquerques e Freires de Andrade de então ordenavam atrocidades desse e até de maior calibre, mas seria ingénuo pensarmos que a outra parte não as fazia também...
Quem, felizmente, não parece partilhar a opinião da senhora Searle, é o dono de uma frutaria de Mascate que ao saber da minha nacionalidade, exclama entusiasmado:
– Português? Portugueses e omanis são amigos –.
Quando lhe pergunto o preço das três deliciosas mangas que entretanto escolhera, responde-me:
– Tome. É de graça, leve-as.
E repete: – Portugueses e omanis são amigos. Amigos de longa data.
publicado por JoaquimMDC às 13:33
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2 comentários:
De Hanifa a 8 de Junho de 2009 às 20:29
Também lá estive, em Dezembro passado (2008). O calor não era tão intenso. E adorei aquela zona onde se encontra o forte.
Quando me perguntavam de onde era e eu dizia Portuguesa, pareciam saber onde era.
De Stefan Halikowski Smith a 23 de Outubro de 2009 às 16:22
Estou a procurar a fonte de uma coisa escrita por Voce no seu livro 'Os Bayingyis do Vale do Mu'. Diz que Maurice Maeterlinck comparava a dispercao dos Portugueses no mundo commo `balas de canhao'. Onde e que escreveu isso precisamente?
Obrigado pela sua ajuda,
Stefan

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