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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
O repouso do jesuíta
A Companhia de Jesus foi, de longe, a mais importante congregação religiosa na Ásia. E Goa era, por assim dizer, a sua principal sede. Por aqui passavam todos os membros dessa comunidade destinados a pregar nos mais remotos e inóspitos recantos do continente asiático. Como escreveu Jaime Cortesão, «os jesuítas, mais que todos os outros, davam a Goa o seu carácter de metrópole missionária. Na Casa dos Catecúmenos, catequizavam-se e ensinavam-se os indígenas adultos; e no vastíssimo Colégio de S. Paulo recebiam ensino gratuito 2000 crianças.»
Uma das principais preocupações dessa ordem religiosa era o saber. Não admira que tivessem sido eles os fundadores da primeira universidade da Ásia, em Macau.
A Igreja de Bom Jesus, conhecido como o Taj Mahal de Goa, tal é a sua grandiosidade, exemplifica bem o tipo de edifícios religiosos que em Goa foram construídos. O viajante francês seiscentista Pyrard escrevia no seu diário que o «número de igrejas é tão maravilhoso, que não há praça, rua, encruzilhada, que não possua alguma». Mas a que mais o impressionou foi o convento de São Francisco, que considerava «o mais belo e rico de mundo». Rivais dos jesuítas, os franciscanos opuseram-se ferozmente a que o convento do Bom Jesus fosse uma realidade.
Em questões de rivalidades, numa Goa a enveredar para a decadência, franciscanos e jesuítas batiam-se aos pontos.
Outros edifícios haviam de muito maior dimensão que não sobreviveram à campanha de destruição que se seguiu ao decreto do marquês de Pombal que extinguia as ordens religiosas. Os mais magníficos exemplares da arquitectura religiosa de Goa foram simplesmente demolidos. Edificado em 1585, em local privilegiado, no centro da cidade, o convento do Bom Jesus escapou à razia, provavelmente, pelo facto de albergar no seu interior o túmulo de São Francisco Xavier, o dito «apóstolo do Oriente». Trata-se de uma caixa prateada (obra de artistas goeses), cravejada de pedras preciosas onde está o corpo incorrupto do santo, alvo de extrema veneração em toda Ásia. No interior da capela há pinturas alusivas à sua vida e objectos litúrgicos em prata. Este ilustre e permanente hóspede é o motivo para que seja constante o fluxo de turistas (maioritariamente indianos) que de manhã à noite entram e saem da igreja e do claustro do convento e se fazem
fotografar em frente da bonita fachada vermelha, para a posteridade.
Depois de uma vida austera, Francisco, que nasceu em berço de ouro, no castelo de Solor dos Aguares y Javier, numa família rica de bens materiais e títulos honoríficos, rodeou-se involuntariamente de algum fausto para a eternidade… Desde jovem, o navarro manteve sempre uma estreita ligação com a população em geral. Tal traquejo facilitar-lhe-ia, no decorrer das suas viagens, o contacto com os povos e locais que visitava, tendo sempre demonstrado uma extraordinária capacidade de adaptação.
Formado pela Universidade de Paris, Xavier era talentoso nas línguas e nas artes de engenharia. Amigo de Inácio de Loyola, com quem visitou os lugares santos de Jerusalém, ingressou no seminário e com Inácio estabeleceu as bases daquela que viria a ser Companhia de Jesus. A sua debilidade física não o impediu de responder ao apelo de D. João III, que ansiava ver partir evangelizadores rumo ao Oriente. E sentiu esse apelo de tal forma que a partir de então assumiu-se como «português de coração». E português ficou, pelo menos para muita gente, entre os quais os mentores do antigo regime. Numa pintura a óleo existente na sala que liga a igreja ao claustro, e que representa o corpo incorrupto do santo, Craveiro Lopes eternizou a sua assinatura, entre outras figuras, mais ou menos conhecidas, mais ou menos obscuras.
Ainda hoje, por toda a Ásia – de Goa a Malaca, de Macaçar às Molucas ou do Japão à China, onde morreu, mesmo às portas do império que em vão quis evangelizar – Francisco Xavier, venerado como nenhum outro, é sobretudo memória lusa.
Entre as famílias mais ilustres de Goa existe um grande apego a ele, nalguns casos a roçar o mais extremo dos fundamentalismos. Lembra Mendia de Castro, conde da Nova Goa, a história de uma familiar, «senhora muito devota, casada com um dos vice-reis», que numa ocasião em que o corpo do santo estava exposto para que fossem beijados os seus pés, como é da tradição em cada dez anos, aproveitou para, no momento do ósculo, arrancar uma falange do dedo mindinho, guardando-o cuidadosamente na boca. E assim surgiu uma relíquia que ainda hoje permanece na família e que é muito respeitada por todos os seus membros. Guardada num sarcófago de prata, a relíquia está, como seria de imaginar, e para sua salvaguarda, num local secreto. De quando em vez, a família acrescenta o apelido do santo a um novo rebento, para honrar a veneração secular. Houve uma altura em que só um padre da família estava autorizado a mexer na relíquia. E só em dias
especiais é que todos a podiam venerar.
Para além da falange, a família Nova Goa tem em sua posse outras relíquias menores, como sejam pedaços da túnica do santo. O conde lembra os tempos de estudante, quando levava consigo um desses tecidos dentro da camisola para ter sucesso nos exames. «Nós achávamos que aquilo funcionava, e essa fé é que era o mais importante», diz.
Os Castro foram para Índia em 1550, «para Damão inicialmente», e mais tarde para Goa onde ergueram palácios e serviram o rei, tendo aí permanecido até 1850. Esta data marca o regresso definitivo a Lisboa do representante da família, Luís Caetano de Castro, o bisavô de Mendia de Castro. O título conde Nova Goa seria concedido pelos «valiosos serviços prestados à nação em terras do Oriente».
Para dar uma ideia do que chegou a ser o poder de famílias goeses como esta, o meu interlocutor – sentado no sofá de sua casa, não muito longe da prata da família e de uma estátua de marfim do Menino Jesus de arte indo-portuguesa – lê-me extractos da carta de uma tia, escrita em 1950, na qual revelava o espanto demonstrado por um certo personagem indiano, «visita regular da casa», que dizia que quando via os membros da família sair de carro e de coche, constatava que estes «levavam batedores à frente, como os reis, para que todos se afastassem».
Mas os tempos são agora outros... No palácio que outrora pertenceu á família Nova Goa funciona hoje uma escola gerida por dominicanos. Mas se os Castro perderam palácios no Oriente, ganharam outros na metrópole, em Tomar, graças a casamentos de estratégia. Um deles ligou-os à família Abreu – que se julgavam de tal forma poderosos que de si próprios diziam, «depois de Deus só os Abreu» –, mais propriamente a António de Abreu, que uma decisão de tribunal, «na sequência de uma disputa com os frades do convento de Cristo», mandou comandar naus para Malaca, tendo sido ele, de resto, um dos «descobridores» das ilhas Malucas.
Tal como para os Castro, Goa foi a paixão primordial do basco Xavier. Santo padroeiro de Goa e dos goeses, sejam eles católicos ou hindus, todos o invocam ou se colocam sob a sua protecção. O ecumenismo é um hábito há séculos enraizado em Goa.
publicado por JoaquimMDC às 13:39
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1 comentário:
De bernardo a 30 de Março de 2012 às 17:01
Caro amigo Joaquim,



O meu nome é Bernardo do Valle de Castro, tenho 29 anos. Tendo regressado esta semana da Índia, particularmente de Goa, Damão e Diu, tenho estado a pesquisar sobre tudo o que vi, até que fui dar à sua página, onde tem um artigo que faz referência a um tio meu (Mendia de Castro) e à vida da minha família na Índia.



Estando interessado em regressar à Índia, pretendo agora informar-me o melhor possível sobre este maravilhoso país, sobretudo sobre as zonas onde deixámos a nossa incrível herança cultural.



Tenho agora abertas várias "frentes" de pesquisa (desde um arquivo de família, a literatura variada), e todas podem ser-me muito úteis. Neste sentido, pergunto-lhe se há alguma ajuda que me pode dar nesta minha caminhada. Para o ano que vem gostava de lá regressar e gostava de ir muito mais informado sobre os vários locais e histórias interessantes, relativos à herança deixada por nós, portugueses.



O meu número é o 917917695.



Uma abraço,



Bernardo

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