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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Os descendentes de Albuquerque
Malaca está perfeitamente bem servida no que diz respeito a transportes. O autocarro é o meio mais comum, e o mais prático. Diversas empresas rodoviárias dispõem de confortáveis veículos que de hora em hora partem dos dois mais importantes centros urbanos vizinhos a Malaca: Singapura e Kuala Lumpur. São aproximadamente três horas de viagem, tanto de uma como de outra cidade. Essa é uma enorme vantagem para o viajante estrangeiro, que pode sempre optar pelo destino mais conveniente, considerando preços ou horários. Para mim, que venho da Índia, Singapura é a opção.
Muito antes de Afonso de Albuquerque a conquistar a tiro de canhão, em 1511, Malaca era já um importante entreposto comercial. Um porto obrigatório para os mercadores chineses e árabes que dominavam os mares do sul da China.
A construção de uma fortaleza assinalou a possessão da cidade pelos portugueses durante mais de um século. Em 1614, após um cerco de oito meses, A Famosa (assim se chamava a fortificação) seria arrasada pelos holandeses, que no processo se apoderaram da cidade. Em 1824, Malaca seria cedida aos ingleses em troca de um porto na ilha de Samatra.
Recentes projectos imobiliários em curso em terra reclamada à zona ribeirinha, relegaram para segundo plano os monumentos e edifícios que recordam a passagem desses povos pela povoação malaia. Apesar da «modernização», Malaca permanece um local com intrigantes ruas chinesas, lojas de antiguidades, templos taoistas, igrejas, cemitérios e variadas reminiscências, em diversos domínios, do poderio colonial.
A sua principal área de interesse centra-se na parte velha da cidade, que tem como ponto de referência a chamada Dutch Square, caracterizada pelo imponente Stadhuis, símbolo do poder administrativo holandês, e a igreja de Cristo. Ambos os edifícios estão pintados de cor vermelho tijolo. Logo por detrás, avista-se a colina de São Paulo, que era totalmente circundada pelas muralhas da antiga fortaleza. Restam algumas das paredes da igreja, em ruínas, e lápides tumulares com inscrições, em português e latim.
Construída pelos portugueses, em 1521, a igreja de São Paulo foi regularmente visitada por Francisco Xavier. O corpo deste santo (falecido na China) foi para aqui transportado, sepultado e aqui permaneceu durante nove meses, antes de ser transferido para Goa, onde jaz presentemente. Uma escadaria conduz-nos das ruínas à Porta de Santiago, único sinal visível da outrora imponente fortaleza. Não muito longe, junto ao rio, o museu marítimo funciona numa magnífica réplica da nau de Afonso de Albuquerque, a Frol de la Mar.
Apesar do evidente domínio da cultura chinesa nas velhas ruas, é notória a presença de muitas outras comunidades. Se chineses e indianos têm em Malaca os seus mais antigos templos – respectivamente Cheng Hoon Teng (em memória do almirante Cheng Ho, o maior viajante chinês de sempre) e o templo hindu de Sri Pogyatha Vinoyagar Moorthi – os malaios orgulham-se da bela mesquita de Kampung Kling, num estilo importado da vizinha ilha de Samatra.
Ponto alto de qualquer visita à Chinatown são, sem dúvida, as casas típicas dos Peranakhan (chineses nascidos no Estreito de Malaca) e dos Baba-Nonyas (chineses miscigenados com portugueses) que funcionam actualmente como casas museu, antiquários ou pensões. Uma casa Baba-Nonya é, seguramente, o alojamento ideal em Malaca.
Outros dois pontos obrigatórios de visita são a igreja de São Pedro e o Medain Portugis – o Portuguese Settlement dos panfletos turísticos – situado a três quilómetros da cidade. Aqui residem, desde os anos trinta do século passado, os descendentes dos portugueses, os denominados malaqueiros, num total de mil e quatrocentas pessoas.
No Medan Portuguis podemos degustar, em esplanadas junto ao mar, os pratos típicos da cozinha malaio portuguesa, onde predomina o peixe e o marisco fortemente condimentado com curry seku (caril seco), diable curry chicken (caril de galinha ultra picante) e o balichão. Este é também um óptimo local assistir às actuações de dança e de música luso malaia – interpretada por grupos como o Rancho Folclórico de São Pedro ou os Tropa di Malaka – e contactar de perto com os luso-descendentes que terão imenso prazer em comunicar com o camerada portugi recorrendo ao papiá kristang, um crioulo resistente.
Porém, nem tudo é o que parece. Apesar de os malaqueiros continuarem a celebrar o Natal, o Entrudo, a Páscoa e, sobretudo, a Festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores, as desavenças são mais que muitas, não fossem eles, acima de tudo, bons portugueses… Uma estadia de alguns dias apenas é suficiente para nos apercebermos que as hostes se encontram bastantes divididas e que nem tudo é vino e branyo (dança local). A comunidade piscatória tem sido, ao longo dos anos, bastante crítica no que respeita ao desempenho do Painel do bairro – uma espécie de junta de freguesia composta por dez elementos cujo regedor é habitualmente nomeado pelas autoridades provinciais de Malaca. Entretanto, nos bastidores, aproveitando a conhecida desunião, gananciosos empresários do imobiliário continuam a ambicionar avidamente os doze hectares de terreno que os descendentes de Albuquerque ocupam – o denominado «chão di padre».
A recente nomeação da antiga fortaleza e igreja portuguesas de Malaca para Património Mundial pela Unesco, é a concretização de um anseio já com uma década. Como justificação para tal candidatura as autoridades locais indicavam a necessidade de «preservar o rico legado histórico de Malaca», alegando que tinham sido «pioneiras na introdução do conceito de protecção do património histórico-cultural» na Malásia.
Na época, o delegado da Unesco chamou a atenção para as especificidades da mais turística cidade do país, como cadinho das culturas baba nonya, malacca chitty, árabe, anglo malaia, indiana, portuguesa e holandesa, para além do património do próprio sultanato, vaticinando as boas hipóteses dessa candidatura dado que, «apesar de 180 dos 550 locais listados como património mundial se situarem na Ásia» nenhum deles se encontrava em território malaio.
A tão almejada atribuição não surpreendeu o investigador Rui Loureiro, especialista na história da presença portuguesa na China e sudeste asiático, que em Abril de 2007 foi convidado a deslocar-se a Malaca para dar consultadoria no processo de reconstrução da fortaleza da cidade, com um perímetro de aproximadamente um quilómetro. Um trabalho que, a ser concretizado, levará uns 10 anos.
«Fiquei muito bem impressionado com a equipa encarregue de cumprir essa missão. São todos eles malaios e estão muito bem preparados e conscientes do património que têm pela frente», diz-me Rui Loureiro. Confessa até que eles já conheciam a informação que lhes disponibilizou, fruto de apurada investigação dos manuscritos existentes em Portugal, realçando «os desenhos relativos ao forte». Desenhos de várias épocas e de diferentes autores.
Loureiro nota ainda que durante a sua estada presenciou intensos trabalhos arqueológicos no fosso em frente à muralha, tendo sido escavados dois dos 11 bastiões originais, actividade que chamou a atenção dos média malaios e da vizinha cidade estado de Singapura. Mas todo o material encontrado – moedas, cerâmica, armamento – é de origem holandesa. Nenhum objecto nos remete para o período português.
«O objectivo final», salienta o historiador, «é o de reconstruir todos os bastiões o mais fielmente possível, usando, para isso, materiais idênticos aos utilizados na época».
Contrariamente ao seu congénere Luís Filipe Thomaz, que em declarações à Lusa mostrou espanto pela distinção alegando que «a cidade de Malaca teve um papel histórico muito relevante no século XVI, mas não tem património arquitectónico porque foi tudo destruído», Loureiro considera que o critério de atribuição de tão honrosa distinção não pode ter apenas por base aspectos materiais e palpáveis. «Mais importante do que as pedras são as pessoas e as suas tradições». E nesse aspecto Malaca é um viveiro. Loureiro refere-se, como é óbvio, à comunidade de luso-descendentes, um dos factores identificadores da cidade.
publicado por JoaquimMDC às 13:40
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