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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Os dois rostos de Damão
É considerado – injustamente – o parente pobre das três maiores pérolas patrimoniais portuguesas na Índia. E, no entanto, Damão, quiçá mais que Diu e Goa, não perde uma oportunidade de arvorar bem alto a sua origem lusitana. Visível na cidade intramuros (palácio do Governador, igreja de Bom Jesus) e, sobretudo, nos seus dois fortes. O mais pequeno, o de São Jerónimo; e a fortaleza de Damão propriamente dita – a Moti Daman – que é a eleita a concurso.
Uma vez mais o comboio é o meio de transporte que utilizo, embora a viagem dure agora umas quatro horas e uma tabuleta azul alerte os passageiros – «Daman and Silvassa passengers, please alight her» – para sair na estação de Volpi, pois tal como a parceira a sul, Damão não tem caminho-de-ferro.
A deslocação até ao centro da cidade é feita, desta vez, a bordo de um Ambassador apinhado de gente: uma família inteira e mais quatro passageiros. O condutor vai com cabeça de fora e os braços esticados para a esquerda, de forma a segurarem o volante. Sou incapaz de ver como maneja os pedais da embraiagem, o travão e o acelerador, mas, sabendo das deliciosas e improvisadas especificidades locais, dá para imaginar…
A entrada no território de Damão e Diu é assinalada por um arco e pelo Bar Furtado, o primeiro sinal de ruptura com a lei seca que impera no estado de Gujarate. Aqui o álcool tem rédea livre.
Fico instalado no hotel Paradise, mesmo em frente à estação de táxis. É como se o tivesse escolhido a dedo, pois pertence ao senhor Gileanes (assim tudo pegado) Faleiro, um dos «cristãos» da cidade de Goa Nani. Ao ver o meu passaporte, fica algo curioso com o que me traz aqui, e empresta-me até uma brochura em português sobre o Moti Daman; muito valiosa, já que o posto de turismo está encerrado. Mas Faleiro fica-se por aí em termos de informação, entretido que está na contagem das rupias. Sabendo a profissão que exerço, lá me vai dizendo que se prepara para lançar um jornal, não se esquecendo de ressalvar que será em hindi.
No cruzamento, a uns cinquenta metros do Paradise, há claros sinais do período da Índia Portuguesa: o mercado municipal, a estação da polícia e ruas com nomes que soam familiares. Sigo em direcção ao mar e, sinceramente, incomoda-me a presença obsessiva das liquor shops, os mais notórios estabelecimentos das nossas antigas possessões. É, por assim dizer, uma entrada com o pé esquerdo, atenuada com uma curiosa descoberta: o bar Portugal, com uma pequena bandeira e tudo.
A praia de Damão está conspurcada, a areia é preta e a água castanha. Bem, não é propriamente para usufruírem das facilidades balneárias locais que as pessoas se deslocam a Damão. Eles vêm aqui essencialmente por dois motivos: para beber e para visitar os fortes, referência em ambas as margens do rio Damanganga, mesmo junto à foz.
É claro que não posso estar em Damão sem dar uma vista de olhos ao mais pequeno dos seus fortes, com cemitério, igreja e campo de futebol no interior. Está rodeado, em toda a sua extensão, por inúmeros barcos inteiramente de madeira que são calafetados e pintados com uma regularidade metódica pelos seus proprietários. Entre as centenas de bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas que esvoaçam nos mastros, na popa e na ré, destaca-se um pavilhão das quinas. Há quem ainda assuma por inteiro o legado lusitano.
Depois que caiu a ponte que ligava as duas freguesia desta cidade (às quais se pode acrescentar uma terceira, a freguesia da Sé), arrastando consigo um autocarro escolar e alguns motociclistas, o acesso faz-se mais a leste. O inesperado desvio permite-me poder apreciar a exuberante arquitectura das casas tradicionais de Damão, que me surpreendem pela quantidade e óptimo estado de conservação.
Damão grande, apesar da designação, é bem mais pacata que Damão pequena. As igrejas locais têm umas fachadas muito peculiares, pintadas a branco e azul. Entro na cidade intramuros pelo portão sul, com espigões de metal pontiagudos (dizem que para travar os mogores), e logo deparo, à minha esquerda, com a Casa da Câmara – ainda com letreiros em português: Secretaria, Sala de Reuniões… – e a igreja do Santíssimo Nome de Jesus (também conhecida como Bom Jesus), que é catedral de Damão. Mais à esquerda ainda, estão a igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Convento de Santa Mónica, hoje um posto de polícia onde funcionou já uma prisão.
O convento dominicano de Damão, em ruínas, assemelha-se bastante ao de Baçaim. Também aqui as crianças aproveitam o terreiro contíguo para jogar criquete. Em ruínas está também a igreja de Nossa Senhora de Fátima, que empresta o nome a uma escola, essa sim pujante de vida.
Exemplo da engenharia portuguesa do século XVI e XVII, esta construção de catorze baluartes e espessos muros de cantaria, obedece a todas as regras da arte de bem defender. A engenharia foi de tal ordem que tanto de um lado como do outro a água chegava aos muros nos períodos de maré alta, um pormenor fundamental já que os ataques dos rivais – muçulmanos ou europeus nossos concorrentes – ocorriam de ambos os lados.
Hoje, todo o aparato defensivo mostra-se obsoleto. Entra-se na cidade e é-se recebido com a afabilidade que caracteriza o indiano. E se o visitante é português, essa afabilidade é acompanhada por um quase imperceptível carinho, igualmente presente noutras partes com o mesmo passado histórico. Os apelidos de muitos dos damenses, o estudo da língua portuguesa e a geminação de Damão com a cidade de Coimbra, lembram-nos que muitos outros, além do poeta tenente Bocage, passaram aqui uma considerável parte das suas vidas. Na casa onde viveu o libertino setubalense, na rua Martim Afonso (está lá placa), habita agora uma família humilde. Essa rua dá para o farol, um dos locais predilectos para as fotografias que mais tarde recordarão a visita.
Inesperadamente acabo por deparar com a Vivenda Colaço, uma típica casa indo-portuguesa, junto ao único muro que resta do exemplar hospital Seiscentista. No pórtico está alguém que conhece bem um outro Colaço – José de seu nome – residente de Macau, amigo de longa data, e um dos mais entusiastas defensores da singularidade da cultura e tradições de Damão. «Sim, sim que o conheço», diz-me o Colaço de cá, «ele é dado às coisas da música, não é?» Verdade. O José Colaço faz parte do rancho folclórico português de Macau e do de música tradicional de Damão, e nunca falha uma presença na Festa da Lusofonia, que anualmente se realiza na ilha da Taipa. Sempre me incentivou a visitar a sua terra natal, se possível quando por lá estivesse.
Este inesperado encontro, obriga-me a reflectir sobre a ineficácia de organizações como a CPLP, que continua a ser um projecto ausente. E nem vale a pena compará-lo à Commonwealth anglo-saxónica, pois, como me dizia um amigo aqui há uns anos, «são portas de entrada muito diversas». Os anglo-saxónicos enveredaram directamente pela via económica; e nós pela via humanista, a via dos afectos, apostando na componente cultural que está assente em laços históricos muito profundos. E, apesar das aparências, o factor efectivo triunfa. E permanece. Talvez isso explique o facto de, no decorrer dos séculos, ser a memória portuguesa – e não outra qualquer – que perdura nos mais recônditos lugares do planeta sempre que se trata de contactos entre europeus e povos «descobertos ou redescobertos». Lembro, a título de exemplo, os fortes laços que nos ligam ao Brasil – «o cais do lado de lá», como dizia Torga – e a Timor Leste. O
problema é que se fala em demasia e pouco se faz. A nossa veia humanista devia ser posta em prática (e essa é uma responsabilidade do governo); primeiro, dando a conhecer o exemplo da nossa História, promovendo-a, e não convivendo mal com ela, como continua a acontecer. Depois, a nós portugueses, mestres da adaptação e miscigenação, cabe-nos o papel de ocuparmos lugares de centralidade, consensos e decisão, como, aliás, já vai acontecendo. Por fim, tudo perde o sentido se não desenvolvermos harmoniosamente o país, tornando-o num lugar justo e aprazível, onde todos se sintam bem, como parte integrante dele. Se assim não for, se continuarmos nesta senda de baixa auto-estima que faz com que partamos para os desafios já meio derrotados, dificilmente chegaremos a lugar algum.
publicado por JoaquimMDC às 13:37
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1 comentário:
De Telesforo Fernandes a 19 de Setembro de 2015 às 12:25
Um percurso interessante pelos lugares da presença portuguesa

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