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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009
A velha questão do património

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Há dez anos, e a propósito da transferência de soberania do território de Macau para a China, escrevia um conceituado cronista da nossa praça que «haverá sempre Portugal onde, apesar das ausências de soberania houver mulheres e homens que se lembrem dele». E depois, dava exemplos de locais onde se manifesta a dita presença portuguesa: «aqui em Macau, junto às Portas do Cerco, na rua do Saco em Bombaim, numa praça de Kuala Lumpur, ou em Mombaça».

 

Tenho para mim que o dito cronista nunca visitou esses lugares na qualidade de cidadão anónimo, auscultando o sentir das pessoas que aí vivem. Se o tivesse feito, se tivesse deambulado pelas ruelas da Macau antiga, se tivesse dormido numa pensão barata da rua do Saco em Bombaim, se tivesse comido uma sobremesa malaia numa das praças de Kuala Lumpur ou rondado os mercados de Mombaça, saberia muito bem que essa lembrança de Portugal é apenas isso: uma vaga lembrança. Às vezes uma lembrança de apelidos portugueses, outras nem disso. E ainda por cima é uma lembrança coberta de poeira e envolta em densa névoa.

 

O estado degradado de muito do património de origem portuguesa disseminado por esse mundo fora e a usurpação descarada e impune do legado histórico que deixamos no Japão – mais concretamente, em Nagasáqui – por parte dos nossos parceiros europeus da Holanda (um exemplo entre muitos), comprovam o nosso alheamento em relação a uma riqueza que nenhum outro país conseguiu em tão pouco tempo.

 

Desgraçado do povo que se contenta com meras lembranças. Sabe-se que a implacável roda do tempo tende a apagá-las. Em definitivo. Para que tal não aconteça urge fazer visitas regulares a esses locais, onde deixamos vestígios, para que não caiam no esquecimento. No fundo, deveríamos actuar como se estivéssemos perante um ente querido ou um amigo que não vemos há muito tempo. Isto, enquanto desígnios mais altos não se decidem a investir a sério no muito trabalho de pesquisa científica que continua por fazer.

 

Este dissertar introdutório conduz-nos ao que me traz pela primeira vez ao universo da blogosfera: uma viagem de reconhecimento a algum do Património de Origem Portuguesa espalhado pelo mundo e tudo a que ele anda associado. E como o património está ligado à memória e esta ao conhecimento que se tem ou não de um determinado povo, considero relevantes as considerações que atrás deixei.

 

É claro que quando o meu amigo e colega de profissão João Macdonald me deu a oportunidade de vir a participar no projecto/eleição 7 Maravilhas de Origem Portuguesa, agarrei-me a ele com dedos e unhas, pois este é, afinal, o campo onde me tenho movido nos últimos anos e onde melhor me sinto. Profissionalmente exerço aquilo que se pode designar como jornalismo de investigação histórica, o que vai de encontro à minha formação. Procuro divulgar junto do grande público algum do conhecimento que por norma se restringe aos círculos académicos. Para isso, é obrigatório viajar nos locais onde sobrevive esse conhecimento, de forma a conseguir uma observação directa que complemente o que se aprendeu nas bibliotecas e salas de aula.

 

Mesmo antes de partir para o terreno, munido com apropriado equipamento fotográfico, computador e um bom par de livros – entre os quais incluo a «História da Expansão Portuguesa», de Jaime Cortesão, porventura a melhor síntese da epopeia dos Descobrimentos – estava consciente da dificuldade em separar o trigo do joio num campo fértil como o que está em jogo, melhor dizendo, a concurso.

A realidade no terreno é sempre muito mais vasta do que a imaginada, e surpreende constantemente o mais bem preparado dos investigadores com espírito viandante.

 

Não sou dado a numerologia ou a outras quaisquer formas de esoterismo, mas não posso negar que existe algo de único no número 7. Eram 7, as maravilhas do mundo antigo; 7 são os dias da semana e as colinas de Roma, Lisboa e Macau, só para citar algumas das cidades que têm muito mais em comum do que à primeira vista aparentam. Também nesta aventura de 80 dias, o número 7 será o mote inspirador, pois esse é o número dos finalistas do concurso que terá o seu término a 10 de Junho com a eleição de um deles. Serão 27 os locais a visitar mas poderiam ser outros tantos, ou múltiplos de esses, já que é vastíssimo o Património que deixamos pelo mundo fora.

 

Para mim, visitar alguns dos mais carismáticos lugares por onde passaram os portugueses de antanho com o objectivo de os documentar e sentir-lhes o pulsar, é um encontro também com o meu próprio passado. Por ali andei noutras deambulações, noutra idade e com outros objectivos. É o caso de Goa, onde estive numa altura em que minha única preocupação era viajar pelo simples prazer de viajar, algo que sou agora incapaz. Como dizia o outro, «há um tempo para tudo». É assim que raciocino nos dias de hoje: «Como pude ter lá estado sem ter tido o cuidado de pensar que esse foi um dos entrepostos mais importantes do empório português no Oriente?».

 

O leque é, portanto, largo e o critério de selecção discutível, mas isso são meandros de um rio que não nos levaria a qualquer foz, por isso nada melhor do que me concentrar nas nascentes, mergulhando nelas de cabeça – a água é fresca –, sem receio. É o que vou fazer expondo diariamente neste blogue os acontecimentos que vou viver ao longo da viagem, procurando com isso ajudar a divulgar o trabalho que a equipa das 7 Maravilhas está a levar a cabo.

 

Por obrigatoriedade de gestão de tempo, esta será uma viagem com os dias contados, um a um, mas com diferentes e inesperadas guinadas geográficas que me podem levar de um continente a outro, pois a dificuldade em obter vistos para alguns locais a isso me vai condicionar, já para não falar das minhas obrigações profissionais, pois a vida pessoal só no mundo da ficção é que pára. Tão pouco haverá uma preocupação de seguir um rumo cronológico, até porque a determinada altura os Descobrimentos e a consequente criação de Património – edificação de igrejas, de fortalezas, de centros históricos – passaram a acontecer em simultâneo. E os pontos de contacto, as ditas pontes, foram-se estabelecendo.

 

Figuras históricas que se destacaram a Oriente, viriam a definhar nas Américas, enquanto outros que aqui tinham tido existências cinzentas, ficariam para sempre nos anais asiáticos ou fundariam as primeiras povoações no continente africano, que já então era explorado no seu âmago, embora os britânicos, hábeis usurpadores de factos históricos alheios, continuem ainda hoje a serem considerados os verdadeiros reveladores dos seus mistérios.

 

Plantas que eram de uma latitude viajaram para a outra latitude e a ela se adaptaram. As sementes que deram origem às romãzeiras e à latada de vinha que ainda hoje se podem ver em Diamantina, no quintal da casa de Chica da Silva, a brava e caprichosa negra que ousou desafiar a elite branca da época colonial, vieram no fundo dos mesmos porões que trouxeram os escravos acorrentados e levaram o ouro e as especiarias.

 

A bela e o monstro partilham, em permanência, as linhas com que se preencheram e preenchem as páginas da História da Humanidade.

publicado por JoaquimMDC às 02:25
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