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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A cidade e o mato
No derradeiro trecho do voo que me traz do Médio Oriente à Índia ouço, vezes sem conta, o «Finalmente» da Babel Gilberto. Não há melhor som para acompanhar uma aterragem…
Estou de regresso a Índia, dez anos depois. Resquícios de uma reputada irracionalidade a nível das autoridades depressa se manifestam, neste caso por causa da febre suína. A fila? O inquérito? Para quê tanta histeria em torno de um vírus que mata mil vezes menos que uma gripe comum? Seguem-se as perguntas dos senhores da imigração e as dos senhores da alfândega, tudo por causa do meu equipamento fotográfico. «Temo que o vá vender na Índia», avança um deles.
No exterior do aeroporto deparo com um verdadeiro exército de táxis (os bonitos Ambassadores) e riquexós motorizados que no sudeste asiático passam a chamar-se tuk-tuks. O condutor de um deles vem com o habitual choradinho, «estou aqui há mais de quatro horas, sir», só que estou informado sobre o preço. Mesmo assim cobra 70 rupias até à estação ferroviária de Anderai, onde se apanha o suburbano para Vasai (Baçaim), a primeira das cinco maravilhas a concurso, das situadas na Índia.
A plataforma está repleta de homens de calças boca-de-sino e cabelo húmido de brilhantina e mulheres agachadas junto a cestos, caixas e sacos. Os comboios passam apinhados de gente, dentro das carruagens e junto às portas. É num deles, com bancos de madeira e dezenas de ventoinhas por compartimento, que sigo para Baçaím, antes que a confusão se instale. São 5 de manhã e a coisa está no limite, no que se refere a mole humana… Pouco importa. Sinto-me em casa e até o recorrente cheiro a esgoto (que se atenua à medida que nos afastamos de Bombaim, para dar lugar ao cheiro a plástico queimado) não incomoda tanto como se seria de esperar.
Há Vasai Road, Vasai Purana e Vasai Kila. Chego à Road de comboio e parto para Purana de riquexó motorizado, negro e amarelo. Aí deparo com os primeiros sinais da passagem dos portugueses: o casario, as igrejas, uma placa na parede que indica o escritório do Dr.Cerejo…O homem do riquexó deixa-me à entrada do único hotel, e como não são ainda 8 horas e o gerente está para chegar, não posso ocupar um quarto. Não faz mal. Estou tão exausto que adormeço logo que me deito no chão. Afinal, estou na Índia. E na Índia há imensas coisas que nos permitimos fazer, pois sentimo-nos mais livres.
Ao fim da tarde faço uma visita preliminar às ruínas, desta feita num riquexó partilhado. Do género: cabe sempre mais um. No minúsculo banco de trás sentam-se quatro pessoas e junto ao motorista há lugar para mais duas. E eu sou uma delas.
A uns três quilómetros de Vasai Purana surge-nos uma muralha pela frente. Não se percebe se a falha que permite que o asfalto continue resultou da demolição de um pedaço da estrutura ou se era esta uma das entradas da fortaleza. A segunda hipótese parece-me a mais óbvia. Continuando em linha recta, passamos ao lado das paredes do que parece ter sido um edifício importante, e, ao chegar a um significativo conjunto de ruínas, o veículo vira à direita. O seu destino final é a porta sul da cidade, que dá directamente para uma povoação de pescadores, que de forma caótica foi crescendo quase pegada à muralha. Justifica-se que a paragem de riquexós seja aí, só que eu fico junto ao que resta do outrora imponente convento dominicano, pois o sol desce rapidamente no horizonte e esta é uma rara ocasião para ter alguma luz decente nas fachadas esboroadas.
Percorrem a pé a rua principal várias pessoas e algumas pachorrentas vacas de bossa, ou não estivéssemos na Índia. Parecem vir de uma outra povoação aqui próxima. Mas há quem utilize o interior arborizado da antiga cidade como local de relaxamento e recreio, concentrando-se junto a jardim que honra o marajá que expulsou os portugueses da região. Aqui estão os vendedores ambulantes de gelados e refresco de lima e de groselha. Mais além, um templo hindu marca território, lembrando-nos que continuamos na Índia.
Situada a apenas 70 quilómetros da cidade de Bombaim, Baçaím é hoje um local invadido pelo mato, mas foi já uma das mais importantes praças-fortes da Índia, chegando mesmo a rivalizar com Goa. Antes dos portugueses a ocuparem, em 1535, era já um baluarte fortificado, mas não o suficiente para impedir que minas e outros engenhos de artilharia abrissem brechas na sua muralha.
Desde muito cedo instalaram-se na cidade todas as ordens religiosas com funções proselitistas no Oriente, e os edifícios que perduram traduzem bem essa passagem. É o caso do convento que acabo de visitar. Os restantes terão de ficar para amanhã, quando regressar a luz do dia.
Na manhã seguinte vejo-me de novo na Kila Vasai, desta vez junto à entrada sul. Um motociclista pára ao meu lado e aborda-me educadamente, como é habitual entre os indianos. Wilbyn Fonseca é um luso descendente entusiasta por estas coisas da história que para ganhar a vida vende produtos naturais à base de aloés. Relata-me a história do forte e aproveita para dizer como «seria bom que o governo prestasse mais atenção à sua recuperação e aproveitamento para o turismo local». Leva-me depois a visitar aldeia de pescadores, onde tem bons amigos. Estes preparam-se para fazer uma pausa de vários meses na sua actividade – a chegada da monção a isso os obriga. Estendido a secar em varais há imenso peixe. É com o produto da sua venda que irão sobreviver até à próxima época de faina.
Intramuros, os poços, muitos deles ainda em utilização, são os locais de socialização por excelência. Mulheres de saris coloridos e canastros na cabeça retiram do seu interior água bastante fresca. «Há uns 20 anos os saris eram de algodão puro e muito mais coloridos», lembra Wilbyn Fonseca. Também as vasilhas que traziam a cabeça eram de cobre e bronze e não de latão e alumínio, como agora. O luso descendente fala-me também de um ilustre historiador, um tal D´Silva, infelizmente ausente da cidade, «provavelmente em Lisboa, onde se desloca com frequência».
Nas locais mais inesperados, na mais degradada das ruínas, deparo com brasões, esferas armilares, quinas e cruzes de Cristo. Juntas ou associada a motivos decorativos florais ou meramente geométricos, que me apresso a fotografar, claro.
«Sir, do you want to see the royal symbol of Portugal?». Um miúdo chama-me atenção para um escudo gravado numa das paredes do que foi o hospital da cidade.
É seguramente questionável o método utilizado pelo Archeological Survey of India, que cimenta literalmente (em alguns casos com um exagero que choca) as paredes e muros dos edifícios, em cujos pátios interiores e átrios as crianças e adolescentes locais aproveitam para jogar cricket. Mas é melhor isso que deixar cair. Precisavam, no entanto, de algum aconselhamento técnico…Bom exemplo desta cimentação total é a igreja da Companhia de Jesus, caracterizada por uma torre bastante alta que sobressai entre a restante estrutura. Parece despontar de entre a densa vegetação que ali cresce espontaneamente. Mas, não há motivo para preocupações. Dentro de uns anos o cimento feio estará repleto de musgo e parecerá muito mais antigo.
A Misericórdia, a igreja paroquial de São José (construída durante o vice reinado de D. João de Castro, um dos melhores governantes que o Estado da Índia teve) e a igreja da Nossa Senhora da Vida, são outros edifícios religiosos de relevo. O que resta da Casa da Câmara, símbolo do poder local, assemelha-se aos edifícios com a mesma função ainda hoje existentes em Portugal. Era um edifício de dois andares, com piso térreo e arcos em cantaria. No que se refere à malha urbanística propriamente dita, um olhar mais atento – e não precisa de ser o olhar de um entendido – apercebe-se do traçado dos arruamentos e da praça do município, espaço público de eleição que se situava nas imediações da Casa da Câmara.
Do cimo das muralhas avista-se Bombaim, para lá do rio. Em primeiro plano, as embarcações; ao fundo, a silhueta urbana.
Edificada a alguma distância do mar, Baçaim só voltaria às mãos dos maratas, seus legítimos senhores e nossos rivais, em 1739. Hoje está entregue à sua sorte. Pedras e vegetação partilham o espaço, num permanente abraço, o que faz de Vasai a Angkor Wat do espaço patrimonial de origem portuguesa no mundo.
publicado por JoaquimMDC às 13:36
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