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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Símbolo da Goa Dourada
Capacidade de comando e ferocidade têm sido as características mais apontadas ao descobridor do caminho marítimo para Índia. Esse alentejano de Sines, ganhou a confiança de D. João II, que lhe incumbiu várias missões que conduziu com sucesso, as mais relevantes já em pleno reinado do Venturoso. No mar, a teimosia do capitão, que só o acaso não permitiu que seguisse a carreira eclesiástica, levou-o, no final de 1497, a dobrar o Cabo ao qual Bartolomeu Dias tinha desvendado os segredos, abrindo a porta para o Índico e o mundo encantado de onde chegavam as apetecidas especiarias e outros produtos exóticos.
Para o conseguir, Vasco da Gama seguiu a filosofia do «antes morrer que ceder», máxima que assenta na perfeição a alguém que é teimoso por natureza. Uma teimosia herdada por um antiquário seu descendente, Teles Gama, com estabelecimento ali para os lados do edifício de Assembleia da República, com um gostinho especial pela Índia, como não podia deixar de ser.
Para Teles Gama a diáspora espalhada pelos quatros cantos do mundo é um verdadeiro trunfo que Portugal não tem sabido utilizar. Não só a diáspora de emigrações recentes, mas sobretudo a de permanências resistentes com cinco séculos de existência. Só que é uma diáspora «com falta de consistência e unidade».
Penso nestas palavras quando desembarco no aeroporto de Goa, a escassos quilómetros de Vasco da Gama, a terra que honra o navegador. Daí sou transportado numa motorizada até Panjim, actual capital do estado de Goa, a oito quilómetros apenas da Velha Goa, o resultado mais visível e mais duradoiro da teimosia de gente da estirpe de um Gama, de um Afonso de Albuquerque ou de D. João de Castro.
Uma hora depois estava ler nomes de ruas e de estabelecimentos comerciais em português; estava a falar português com goeses – cristãos ou de outros credos – e virei até cicerone, dando dicas a um grupo de oito marinheiros brasileiros (visivelmente abalados pelo choque de cultura), parte da tripulação de um navio de guerra ancorado no porto de Vasco da Gama.
Pode-se dizer que há dois Gamas nas expedições à Índia. Na primeira, o navegador que veste a pele do diplomata comerciante. Na segunda, a do conquistador, a imagem a que a História registou. Se calhar por isso existe actualmente uma corrente detractora do seu nome. Há até quem lhe chame pirata. «Pirata!? Como se pode reduzir um homem daqueles a pirata?», perguntava indignado o nosso antiquário lisboeta.
É claro que o capitão da nau São Gabriel não era propriamente um menino de coro, pois se o fosse não tinha chegado onde chegou. Era um homem duro, e só assim evitou tumultos a bordo ou deserções em massa entre a tripulação constituída por pescadores feitos marujos e degredados sem esperança.
Em 1998, ano do cinquentenário da Descoberta do Caminho Marítimo para Índia, foi preciso um jornalista alertar o presidente indiano, de visita aos Jerónimos, para a presença do túmulo do navegador, já que os anfitriões oficiais não pareciam dispostos a fazê-lo... É norma protocolar os chefes de estado estrangeiros colocarem uma coroa de flores no túmulo de Camões, que está no lado oposto ao do Vasco da Gama. O «esquecimento» deve-se a esse medo, muito nosso, de nos assumirmos, sem complexos.
Nesse mesmo ano Teles da Gama foi convidado pelo ICEP a ir a Los Angeles receber o Prémio de Viajante do Ano, atribuído ao navegador português, durante o congresso anual da American Society of Travel Agents (ASTA), organismo que reúne agentes de viagem de todo o mundo. Discursou perante quatro mil pessoas e, no dia seguinte, o cônsul da União Indiana em São Francisco pediu à presidente do ICEP que ele lhe fosse apresentado, pois teria imenso prazer em conhecer o descendente de Vasco da Gama.
«O sentimento geral entre os indianos é de estima, curiosidade e respeito, e não de desprezo». Uma vez mais recordo as palavras do antiquário, quando sou confrontado com o seguinte apelo de um goês: «Porque é que Lisboa se esqueceu de nós?». Socorro Almeida, cujo pai foi carteiro «durante o período português», refere-se, claro, ao apetecido passaporte, nem sempre concedido às pessoas que mais o merecem. Mais tarde, um agente de viagens agradece ao meu país o facto «de ter proporcionado à Índia o contacto com uma outra civilização». Nada que me espante nestas declarações, sem dúvida genuínas. Nas várias viagens efectuadas pela Índia nunca ouvi qualquer comentário negativo acerca dos portugueses ou do seu passado colonial, e a verdade é que os indianos têm muito que nos apontar… Não obstante, optam por manterem-se fiéis ao espírito da primeira expedição à Índia: a essa busca da «Terra da Boa Gente» e da «Terra
dos Bons Sinais», antes de os canhões começarem a troar, anunciando os sangrentos tempos da intolerância, que seriam ainda mais tenebrosos após o estabelecimento da Inquisição em Goa.
A bordo de um dos autocarros que saem de Panjim, de 10 em 10 minutos, rumo a Old Goa, apetece-me dizer: «da Velha Goa ficaram as igrejas». As igrejas (que foram reconstruídas, mantendo pouco do original) e os muros e algumas paredes de pedra porosa que dividiam as propriedades. Pedras soltas e memórias de sobra. De um período de glória, e até, durante décadas, de muita tolerância.
Apesar de ser este sítio, com o selo Património da Humanidade, um agradável local para se visitar, e as autoridades locais não cobrarem bilhetes, democratizando o acesso a um bem que é de todos, tendo até a muito louvável iniciativa de colocar água filtrada e fresca à disposição (prover água e sanitários gratuitos é um acto de civilização), dificilmente nos dá uma ideia de como seria, desde 1510, a capital do império português do Oriente, a Goa Dourada como lhe chamavam, rival de Lisboa do tempo das Descobertas, que acabaria por ser, séculos depois, desmantelada e transferida para Panjim. Restaram as igrejas, como já se disse, entre elas a Sé Catedral, uma das maravilhas a concurso.
Construída no reinado de Dom Sebastião, «a maior igreja católica da Ásia», impressiona pela sua dimensão, embora o sítio onde foi erguido o tempo inicial passe hoje despercebido. Funciona aí um pequeno café com tecto de chapa de zinco.
Se nos deixam de cabeça para trás os 36 metros da fachada clássica, o que dizer do interior com 76 metros de comprimento e 55 de largura? Ou ainda a pouco comum (em construções do género) altura e largura da nave central do templo que contém autênticos tesouros em forma de retábulos de talha, estátuas e pinturas, todos eles de clara influência ocidental? Adicione-se ao já mencionado, toda a exuberância e cor dos ornatos que compõem a Capela do Santíssimo Sacramento ou ainda a simplicidade de ancestral uma pia baptismal em muito mau estado. No solo são muitas as lápides funerárias com brasão, a lembrarem-nos os privilegiados de outrora, que hoje se limitam a emprestar o nome aos solares e palacetes espalhados pelas diferentes regiões da província, de Salcete a Bardez, de Ponda a Quepem.
Foi através de Goa que o mundo ocidental se fundiu com a milenar civilização indiana, num cadinho de casamentos interraciais e alianças políticas que criaram laços que ainda hoje se mantêm fortes. Em Goa foi introduzida a primeira impressora e com ela se preparam os livros que iriam fazer dessa cidade o pólo do cristianismo em todo o continente asiático. Pode dizer-se que a Sé Catedral, edificada em pleno auge económico-social e artístico, revela bem uma vontade de impressionar os naturais, com «a riqueza, poder e fama dos portugueses que dominavam os mares desde o Atlântico até ao Pacífico». É que, na sua primeira viagem, Gama levava como oferta para o samorim de Calicute simples corais, mel, açúcar, azeite, barretes e bacias de metal. Um gesto que reflectia a profunda ignorância europeia em relação às civilizações bem mais avançadas do Próximo e Extremo Oriente. Como escreveu Jaime Cortesão «a rapidez fulgurante dos nossos
êxitos nesta parte do mundo não se compreende sem considerarmos que ela estava ocupada por povos de civilização avançadíssima e que em muitos dos seus primores não cedia o passo à dos ocidentais».
publicado por JoaquimMDC às 13:39
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