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Sábado, 4 de Abril de 2009
Recepção na Intendência

Antes do almoço deve Claudia Gandini conduzir-me à Intendência onde está agendada uma recepção oficial à qual não será anfitrião o presidente Walter Zimmel, pois encontra-se ausente, algures na província.

 

– O señor Walter é cirurgião de profissão e há alturas em que viaja pelo país para efectuar diversas operações previamente agendadas – explica Cláudia.

 

Substitui-o na tarefa, sentado na bonita sala de móveis de mogno dos paços do concelho, o seu vice, Pablo Manitto Rossoti, um homem bastante mais novo que me presenteia com um livro sobre a cidade, «de interesse histórico departamental», e uma garrafa de grappa produzida no país. Provavelmente, nos próprios domínios vinícolas da região, um dos 19 existentes no Uruguai, no leste da região de Colónia, onde a produção agrícola é maior.

Ao lado de Rossoti estão Andrea Schunk, directora de turismo, e o arquitecto Walter Debenedetti, director do planeamento e ordenamento territorial.

 

Quando me entregam os respectivos cartões-de-visita, apercebo-me de um ponto comum que têm uruguaios e portugueses. Ambos valorizam imenso os títulos académicos que possuem e não perdem uma oportunidade de exibi-los. O cartão da Andrea, por exemplo, não só indica o seu cargo como inclui um Lic., de licenciada, em frente ao seu nome. É assim com todos os cargos: Arq. para arquitecto, Dr. para doutor, Prof. para professor.

Diria mesmo que, neste domínio, os uruguaios nos batem aos pontos, o que é um verdadeiro feito.

 

Sabia de antemão que a notícia da eleição das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa tinha tido bastante impacto na cidade e o evento assumira contornos oficiais, graças ao entusiasmo e envolvimento pessoal, desde o início, de Luísa Bastos de Almeida, a nossa embaixadora em Montevideu, com quem eu tinha vindo a manter contacto via e-mail, e que estabelecera a ponte com Cláudia Gandini. Talvez isso possa explicar o «privilégio» de estar alojado no mesmo quarto em que ficou Cavaco Silva em 2005, aquando a sua participação na cimeira ibero americana, em Montevideu.

 

Contudo, nestas coisas os equívocos costumam sobrepor-se aos esclarecimentos. Eis o que, a propósito, veio escrito numa pequena notícia de um jornal regional, o La Republica: «Um técnico especialmente enviado pelo governo português esteve ontem em Colónia de Sacramento para compilar informação e sobretudo material fotográfico, que vai ser avaliado por um tribunal lusitano que decidirá se o bairro histórico de Colónia pode fazer ou não parte das 7 Maravilhas portuguesas no mundo.»

Mais adiante, o jornalista Luís Carro questiona: «logrará esta vilazinha de pedra, com as suas casas de telha, salvar-se da exaustiva avaliação dos entendidos, face à rivalidade de outros de similar valor?», terminando a sua peça com uma citação do secretário-geral Pablo Manitto Rossoti: «Para nós já é algo de muito importante sermos incluídos entre os 27 participantes neste mundo tão vasto, mas é claro, que não nos contentamos só com isso».

 

Como não sou técnico do governo português nem avaliador de coisa alguma, cumpre-me o papel de observador de passagem. É isso o que vim fazer e assim continuarei.

 

 

Antes do almoço tenho alguns minutos para registar um interessante depoimento de Walter Debenedetti.

  

– A principal característica de Colónia – diz ele – é o seu traçado urbano, que gosto de definir com um estilo inventado por portugueses que claramente não eram urbanistas, mas sim navegantes e soldados. Todas as ruas e praças foram de tal forma idealizadas que acabam por funcionar como cata-ventos, permitindo ao mesmo tempo uma boa defesa do local.

 

Existiam claramente duas preocupações: proteger o local das intempéries e do inimigo. É isso que dá um encanto especial a Colónia e faz dela um caso atípico em toda a região. Não existe propriamente comunidade luso descendente em Colónia, antes uma «sensação de pertença a Portugal» da parte dos seus habitantes que é muito forte.

 

A maioria dos portugueses abandonou a cidade após a definitiva ocupação espanhola, e a imigração portuguesa posterior data do início do século XX e radicar-se-ia sobretudo em Montevideu.

 

– Todos nos sentimos de origem portuguesa, apesar de falarmos castelhano – assegura o arquitecto, que entende isso como «uma marca indelével que se impregnou na cidade». – Quando vou a Portugal – continua – é como se estivesse em casa. Chego à conclusão que temos os mesmos costumes, tradições similares, a mesma forma de apreciar a comida, de nos relacionarmos uns com os outros, de nos reunirmos com os nossos amigos. Enfim, somos muito parecidos.

 

(ver http://www.youtube.com/watch?v=wiF8RHMWscc&feature=email)

 

Fomos comer ao restaurante Casa Grande, que fica paredes meias com um outro edifício histórico de matriz portuguesa, conhecido como a Casa dos Palácios, onde funciona o Arquivo Regional. Aqui se guarda importante documentação da cidade e da região de Colónia obtida essencialmente nos arquivos em Portugal e Espanha, mas também veio documentação da Inglaterra, França, Brasil, Argentina e Uruguai.

 

O edifício foi recuperado graças aos esforços e engenho de Miguel Angel Odriozola, «ideólogo do conservacionismo», referência maior da arquitectura no Uruguai.

Em 1935, quando tinha apenas quinze anos, Odriozola, filho de Colónia, fez uma maqueta da cidade. E que maqueta! Espanta o detalhe, o rigor, coisas nada comuns num adolescente.

Odriozola dedicaria a sua vida a cuidar do património, reconstruindo o que podia e devia ser reconstruído. Recuperou várias das casas históricas, agora transformadas em museus ou unidades hoteleiras, como é o caso de um outro badalado hotel de charme, a Posada Del Gobernador.

 

Escreveu um dia esse arquitecto que «os materiais de construção contam-nos a sua própria história», o que é o mesmo que dizer que a intervenção deve ser mínima. Infelizmente não é a tendência geral entre os representantes dessa classe... Quantos e quantos arquitectos egocêntricos consideram fundamental deixar nas obras onde intervêm o seu cunho pessoal, o que provoca descaracterização e até a ruína de uma vasta quantidade de bonitos edifícios por esse mundo fora.

publicado por JoaquimMDC às 16:33
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