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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
O Dragão Inebriado
“Senhores passageiros, a empresa de Jefoils dá-vos as boas vindas a bordo”. A voz no altifalante manifesta-se, em quatro línguas, segundos antes dos familiares odores de massa instantânea invadirem o ar refrigerado do jectoplanador – assim se chama o tipo de barcos, com motores da Boeing, que de 15 em 15 minutos ligam Hong Kong a Macau.
Lá fora faz vento e chove. Com intensidade. A parte do anúncio em português surpreende quem é novo nesta humidade subtropical, mas deixa reconfortado quem reconhece as águas acastanhadas que se navegam.
Há um velho ditado macaense que diz “quem bebe a água da fonte de Lilau, não mais deixará Macau”. Ou melhor, deixa mas regressa. Sempre. Como um bom pecador. “Venetian Macau” , recente coqueluche do universo do jogo, com o cunho de Las Vegas, publicita os seus serviços nos ecrãs de plasma da moderna embarcação, ironicamente, propriedade de Stanley Ho, o incontornável senhor Macau. Entre Ho e os «intrusos» norte-americanos – é sabido, mas não assumido – desenrola-se uma batalha surda.
Esqueçamos por uns parágrafos o jogo – já lá iremos – e concentremo-nos na genuína hospitalidade deste território de 543 mil habitantes e 28.6 quilómetros quadrados que há menos de uma década era administrado por um governo nomeado a partir de Lisboa.
Macau sabe receber. E fá-lo tão bem que desde logo vi que não havia forma de “escapar” ao programa cuidadosamente traçado pelos anfitriões da Direcção de Serviços de Turismo. Quando o leme está em boas mãos e a borrasca é das bravas, para quê inventar?
Esta é apenas a primeira página de um cardápio que se prolongará por cinco dias e cinco noites. Pouco. Muito pouco para conhecer Macau. Esta é uma cidade compacta. Que se respira, que se transpira, que transgride e convida à transgressão. Dos sentidos. De todos eles.
As tentações superam o número de templos e igrejas. E se igrejas são sete – como as colinas – templos são setenta. É um caso sério de numerologia associada à geomancia oriental. Só que aqui é 8 e não 7, o número da sorte, a menos que haja tempestade tropical, passando esse a ser sinal de alerta que obriga a fechar instituições públicas, estabelecimentos comerciais, escolas e as três pontes que ligam a península aos seus apêndices insulares, mas nunca os casinos. Que operam ininterruptamente. Não fossem eles o motor de todo o carrossel.
No exterior da pousada, se fizesse sol, estar-se-ia bem à sombra desta figueira-da-índia com quatro séculos de existência. Quase tantos como Macau. Foi a cem metros daqui que fundearam os juncos dos primeiros aventureiros portugueses, amancebados com javanesas, chinesas, malaias, nipónicas, corria o ano 1555. Pouco mais existia então, para além do templo de A Ma, consagrada à deusa do mar e dos pescadores, onde eram secas as mercadorias, premissa fundamental para nos estabelecermos nestas paragens por muitos e bons anos.
Secretamente, uma parte de mim exulta com o dilúvio. “Tinha saudades disto”. Há qualquer coisa de aditivo nesta humidade que se cola ao corpo como uma segunda pele.
Que não se assustem os adoradores do astro-rei. Macau tem dose soalheira, nos invernos e outonos, altura do Grande Prémio, onde se revelam futuros campeões de Fórmula 1.
E se o GP é o cartão-de-visita, o conjunto das Ruínas de São Paulo, onde funcionou a primeira universidade da Ásia, é muito mais que pano de fundo para foto de turista. Por mais «brinquedos» que Ho construa, mantém-se como ex-líbris de excelência. Não é por acaso que foi eleita como uma das 27 maravilhas de origem portuguesa. Nas gastas escadarias de granito é um atropelar de gente. Todos querem levar a mesma imagem para casa. Vir a Macau e não fotografar as ruínas é como ir à China e não ver a Grande Muralha.
Uns metros acima, na Fortaleza do Monte, os canhões apontam à malha urbana que foi crescendo de forma caótica, onde antes era praia e mar. Eis a China à distância de um canal. Atrás de nós é a China também, só que interrompida por uma linha desordenada de arranha-céus, bairro da Areia Preta, junto às Portas do Cerco, posto fronteiriço terrestre, provavelmente dos mais movimentados do planeta.
Para quem não esteja disposto a expor-se aos elementos e à constante mole humana, a história e os costumes da cidade são contados no Museu de Macau, um dos vários e excelentes pólos museológicos da cidade, camuflado pelas paredes da antiga sede do governo e posteriormente dos serviços de meteorologia.
Se Macau cresce agora na perpendicular, há décadas que o faz para os lados. A área de terreno reclamado ao mar é bastante significativa. Na Taipa, é quase tanta como a do chão original.
Julgo vê-lo, ao monsenhor Manuel Teixeira, o protótipo de missionário, incansável compilador das memórias lusas no Oriente, de batina e longas barbas brancas ao vento, a atravessar a velhinha ponte Nobre de Carvalho, como o fez ao longo de anos, todos os fins de tarde. Fantasma inspirador, a juntar a tantos outros, numa cidade que acredita ser protegida pelo divino. Que não se impressionem os supersticiosos, pois são fantasmas amigos, se bem que alguns andem esfomeados. Num dos seus rituais lunares, os chineses colocam à porta de casa alimentos para os apaziguar. Mas essas são outras crenças. Os fantasmas que nos dizem respeito, vivem de memórias, inscritas na toponímia, na rugosidade das pedras, nas palavras que nos legaram Camilo Pessanha, Venceslau de Morais, Bocage, Luís Vaz de Camões. Sim, também o vate esteve aqui – ou dizem que sim – e até tem direito a gruta, um dos mais belos espaços verdes da cidade, onde velhos jogam
xadrez e ensaiam extractos de ópera cantonense.
Percorramos a Macau que teimosamente resiste. Sigamos pelas vielas esconsas, para onde espreitam torres prestamistas, os bancos de outrora, e imaginemos a Rua da Felicidade das peipeis (as gueixas chinesas) e as casas de ópio – servem hoje de quartel-general a selectos restaurantes de sopas de barbatana de tubarão guardados por gurkhas nepaleses.
Aqui podemos perdermo-nos, por simples capricho, em pequenos pátios e lojas de ofícios mil, vendedores de comida rápida, de quinquilharias e antiguidades – os ditos tintins – e das ervanárias que nos apresentam poções miraculosas de corno de iaque, pata de urso ou pénis de cão, entre centenas de outras mezinhas.
Já em plena baixa, na rua das Mariazinhas, calcetada à portuguesa, um grupo recreativo efectua a tradicional Dança do Dragão – acto obrigatório em qualquer inauguração que se preze. Acompanhemo-lo e acabaremos por desembocar em pleno centro histórico, na praça do Leal Senado, montra do poder de antanho, local de encontros, pulsar de uma cidade rejuvenescida.
Macau tem dimensão humana. Faz-se a pé em poucas horas, uma das suas muitas vantagens. Mas também a podemos percorrer de riquexó, esse colorido triciclo asiático. Imaginem sair do templo de A Ma, circundar a baía da Praia Grande – parcialmente aterrada em nome do desenvolvimento – desfrutando os ocres do palacete de Santa Sancha e do antigo palácio do governo, vestígios coloniais, a estátua do navegador Jorge Álvares, finalizando o passeio à entrada do Clube Militar, edifício neoclássico onde se pode degustar um bom cozido e presenciar uma rara concentração da comunidade portuguesa, inevitavelmente diluída na cidade, mas mais activa do que nunca.
Haverá outro lugar assim? Assim que se escreve assi no doce papiaçam di Macau, dialecto dos filhos da terra, os macaenses, frutos de uma miscigenação secular, que ambiciona ser património intangível da humanidade. Que o tangível já cá canta. Desde 2005 que a Unesco tem inscrito na sua criteriosa lista o centro histórico de Macau.
Em Macau, cadinho de tolerância, vive-se um sincretismo religioso que mistura taoísmo com budismo e resquícios de paganismo. Aqui sobreviveram templos numa época em que na China eram extintos; aqui há convivências que se julgavam impossíveis.
Existe uma diferença abissal entre Las Vegas e a Las Vegas do Oriente, como já chamam a Macau. Este território tem um passado de quase quinhentos anos e não é o deserto que surge depois da Strip, antes um refúgio chamado Coloane, o pulmão verde da polis. De antigo covil de piratas passou a apetecível quinhão residencial.
Desculpem-me o bairrismo, mas dificilmente se encontra uma cidade com tanto em tão pouco espaço. Macau é em si uma miniatura de toda a Ásia e muita Europa, agora também com salpicos americanos, e até africanos. E não estou a falar dos parques temáticos, que nesse domínio, a escolha será doravante cada vez maior.
Querem mais? Terão de vir cá. Para ver até que ponto se “embriagou” este pequeno dragão asiático. Pese a variação dos seus humores, deixa sempre saudades.
publicado por JoaquimMDC às 13:41
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1 comentário:
De Ângelo Cardoso a 11 de Junho de 2009 às 21:27
Parabéns por este magnifico trabalho. Demonstraste nestes texto a tua verdadeira vocação para seres escritor. Espero mesmo continuar a lar vários textos teus, aqui ou em qualquer outro órgão informativo.

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