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Sábado, 4 de Abril de 2009
De Porto Alegre a Colónia de Sacramento
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É como se estivesse dentro de uma cápsula e depois num túnel. Percorro-o num autocarro conduzido por um motorista com claras ambições automobilísticas. Quando dou por mim, são três da manhã e a passagem de fronteiras, essa parte chata das viagens, já era.

O passaporte que me fora requisitado no acto da compra do bilhete na rodoviária de Porto Alegre (o que me provocou alguma desconfiança – regra essencial do viajante: nunca perder de vista o principal documento de viagem) é-me entregue pelo motorista, cortesia da TTL (uma das transportadoras que asseguram o movimento transfronteiriço entre o sul do Brasil e o Uruguai) para com os seus passageiros, que assim podem dormir ao longo de todo o processo burocrático.
«Há 50 anos que o fazemos deste modo e nunca ninguém se queixou», foram estas as palavras do funcionário por detrás da bilheteira no momento da compra. Palavras suficientemente poderosas para desmoronar o meu receio inicial.

Cumpridas as formalidades, o veículo de carroçaria Busscar mergulha de novo na escuridão, e a sensação volta a ser a de estar a ser conduzido a uns 500 à hora. Isto mais parece uma viagem de avião! Quando regresso do sono que a confortável poltrona me proporciona durante algumas boas horas, vejo desfilar lá fora eucaliptos e algumas habitações de ar pouco cuidado, intercaladas, aqui e ali, por outdoors com marcas de multinacionais e uma Deutsche Schule a assinalar uma forte colonização alemã em todo este sector sul-americano. Fora isso, a paisagem faz-me lembrar, não sei porque razão, a antiga estrada A 1 Porto Lisboa, ali por altura da Mealhada, onde era obrigatório afiambrar no leitão local.

O terminal rodoviário de Montevideu chama-se Tres Cruces, embora por perto só se aviste uma cruz, de enormes proporções, e por detrás uma estátua de João Paulo II, que dá também o nome a um sanatório nas imediações. Sinais religiosos que podem induzir o mais incauto em precipitadas conclusões, já que o Uruguai é um país declaradamente laico.

Na rotunda em frente ao terminal rodoviário esvoaça no cimo de um mastro uma enorme bandeira nacional, muito ao jeito mexicano. Não deve haver maior estandarte no mundo do que aquele que vemos na vasta praça em frente à catedral de Nossa Senhora de Guadalupe, na cidade do México.

Logo ao virar da esquina e antes de entrarmos na rodoviária, agora num registo bem pagão, o clube nocturno Triple Sex promete sexo explícito a quem não se importa de pagar apenas para ver. «Hay gente para todo!», diria o amigo Hector Sayago, crítico de gastronomia e vinhos e o mais divertido companheiro da visita ao Gramado e às missões jesuíticas.

Por falar em dinheiro – altura de câmbios. Um euro dá 28 pesos uruguaios, o que é coisa pouca. Ao adquirir o bilhete para Colónia de Sacramento – a 175 quilómetros de distância – logo me dou conta que o custo de vida no Uruguai se assemelha ao de Portugal, embora os salários sejam significativamente mais baixos. Aliás, os sinais da crise em que o país vive há já algumas décadas, saltam à vista. Basta ver o mau estado do seu parque automóvel. Também os edifícios se encontram bastante degradados.

Estou na estrada há quase 20 horas. Foram 7 horas de Santo Ângelo a Porto Alegre e depois 12 horas de rajada até Montevideu. Agora são só mais 2 horas e 40 minutos até Colónia, meu destino final, num autobus da COT, daqueles que ainda têm revisor, à maneira antiga.

Chamam-me a atenção os cartazes políticos expostos no horizonte, a tapar nesgas do céu, e que se impõem a toda força, mesmo ao olhar de quem não os quer ver. «Afirmar por Tabaré» e «Amorin a Presidente», pelos vistos, assinalam uma campanha eleitoral que no Uruguai se faz em permanência. Tabaré é o actual presidente e concorre para um segundo termo. Presumo que Amorin seja o seu principal opositor. Já o PS local socorre-se da memória do mediático nome de Salvador Allende para anunciar o seu congresso, o quadragésimo sexto. Um pouco adiante, num viaduto bem grafitado, alguém decidiu escrever uma resposta com peso e medida, proporcional ao pedido de confiança dos políticos: «Si nadie trabaja por vos, que nadie decida por vos». Como princípio, parece-me acertado.

É aqui que o estuário da Prata me surge pela primeira vez, envolto num panorama nada romântico e junto a uns pelados de treino improvisados que em nada dignificam a lembrança do campeonato do mundo de futebol que o Uruguai já organizou, o que não é coisa pouca.

Depois da minúcia organizativa – diria, teutónica – presente na quase totalidade do estado do Rio Grande do Sul, nomeadamente na rede viária, que é bastante boa, estranho a ausência de traços contínuos na carretera uruguaia. A planura da paisagem mantém-se, e em breve cruzamos a ponte de um dos afluentes do Prata, que certamente terá sido devassado pelas naves do intrépido Magalhães na sua teimosa busca da passagem para o Pacífico.

Um anúncio a um pesticida que assegura ser o «líquido miracoloso para todas las gramíneas» e uma unidade da Cargill, uma das maiores multinacionais do sector alimentar, são os primeiros sinais da ruralidade que caracteriza o Uruguai. Surgem logo depois a «Fazenda La Boyada», a «Usina de Faena de Cerdos Número 2» (algo que me remete para o universo do Animal Farm orweliano) e os camiões da Parmalat, da Danone e da Nestlé. Elas estão cá todas, como não podia deixar de ser. Surpresa mesmo é o cartaz que publicita os «Olivos de Uruguay», que é a azeitona que se come no Brasil. O Uruguai cultiva esse fruto mas não consta que produza azeite. Este, o Brasil compra-o a granel em Portugal, Espanha e Itália para ser misturado com 8 partes de óleo de soja e depois envasilhado nas latinhas de metal que às vezes vemos à mesa dos restaurantes.

Sucedem-se campos amarelos de trigo e soja. Vastas extensões de terreno que são mais amarelas ainda quando se trata de plantações de girassol. Completam o quadro fardos de palha amontoados e vacas a pastar junto a outdoors que publicitam operadoras de telemóveis – «nuestra forma de hablar» – e uma agência de seguros – «para que quando pase algo, no pase nada» – interrompidos de dez em dez quilómetros pela presença de postos de abastecimento da Ancap, a Galp cá do sítio.

Mais adiante, uma chamada de atenção do governo em letras garrafais, «uruguaios trabajando juntos para una tierra fértil», logo seguido de uma outra, «un inpulso hasta el país que queremos», e muita maquinaria agrícola – tractores da verdinha Jonh Deere, ao tempo que não os via! –, como que a reforçar os apelos. O sul do Uruguai está transformado num gigantesco celeiro e a paisagem daqui é em tudo semelhante à da região de Santo Ângelo.

São poucas as localidades no caminho e quando surgem não se avista vivalma. É como se estivéssemos à atravessar uma zona aparentemente fantasma, algures na Polónia ou na Bielorrússia.

Continuam a passar por nós raridades automobilísticas, coloridos Fords e Chevrolets em estado terminal, verdadeiras preciosidades da estrada. O espírito empreendedor daquela notória família de Gramado que ao longo de gerações foi adquirindo, ou melhor dizendo, recolhendo gratuitamente as viaturas abandonadas nas quintas numa altura em que ninguém lhes dava valor (anos 60, 70 e 80 do século passado) e que mais tarde montou um museu com essas peças, que hoje valem alguns milhões de euros, bem poderia ter aqui germinado numa correspondente família uruguaia.

Também no Paraguai abundam antiguidades destas, e em maior quantidade. Só que ali elas explodem em cores garridas – violetas, amarelos, laranjas (não é só as viaturas, também as casas são extremamente coloridas).

Será que haverá algo mais deprimente do que um eucaliptal de extensão considerável como o que existe a poucas dezenas de quilómetros da capital uruguaia? Porque razão se planta essa árvore parasita em solos secos? Para os secar ainda mais?

Diz-se que já não chove há mais de 6 meses no Uruguai, facto que não é raro nesta latitude.

Nova Helvecia ou Colonia Suiza (ambos os nomes designam o mesmo local), já bastante perto de Colónia, é nome de povoação e óbvio sinal da presença de comunidades de origem suíça, e não só. Para esta região imigraram também alemães, espanhóis, italianos, franceses e austríacos. Resultado de uma importante actividade pecuária, saem daqui os excelentes queijos de Colónia, uma das referências gastronómicas do país. Estes queijos assemelham-se ao grueyére e ao emental. E só falo deles porque nunca consigo resistir a um bom queijo.

Nova estrada em construção – regressam as portagens. Aqui, como no Paraguai, qualquer troço viário com macadame, por mais pequeno que seja, obriga a um pagamento pela sua utilização.
E é só depois de mais uma dessas portagens que somos recebidos por um painel onde está escrito: «Bienvenidos a Colonia! Outra ciudad con vida!». É o que vamos ver.
publicado por JoaquimMDC às 16:17
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1 comentário:
De fabio a 19 de Novembro de 2011 às 11:13
como tens uma visao negativa das coisas... me parece que buscas ver somente aquilo que podes criticar... deixe- se levar de olhos fechados de vez em quando... uruguai eh um pais de povo receptivo e tem muitos sabores a desfrutar...

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