.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Uma estratégica Ormuz
Apesar de geograficamente próxima dos acessíveis estados árabes do Golfo Pérsico, não é nada fácil chegar à ilha de Ormuz, antiga praça-forte portuguesa.
Começo por ser obrigado a voar do Bharain para o Kuwait, e, em trânsito, apanhar um avião da Iran Air para Shiraz, um dos aeroportos internacionais do Irão. A partir daí é uma longa viagem por terra, de autocarro, até Bandar Abbas, cidade costeira situada em frente a Ormuz, à qual os portugueses que por cá andaram no século XVI chamavam Comorão. É claro que teria sido tudo muito mais simples se pudesse ter voado directamente para o aeroporto regional de Bandar Abbas (não faltam ligações directas), mas para isso precisaria de ter obtido um visto de turista através de uma agência com itinerário pré definido, voos de partida e chegada e hotéis reservados com alguma antecedência. Enfim, uma tarefa que não se coaduna com o espírito e calendário desta viagem.
Aqui e agora, no domínio dos imãs, beneficio de um privilégio concedido apenas a alguns países ocidentais, onde se inclui Portugal, e que é: um visto de duas semanas à chegada a um aeroporto de uma grande cidade iraniana. Pouco gente sabe disto, e eu só o soube porque um atencioso funcionário da embaixada iraniana em Lisboa teve a amabilidade de me dar tão preciosa dica.
Bastam-me apenas algumas horas para me deixar cativar pela simpatia e hospitalidade dos iranianos, que conheço desde os tempos em que estavam ainda em guerra com os vizinhos iraquianos. O povo, os filmes de Abbas Kirostami (e de outros bons realizadores), as cidades históricas da Pérsia antiga e o baixo preço do pistáchio (sempre me perguntei porque razão só se vêem no mercado pistáchios californianos quando os iranianos são melhores e bem mais baratos), eis alguns motivos para voltar a visitar este país, mas com mais disponibilidade e tempo. E seguramente munido com um visto de turista, pois 14 dias, nesta imensidade geográfica, vão-se num instante.
A travessia de barco até Ormuz é de apenas 20 minutos, num mar povoado de golfinhos e infestado de tubarões. Muitos são os barcos que atravessam estas águas intensamente azuis em direcção à península de Mussadão, essa parte do Omã que o emirado de Fujeira separa do resto sultanato. Se descontarmos o factor clima, podemos considerar Mussadão assim como uma espécie de Noruega do Próximo Oriente. Os seus fiordes rivalizam em beleza e grandiosidade com os desse país escandinavo. Pelo seu mais importante porto, Kasab (onde existe um forte português), passa muito do contrabando da região. Entre os produtos traficados está o tabaco, mas certamente outros mais ilícitos (logo, mais proveitosos) ali circulam, apesar do rigor das leis dos árabes e dos persas.
Deixa impressionado qualquer um a extrema esterilidade da pequena ilha de Ormuz. Aqui nada cresce e praticamente tudo o que se consome e que se usa vem de fora. O designado «castelo português» é de cor avermelhada e preserva ainda alguns dos seus canhões. Uma tabuleta informa-nos que foi mandado erguer pelo «português Albo Kurk», sem dúvida uma forma original de nomear o Terribel das barbas compridas e olhar feroz…
O estado de degradação do forte é uma evidência, mas um projecto de restauro financiado pela Gulbenkien poderá estar a caminho. Pelo menos foi noticiado recentemente, no «Tehran Times», que um acordo teria sido assinado nesse sentido entre Portugal e o Irão. Também a fortaleza da ilha de Qeshm, ali próxima, poderá beneficiar da excelente iniciativa.
Considerado o mais importante porto da região, Ormuz passou a integrar a lista das prioridades de Afonso de Albuquerque, que em 1507 se apoderou dele, tendo mandado erguer fortaleza. Estava assim garantido o acesso ao Golfo Pérsico, por onde era escoada uma parte considerável dos géneros exóticos que, em caravanas, passando por entrepostos comerciais como Bassorá ou Alepo, entravam no Mediterrâneo e daí chegavam à Europa. Em Ormuz transaccionavam-se os melhores cavalos da Arábia e da Pérsia. Dali seguiam para todo o Oriente, sobretudo para Cambaia e Goa, na Índia.
Os trabalhos de construção da fortaleza, ao contrário do que aconteceu em Baçaim, foram rápidos e implicaram o destacamento de navios para o transporte exclusivo de pedra, gesso e cal – materiais que solidificaram a sua estrutura. Com a mão na massa, a servir de exemplo, estava o próprio Albuquerque, mas quem desenhou os planos foi o mestre-de-obras Tomás Fernandes, que aqui deixou bem expresso o seu engenho e arte. Em apenas três meses a infra-estrutura do forte estava concluída. Sabe-se disto porque Gaspar Correia, um dos cronistas presenciais dos feitos da expansão, estava em Ormuz nessa altura.
No recinto amuralhado erguerem-se várias igrejas (restam vestígios da igreja do convento da Nossa Senhora da Graça) e algumas preciosidades manuelinas – uma torre de menagem, ao estilo da torre de Belém, e uma cisterna, semelhante à de Mazagão. Torres de menagem e cisternas são, aliás, denominadores comuns em muitas das fortalezas erguidas pelos portugueses.
Albuquerque, «o mais consistente e determinado dos primeiros governadores da Índia», dizem os livros de História, era um homem com grande visão estratégica. Obreiro da nossa consolidação no Oriente, ele foi também – apesar de todas as vicissitudes, mormente desentendimentos com os capitães que o acompanhavam, e as crueldades cometidas, que eram, ontem como hoje, a fruta da época – pioneiro no diálogo de culturas entre o Ocidente e o Oriente. Não faltaram motivos, quantos deles discutíveis, que conduziram às campanhas sangrentas de Albuquerque. Admirado por muitos e odiado por outros tantos, morreu, como o próprio dizia, «mal com os Homens por amor de El-Rei, e mal com El-Rei por amor dos Homens».
Albuquerque, mistura de diplomata e guerreiro, apesar da sua mão de ferro, era muito considerado pelos auctótenes e respeitado pelos seus inimigos, não podendo portanto ser comparado a um Pizarro ou a um Cortez. Havia nele uma preocupação humanista bem expressa quando ofereceu, em Goa, refúgio político a Meale Cão, príncipe de Bijapur, e à respectiva família. A preocupação humanista faz parte desse «desígnio nacional» no qual acreditaram tantos dos vultos da nossa história, sendo Fernando Pessoa apenas um dos exemplos. «A Portugal cabe-lhe a missão humanista de perpetuar o encontro de culturas, de concórdia e apaziguamento», dizia-me há tempos, numa entrevista, Augusto Ataíde, descendente directo de Albuquerque.
Dizia-me ainda que «diferentes povos do mundo beneficiaram com a acção dos portugueses que os puseram em contacto com realidade diversa, ocidentalizando-os sem que, no entanto, eles perdessem as suas identidades, que, como se pode constatar, ainda hoje continuam marcantes».
As obras foram uma constante no historial de Ormuz, pois havia que modernizar e aperfeiçoar tão cobiçada praça. Para a melhor proteger, construíram-se pequenas fortalezas nas ilhas vizinhas, verdadeiras atalaias que proporcionavam ao grosso da população tempo de resposta em caso de um ataque surpresa. Eram, por assim dizer, a primeira linha de defesa. Nos textos e mapas coevos surgem com os nomes de Queixame, Lareca e Bandel de Comorão. Para além disso, havia ainda a feitoria fortificada de Bandar E-Kong, que resistiria até ao século XVIII.
Mas a insistência do inimigo era tal, que Ormuz acabaria por sobraçar, em 1622, face a uma força persa coadjuvada por ingleses – os nossos «aliados» ingleses! – que providenciaram seis naus, factor decisivo para a ocupação da cidade.
Ontem como hoje, o canal que Ormuz é um ponto estratégico vital numa parte do mundo que está sempre no topo da agenda internacional. Se o «fechassem» cessaria o fornecimento de metade dos barris de petróleo que o mundo consome. Imagine-se o que isso representaria para a economia mundial… Os petroleiros que agora saem do Iraque com os tanques cheios vieram substituir as naus portuguesas que patrulhavam as águas do Golfo certificando-se que as especiarias que chegavam à Europa passavam mesmo pelo Cabo da Boa Esperança.
publicado por JoaquimMDC às 13:35
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds