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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
As pedras adormecidas
É pequeno mas abastado o estado islâmico do Bahrain que abrange uma ilha com o mesmo nome e umas três dezenas de ilhotas, ao largo da Península Arábica e do Qatar e mesmo em frente ao Irão. O que poucos sabem é que durante quase um século esteve sob o domínio português, integrado no Estado da Índia, como de resto estavam inseridas uma série de fortalezas espalhadas pelo Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.
Já Camões mencionava as «pérolas ricas e imitantes da cor da aurora» que se tiravam do fundo do mar «junto à ilha de Barem», e a prata amoedada que as caravanas de Alepo ali transportavam para a sua compra. Aliás, o nome Bahrain deriva da junção de duas palavras árabes, que se podem traduzir como «dois mares», que reflectem um fenómeno natural em que água doce de origem termal se mistura com a água do mar, o que, segundo alguns, confere um brilho especial às pérolas, a base da economia desta região até a descoberta do petróleo, em 1932.
Mas quem pretenda visitar o país bem pode esquecer qualquer tipo de informação turística ou sítio onde guardar a bagagem à chegada ao aeroporto internacional de Manama, a capital do país. Aqui o assunto do dia são compras e negócios – «petro-negócios», melhor dizendo – e uma estrada directa para a Arábia Saudita. No pequeno átrio de chegadas há, contudo, uma ou outra agência especializada em curtas visitas guiadas a algumas das atracções de Manama, entre os quais se destaca o forte de Arad, construído pelos portugueses no início do século XVI.
Mas… e o Património da Humanidade, o forte Qalat Al Bahrain, que tem o nome do país e tudo?
O olhar surpreendido do taxista que abordo à saída pode traduzir-se assim: «não faço a mínima ideia, mas esteja descansado que vou tentar lá chegar». Mas não sem a minha ajuda, que lhe vou dando direcções tendo como referência as imagens que consultara na véspera no Google Earth.
Sei que há que sair primeiro da pequena ilha de Muharraq, atravessar a cidade, e algures a norte enveredar por uma estrada secundária, numa área residencial de periferia, rumo ao litoral, pois é aí que se normalmente se situam as fortalezas.
O Golfo Pérsico acaba de sair do seu curto inverno, a única altura em que temperatura da região é suportável. No ar paira já a habitual espessa névoa e não há um sopro de vento que nos alivie. O que vale é que a humidade anda por baixo… Em contraste absoluto com uma linha do horizonte caracterizado por arranha-céus, alguns de arrojadas formas, chama-me a atenção desde logo a enorme quantidade de embarcações varadas – as nossas conhecidas baggalas – nos mais incríveis locais: em rotundas, na berma da estrada, no meio de um jardim. Dá impressão de estarem ali como se de simples peças decorativas se tratassem. Também as há onde devem estar, flutuando à tona das agora pachorrentas águas de um azul intenso e cristalino.
Manama, em árabe, significa «o sítio que dorme». De facto, tudo aqui parece estar a dormir, à excepção dos inúmeros automóveis que circulam pelas estradas bem asfaltadas. Não vejo um único autocarro e os camiões são raros. Aqui é impensável não ter carro próprio. Nas bermas não se avista um peão, nem mesmo em plena cidade, apesar de ser apenas 9 da manhã.
O forte avista-se ao longe, com uma cerca de arame em todo seu perímetro e homens fardados em guaritas em determinados pontos. A entrada principal faz-se através de edifício moderno onde existe um museu e uma cafetaria.
«Quando precisar de regressar ao aeroporto, ligue para nossa central», diz o taxista, antes de se ir embora, entregando-me o seu cartão. Não devo ter outra alternativa: não há qualquer transporte público nem se avistam táxis nas redondezas.
Na recepção do museu uma muito amável funcionária permite que guarde a minha mala numa das salas. Este será o meu quartel-general, onde virei certamente buscar refúgio no ar condicionado no pico de maior calor, aproveitando para visitar os objectos expostos, que se debruçam sobretudo sobre a milenar civilização de Dilmun, contemporânea da Babilónia mesopotâmia.
Também na área do forte, a uns 100 metros do museu, não há vivalma. Um homenzinho, visivelmente contente com presença de um visitante, atravessa num ápice a passadeira de madeira sobre o fosso, para abrir o único portão da fortaleza. Pelos vistos fui o primeiro e o único visitante dessa manhã.
Impressiona, desde logo, a qualidade do trabalho aqui efectuado. O forte está muito bem recuperado e durante a noite é iluminado por dentro e por fora. Na recuperação procurou-se manter o aspecto original, porém encontra-se muito despido. Não um único canhão para amostra. E forte sem canhão nem é forte nem é nada. Tão pouco se vêem canhões no museu, junto a alguns outros artefactos do período português. Onde terão ido parar?
A construção desta fortaleza foi iniciada ainda no reinado de D. Manuel I. Mas não se pense que o processo foi fácil. Entre 1521 e 1529 combateram, com requintes de crueldade, portugueses e árabes. Só em 1559 é que o Bahrain passou para as mãos portuguesas, tendo sido fundamentais as máquinas de guerra concebidas e construídas pelo engenheiro Inofre de Carvalho.
No interior vi apenas dois outros funcionários enfiados dentro de uma pequena sala, em frente a uma ventoinha, a lerem um jornal publicado em inglês. E é esse jornal, ou melhor os nomes de origem portuguesa no corpo redactorial – Alexandra Gouveia, Mae Silvestre e Bevill Braganza – que me levam a falar aqui da quase obrigatória associação do passado desta região aos portugueses, se bem que haja quem minimize essa influência, sobretudo no que aos laços sanguíneos diz respeito.
É o caso do investigador de origem síria, Al Tadmori, e ex- assessor do xeque do emirado de Ras Al-Khaimar, que conheci num anterior viagem. Apesar das reticências, admitia que ao longo da costa dos Emirados existem mais de «60 torres de vigia», grande parte delas «comprovadamente de origem portuguesa». Da antiga cidade de Julfar, fundada pelos portugueses, recuperada pelos árabes e mais tarde reconquistada pelos ingleses, restam ruínas cobertas pela areia. O castelo Daya (luz, em árabe), reconstruído nos finais do século XVI, é o sinal mais evidente da nossa passagem.
Nos países do Golfo assumir-se, ou não, como luso descendente depende da posição social do inquirido. Se a pessoa em questão é de origem humilde, não hesita em admiti-lo. Alguns, até com certo orgulho. Foi o caso de Abdul Tariq, guarda do museu de Ras Al-Khaimar, verdadeiro sósia do António Variações, que quase ficou ofendido por o ter confundido por paquistanês. No extremo oposto está Mohamed Al Kaisi, destacado membro da tribo beduína Beni Shemeli. Apesar de alguns dos seus conterrâneos jurarem que descende de portugueses, negou categoricamente essa possibilidade. Ou melhor, remeteu-a para um longínquo antepassado. Em causa estava a sua posição social – era um amigo íntimo do xeque do Emirado – e também a sua riqueza pessoal. Talvez tenha ainda pesado o facto de o ter visitado acompanhado de um filho de uma família de distintos do Emirado. Também ela próxima do envelhecido xeque, que antes da descoberta do petróleo não
passava de um simples beduíno. Adivinhava-se no seu rosto, porém, um certo fascínio quando me recebeu, numa enorme sala com enormes tapetes e sofás. Al Kaisi tinha consigo um pequeno fogareiro de barro onde ardia incenso, e que ele fazia circular regularmente por entre os presentes para que se perfumassem, como é hábito entre os árabes.
Já Ahmed Shekar, ancião local, um dos últimos a perpetuar a tradição oral em Ras Al Khaimar, não tinha dúvidas quanto à origem dessa gente de tez e olhos claros.
– Circulam inúmeras histórias a seu respeito, algumas delas meras lendas, outras bem verdadeiras – dizia. – O certo, é que ainda hoje são temidos e respeitados pelos restantes árabes. Dono de uma valiosa colecção de armas brancas e de fogo, Ahmed Shekar fizera até questão em mostrar-me um arcabuz que dizia ser português. Para Ahmed todos os membros da tribo «habouss» descendem directamente dos soldados portugueses que se refugiaram nas montanhas depois de os árabes terem reconquistado a cidade de Julfar. E não só desses, mas de muitos outros aventureiros e mercenários que ali buscaram abrigo ao longo de século e meio de pelejas entre portugueses, árabes, persas, turcos e ingleses pelo controlo de toda esta, ainda hoje, estratégica região.
publicado por JoaquimMDC às 13:34
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