.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sábado, 4 de Abril de 2009
Passagem pelo Rio Grande do Sul


Este primeiro capítulo terá de ser, forçosamente, de revisita à matéria dada.

 

Fui até ao Brasil, digamos que, aproveitando a boleia de um dos mais importantes eventos do ramo turístico no Brasil, integrado num grupo de jornalistas e agentes de viagem de Portugal, Espanha, Itália e de vários países da América do Sul. No Festival de Turismo da cidade do Gramado estive em representação da UP, revista de bordo da TAP, parceira neste projecto, com um voto de confiança do editor João Macdonald e da directora Paula Ribeiro, a brasileira mais portuguesa que conheço. No país irmão contei com o apoio da Vera Sanches, amiga da Paula e veterana da agência Embratur, nomeada embaixadora para as 7 Maravilhas no Brasil, também ela profunda conhecedora da realidade portuguesa, pois viveu entre nós vários anos. «A Vera é pessoa certo no lugar certo», premeditou a Paula Ribeiro. Foi a Vera que nesta primeira etapa estabeleceu as pontes necessárias para que a viagem decorresse sem grandes sobressaltos.

 

Mas antes do Brasil, onde se situam 7 dos locais a concurso (a numerologia não me larga), e aproveitando o facto de estar no sul, a «cidade portuguesa» de Colónia de Sacramento, o único sítio com a distinção da Unesco no Uruguai, era a natural opção a seguir.

 

                                                                  

 

Rio Grande 1.JPG

 

Rio Grande 2.JPG

 

Eis-me, pois, no terminal rodoviário de Porto Alegre, cidade fundada por 60 famílias de colonos açorianos, que estabeleço como ponto de partida, se bem que a estrada tivesse começado umas boas semanas antes, nesta mesma cidade, trampolim para uma agradável estada na verdejante região do Gramado que teve como suplemento (bela surpresa, cortesia da fundação Misiones Iguassu) uma visita à serra gaúcha e ao território das missões jesuítas dos índios guaranis, nos limites da linha traçada pelo Tratado das Tordesilhas, cuja disputa de séculos, que culminaria na devastadora guerra do Paraguai, estaria na génese da definição das actuais fronteiras de quatro estados sul-americanos.

 

paisagem Rio Grande.JPG

 

A viagem de regresso de autocarro até Porto Alegre, por terras situadas entre o rio Ijui e o rio Ijuizinho, com uma paragem em Soledad, é uma sucessão de vales verdejante e ondulados que dão lugar a vales mais profundos, como que cavados na paisagem.

 

 

Paisagem Rio Grande 2.JPG

 

 

Esquina do Nunes e Reduto do Nunes são algumas das muitas designações deveras peculiares com que os incógnitos personagens da história local baptizaram estas paragens na época dos bandeirantes. Ainda hoje, na região de Ijui há muita gente que reivindica as suas raízes lusitanas.

 

– Como é o nome de sua graça? –. Desta maneira, tão cortês, fala-me a senhora que vai sentada à minha frente convidando-me assim a entrar na conversa que entretanto se estabelecera entre ela e as duas pessoas do banco ao lado, um homem e uma mulher.

O homem chama-se Hélio e é advogado. Sem que se possa dizer que se esteja a queixar, garante que não voltará a sair à noite em Porto Alegre, pois «a última vez que o fiz, roubaram-me o carro». Aproveita, por isso, para me alertar para a perigosidade dos arredores da rodoviária, onde o negócio do craque faz imensos estragos. Ali, como diz a gíria brasileira, «o bicho pega». Que eu saiba, o craque em Portugal ainda perde para a cocaína, a heroína ou as pastilhas; já o carjacking, esse sim, que o conhecemos de ginjeira. Tornou-se moda.

A mulher chama-se Lúcia Santos e é poetisa. Vem fresquinha de um encontro de poetas que teve lugar nos arredores de Santo Ângelo. A certa altura da nossa conversa, e a propósito de não sei o quê, acaba por revelar que é irmã do músico maranhense Zeca Baleiro, que curiosamente eu tinha visto em concerto, no Terreiro do Paço, em Lisboa, há uns meses apenas. – Vocês conhecem bem o Zeca em Portugal? – pergunta Lúcia. Claro que sim. O Baleiro e os outros. Conhecemos todos os vossos Zecas, tenham eles o apelido Veloso, Calcanhoto, Nascimento ou Buarque. Vocês no Brasil é que não conhecem os nossos. Nem sequer o Zeca do Era um Vocábulo Redondo que, mais do que qualquer outro, merecia, deveria ser conhecido.

Estou certo que a obra do José Afonso, devidamente divulgada, teria grande sucesso no Brasil, como tem sucesso o que escreve Saramago, que em termos proporcionais conta com mais admiradores em terras de Vera Cruz do que em Portugal.

 

Hélio é um opositor do presidente Lula, e nem a quase certeza absoluta que, se a lei brasileira o permitisse (e Lula assim o quisesse), uma terceira candidatura seria uma aposta ganha, o demove da sua posição.

Sarcástico, estabelece uma analogia entre o governo de Lula e uma conhecida lenda.

– Os ministérios no tempo do presidente Figueiredo eram só doze, o número dos signos no horóscopo, seja oriental ou ocidental, dos meses do ano e dos apóstolos. Enfim, doze. Outro dos números místicos, como o 7 do vosso projecto – comenta ele, acrescentando logo a seguir: – Na era Lula os ministérios subiram para 39, um número incaracterístico, sem magia. Mais um e serão tantos quantos os comparsas do Ali Babá.

 

Lúcia, guerreira zen, fazedora de haikus, «minha mão adaga quando a tua não afaga», prefere nem pronunciar-se, sendo claro que não concorda com o radicalismo do companheiro de viagem.

 

Críticas aparte, o certo é que o antigo dirigente do PT, pernambucano de origem humilde, continua com mais de 70 por cento de popularidade, o que faz dele talvez o mais querido presidente do Brasil de todos os tempos. Porventura mais popular até que Juscelino Kubitchek de Oliveira, JK para os amigos, coqueluche dos mineiros de Diamantina, terra onde nasceu este descendente de eslavos e portugueses que – como por cá se diz – «em cinco anos fez o Brasil avançar 50», datando do seu consulado a criação da cidade de Brasília. Dizem as vozes mais críticas, porém, que ele ao mesmo tempo que fez avançar o país, endividou-o profundamente. E a factura ainda hoje se paga.

 

Noutro registo, Hélio, que na cidade de Santo Ângelo esteve a defender uma das partes de uma corriqueira rixa entre políticos de cores partidárias diferentes, critica o facto dos paraguaios, argentinos e uruguaios, cidadãos de estados do Mercosul, poderem vir ao Brasil receber gratuitamente tratamentos contra a SIDA. «Primeiro é preciso assegurar o bem-estar do brasileiro», justifica-se ele.

Olhando em meu redor vejo gente com malas que fisionomicamente tanto podem ser brasileiros como argentinos, chilenos, uruguaios ou paraguaios. Que pensarão eles da opinião de Hélio?

 

E assim, na agradável companhia deste advogado e de Ana Lúcia, bebendo chopes de cerveja bem geladinha, passam as duas horas de espera. O autocarro para Montevideu, com WC incorporado e poltronas reclináveis, tem partida marcada para as 9 horas da noite.

publicado por JoaquimMDC às 15:53
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds