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Sábado, 4 de Abril de 2009
A Rua dos Suspiros

Finda a refeição (um prato de peixe, coisa rara em território gaúcho) Cláudia e Walter deixam-me entregue aos cuidados de Liliana Chevalier Uxica, uma das guias turísticas mais credenciadas da Intendência. Na sua companhia faço uma breve visita ao centro histórico, sob um céu de chumbo e um calor opressivo.

 

Com o discurso engatilhado, resultado de centenas de apresentações, Liliana, que é também docente, disserta sobre variados assuntos enquanto percorremos os mais importantes locais, que não são muitos, e, sinceramente, dispensam orientação.

 

Confesso que estive mais preocupado em tirar fotos, embora o cinzentismo da adversa condição atmosférica contribuísse para que não conseguisse atingir o objectivo pretendido. Sou algo avesso a percursos guiados e quando os faço presto pouca atenção ao que me dizem, estando muito mais atento ao que vejo à minha volta ou ao que esteja disponível para leitura. E digo isto, com o maior respeito que me merecem os guias profissionais, quantas das vezes imprescindíveis para a cabal compreensão de um determinado local. É o que acontece neste périplo, contrariando, e ainda bem, as minhas reticências.

 

Fomos do bastião da Bandeira ao bastião de San Pedro seguindo o passeio de San Miguel, em cujas lajes repousam pedregulhos avulsos que outrora fizeram parte da muralha, com as ruínas do convento de São Francisco e o farol – cilindro de cimento que desponta por entre um amontoado de pedras – a espreitarem-nos. Continuamos depois, quase em linha recta, até ao bastião de Santa Rita, para voltar a entrar de novo na malha urbana, ali perto do Museu Indígena (guardado pela estátua do libertador José Marti), aproveitando o «atalho» da Calle de Portugal, onde está um calhambeque com potes de flores junto a um restaurante onde à noite se pode ouvir um trio musical de jazz de fusão.

 

 

Entrámos a igreja matriz do Santíssimo Sacramento utilizando a porta principal que nos permite ver um troço da parede original daquele que é o mais antigo templo católico do país, fugindo desse modo, e por breves instantes, ao calor e à humidade, qual deles o mais opressivo.

 

Á saída, deparámos com as fundações expostas a céu aberto da casa do governador nos tempos áureos de Colónia.

 

Do que diz Liliana retenho, sobretudo, as versões, mais ou menos lendárias, que estão associadas à Calle dos Suspiros, a mais conhecida e fotografada ruela do centro histórico.

 

Esta primeira estrutura viária paralela à muralha, conserva intactas as suas características de típico arruamento português, marcado pelo empedrado em cunha com um canal central por onde corriam as águas da chuva, e outros líquidos, certamente.

– A cava permitia que a água da chuva e os vários dejectos fossem arrastados para o rio, evitando assim as epidemias tão frequentes na época – explica Liliana.

De um lado e do outro da Calle dos Suspiros avista-se casario típico português, assente directamente na rocha, adaptando-se, por assim dizer, à morfologia do terreno. Uma construção extremamente funcional que casa bem com a realidade geográfica local.

 

 

Os utensílios que se quebravam no dia-a-dia – louça, telha, vasilhame em vidro – eram misturados com barro e cal, abundante na região, para fazer a argamassa que rebocava a casa.

– A cal era o cimento da época – lembra Liliana, entrando depois nos detalhes da construção. – O trabalho de quem assentou as pedras das casas, com a ajuda do barro, é exemplar, pois não permitia que a água desgastasse a habitação.

 

Em certos pontos as paredes chegam a ter dois metros de espessura, embora os tabiques do interior sejam de apenas vinte centímetros, e, como não atingem o tecto, consegue-se tirar o máximo de proveito da luz natural, «pormenor fundamental numa época em que se vivia ao ritmo do nascer e do por do sol», como recorda a guia.

 

Muita da madeira utilizada na construção provinha do sul do Brasil. Sabe-se disso porque foram recentemente encontrados pedaços calcinados de toros e traves que apontam nesse sentido.

 

Especula-se bastante sobre a Calle dos Suspiros. Segundo uns, situavam-se aqui os bordéis e as tabernas da época, daí os suspiros. Para outros, a designação reflecte as aflições de alma (é isso que é um suspiro) expressas pelos condenados à morte que por ali passavam para serem fuzilados junto ao rio, o que é pouco provável, pois não existem registos escritos que comprovem essa prática em Sacramento. Outros ainda – mais dados à poesia –, admitem que o nome derivou do forte silvar do vento de sudoeste, que se assemelhava a muitos suspiros, dada a posição da rua, perpendicular ao Prata e numa cota mais elevada.

 

 

Encontramos por todo o centro histórico bons exemplos de casas portuguesas e espanholas, sendo característica das primeiras telhados de duas ou mais águas e janelas quadradas protegidas por barras de ferro.

 

– Chamamos rancho a este tipo de construção, pois assemelha-se à casa de campo galega – comenta Liliana, indicando uma das habitações portugueses de aspecto humilde. A curvatura dos telhados permite que água escorra para as ruas. Já a construção posterior de estilo espanhol, caracterizado pelos tectos planos, não tira partido desse factor.

 

Colónia de Sacramento manteve, ao longo dos tempos, a autenticidade dos edifícios representativos de cada uma das épocas que marcaram a sua história, o que lhe confere um perfil único, de cidade com «uma escala graciosa e muito humana», como ouço comentar um visitante que cruza por nós. Liliana mostra-me o local exacto onde se situava o quinto bastião, «dedicado a São João», do qual já nada resta – o sítio está assinalado por um pequeno canhão e uma lápide azulejada. A uns metros de distância, são bem visíveis as secções do empedrado antigo que sobreviveram ao calcetamento recente.

 

Também foi reconfortante saber que a fundação Calouste Gulbenkien vai financiar as escavações arqueológicas previstas no terreno do baluarte de San Pedro, um terreiro vazio assinalado por uma âncora e um mastro branco onde não esvoaça qualquer bandeira. É bem visível aqui o aproveitamento da rocha natural como base onde foi feito o assentamento da muralha do lado ribeirinho. Sabe-se que existia no local um moinho e uma capela dedicada a São Pedro de Alcântara, ambos da fase inicial da construção da cidade, como o comprova a cartografia da época.

 

 

– Aguardamos que cheguem técnicos de Portugal – diz Liliana.

 

Este não será o primeiro investimento da Gulbenkien, que fez a recuperação do rancho português Nacarello (o nome da último proprietário, que era italiano). Também conhecida como «casa rosada», o agora museu Nacarello lembra as casas rurais de Trás-os-Montes, de onde eram originários muitos dos habitantes da cidade. No seu interior estão vários objectos e mobília que nos dão uma ideia de como vivia uma família em meados do século XVIII.

 

 

O centro histórico de Colónia de Sacramento é pequeno, muito pequeno. E a visita que Liliana me proporciona abarca-o na sua totalidade. Terei tempo de o revisitar, seguindo desta vez o meu instinto, agora que a lição inicial está dada.

publicado por JoaquimMDC às 17:28
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