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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A relíquia de Cambaia
Verdadeiro símbolo de resistência, a fortaleza de Diu teve a sua primeira pedra colocada, em 1535, pela mão do próprio governador, onde se havia de erguer o baluarte de São Tomé. Foi uma fortaleza projectada para durar com obras permanentes ao longo dos séculos XVII e XVII, tendo sido então restaurado todo o seu sistema defensivo. Curiosamente, Diu não foi tomada pela força (o sultão local autorizou Nuno da Cunha a construir a fortaleza), mas foi certamente dos locais mais assediados da Índia portuguesa, tendo sempre resistido a ferozes cercos, fossem eles de guzarates, mogores, ingleses, franceses ou turcos, o inimigo de estimação dos lusitanos de Seiscentos. Recorde-se, a propósito, o episódio dos artilheiros gregos que depois de se alistarem no exército português (como faziam muitos estrangeiros) passariam para o lado dos otomanos, ajudando-os no cerco frustrado que impuseram à cidade. Na verdade estávamos perante dois espiões
pagos pela Senhoria de Veneza, a quem Portugal, com a descoberta do caminho marítimo para Índia, tinha tirado o pão da boca, ou melhor dizendo, o ouro do aferrolhado cofre, já que a cidade estado tornara-se rica e poderosa porque era a fornecedora exclusiva de produtos exóticos para a Europa.
Do Oriente vinha tudo o que deslumbrava: ouro, seda, pimenta, gengibre, cardomomo, diamantes, âmbar, rubis, safiras, topázios, almíscar, goma-laca, calaim, aloés, cânfora, águila, benjoim – «o cheiroso licor que o tronco chora –, tamarindos, tartarugas, cravinho, noz-moscada, maça, sândalo, sapão, pau-brasil, calambuco, linaloés – «o pau cheiroso – ruibarbo, pedra-ume, cetins, damascos, porcelanas, aljôfar, laca e o breu, o antecedente do petróleo. Dele dizia João de Barros que era «uma árvore que emana óleo, a que chamam nafta».
Diu era o tradicional fornecedor de índigo, açúcar, alúmen, cera, ópio e roupas de Cambaia, que o ocidente tanto ansiava.
Eis-me em frente daquela que é certamente uma das mais belas e imponentes fortificações construídas pelos portugueses. Imponente e inexpugnável. O fosso, de uns trinta metros de largo e outros tantos de profundidade, foi cavado em dois dos lados, isolando o bastião, que dos outros dois tem o oceano como defesa natural. Quem, mesmo assim, conseguisse ultrapassar a barreira, seria confrontado com um outro fosso semelhante, no interior, antes de uma nova linha de muralhas.
Este é o cenário onde se desenrolaram muitas escaramuças, mas nenhuma com a dimensão da batalha de Diu, nas palavras de Edgar Prestage, «uma das decisivas batalhas na história da Ásia» através da qual Portugal logrou a sua superioridade militar no Índico. Nesse confronto, as forças portuguesas eram inteiramente desproporcionadas à magnitude dos seus intentos. O sucesso explica-se, como nota o historiador árabe Zinadim, na sua «História dos Portugueses no Malabar», porque «eles não obstante a grande distância que se acham dos seus príncipes, não desobedecem aos seus capitães, e ainda que haja desinteligências entre eles, nunca se ouvi dizer que um dos seus capitães fora assassinado por cobiça de poder. E na verdade eles, graças a estas qualidades, apesar do seu pequeno número, conseguiram sujeitar as populações do Malabar e outras mais, aproveitando-se da rivalidade e competições dos capitães e soldados muçulmanos, e da
gula do poder de outrem, ainda que seja à custa da sua vida».
Esses eram tempos áureos da Expansão, se assim os podemos classificar. A decadência estava à porta e seria então a vez de Diogo Couto, no seu «Soldado Prático», denunciar a imoralidade e desatino que assolava o mal habituado português da Índia, minado pela cobiça, pela vaidade e pela intolerância.
Local privilegiado no Golfo de Cambaia, a praça-forte de Diu teve grande dinâmica ao longo dos tempos, particularmente durante o vice-reinado de D. João de Castro. À semelhança de Ormuz, como parte de um complexo sistema defensivo, vários fortins foram erguidos nas ilhas adjacentes.
Felizmente que agora as fortalezas têm outras funções. Bem mais nobres e úteis. São sobretudo locais para o romance, o convívio e a contemplação. Os muros e muralhas de Diu tornaram-se populares entre os guzarates, que aqui se deslocam, em família, de cidades como Amedabad, Baroda ou Banghavar, a centenas de quilómetros de distância. Também os namorados ou os recém casados em lua-de-mel escolhem-na como amuleto. Ouvindo-lhes juras e segredos, os inúmeros e bem conservados canhões (nunca vi tanto canhão num só forte e tanto brasão em alto relevo!) são fiáveis confidentes. As suas bocas caladas há muito que deixaram de vomitar o fogo mortal.
Ao largo avistam-se embarcações de pescadores que a determinadas horas do dia entram e saem da barra, de regresso ou de partida para faina diária. A meio caminho entre a ilha de Diu e Una, povoação na parte continental, está o fortim de Panikota, que serviu de prisão e é agora um excelente pano de fundo para as fotos que não me canso de fazer. Á noite, diversos holofotes projectam sobre as suas paredes maciças, feixes de luz multicoloridos.
Observada do ponto mais alto da fortaleza, dominada por um farol, a cidade parece mergulhar numa mancha verde de arvoredo onde se destacam as fachadas das principais igrejas da cidade. Uma delas é hoje um museu, com interessantíssimas peças, e a outra, a igreja de S. Paulo (ou simplesmente igreja de Diu), está aberta ao culto. Frequentam-na a comunidade de 200 cristãos que habitam no bairro mesmo ao pé.
Apesar de todos os trunfos que dispomos, continuamos a não saber aproveitar as imensas possibilidades do dito turismo histórico. Refiro-me aquele que se pode fazer longe do nosso país – em Diu, por exemplo – onde deixamos, mais do que sombras, pegadas sobretudo. Boas e más. A mim compete-me destacar as boas, pois os julgamentos devemo-los fazer na época em que vivemos, não muito melhor que as anteriores, apesar do discurso subtil dos apregoadores do revisitado admirável mundo novo.
Como o mundo gira… O turco, outrora inimigo, é agora o melhor aliado do português. E quem diz português, diz europeu. Ao apoiar abertamente a entrada da Turquia na União Europeia, o mais alto representante do nosso país demonstra verdadeiro universalismo. Claro que há muito a tratar no domínio dos direitos humanos, das liberdades cívicas, e na demarcação da devida fronteira entre o Estado laico e a religião, antes da entrada dessa nação que só poderá ser benéfica para uma Europa velha e gasta, já que os processos emigratórios rejuvenescem as sociedades. A Turquia será, no futuro, base de diálogo entre o mundo ocidental e o mundo islâmico.
Depois destes devaneios pelos caminho da história, que posso mais dizer de Diu? Muito, muito mesmo. Diu é uma ilha que se aprende a descobrir. E quando se pensa que se viu tudo, escrutina-se mais um pequeno recanto, mais uma parte da cidade que, afinal, estava por explorar. É o que me acontece quando, visitado o forte, decido percorrer, de bicicleta, a muralha exterior em toda a sua extensão, entrando depois pela porta sul, caracterizada pela cor vermelha das muralhas. Logo ali deparo com um grupo de homens que falam perfeitamente o português. Garantem-me: «Em Diu há muita gente a falar português, nem que sejam só algumas frases». E mais: muito são os detentores de passaporte nacional.
O dia está quase no fim e a verdadeira cidade de Diu surge à minha frente, nas ruas labirínticas onde me apetece perder, para melhor a apreciar a beleza das casas com decorações mais ou menos fantasiosas. Este era um bem guardado segredo da cidade, para onde vim quase em branco, disposto a ser surpreendido.
Bem cedo de manhã, no centro de Diu, junto aos hotéis e bares que só servem álcool, os camponeses das redondezas estenderão sobre os oleados e serapilheiras, em pequenos montinhos, o resultado do cultivo que praticam nos quintas deste pedaço de terra de onze quilómetros de comprimento por três de largura. Para além desta agricultura de subsistência e da pesca, a economia da ilha depende ainda da extracção do sal. Diu é também um santuário para a íbis e o flamingo, só para mencionar as mais vistosas aves que aqui nidificam.
Que mais posso dizer sobre Diu? Que seguramente voltarei, para a apreciar com o distanciamento e o tempo que merece.
publicado por JoaquimMDC às 13:38
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1 comentário:
De Bruno Monteiro a 12 de Junho de 2009 às 17:35
Ainda há menos de 1 ano, quando visitei Diu e a Fortaleza, deparei-me com pessoas cujos laços que as ligam a Portugal continuam bem visíveis, a língua portuguesa ainda sobrevive e as marcas da presença dos portugueses continuam visíveis um pouco por toda a ilha. No entanto aquelas pessoas, assim como o restante património histórico português pareceu-me um pouco perdido e abandonado pelo o país que os fez nascer. Fica o desejo de que estas votações se façam sentir e que Diu ganhe força para que mantenha de pé as suas maravilhas e os laços que (ainda) a ligam a Portugal.

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