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Sábado, 4 de Abril de 2009
O estuário da Prata

Para os uruguaios Colónia é a jóia da coroa do turismo nacional, principal destino cultural, classificado Património da Humanidade desde 1995. E isso é matéria de indiscutível importância. Porém, não sinto esse peso de responsabilidade nos poucos habitantes com quem me cruzo no centro histórico e nas ruas ali próximas. Parecem-me muito na deles, alheios ao movimento, escasso, de turistas, maioritariamente uruguaios.

 

– Aos fins-de-semana isto enche – garante Chevallier, ciente e defensora do seu facho, quando comento o facto.

Acredito que encherá, mas com paisanos argentinos, pois Buenos Aires está a uns meros 40 quilómetros, basta uma travessia de estuário.

 

Para os habitantes da capital argentina, Colónia é uma ilha de tranquilidade, refúgio às multidões. Sai-lhes mais barato, e é mais prático, vir até Colónia de barco do que percorrer as muitas dezenas de quilómetros que separam a malha urbana da tranquilidade da província.

 

Por incrível que pareça, é possível apanhar um voo de Montevideu a Buenos Aires – provavelmente o mais curto voo internacional do mundo. São apenas 35 minutos, para ser exacto. Ou seja, o avião levanta para descer, literalmente. Como se não bastasse, alguns dos voos internacionais que saem de Montevideu fazem escala em Buenos Aires. Para chegar a São Paulo (alguns uruguaios preferem chamar-lhe San Pablo) ou Brasília, por exemplo, é obrigatório parar em Buenos Aires, o que é perfeitamente incompreensível. Como alternativa, há camionetas que cumprem este percurso com passagem por Colónia.

 

– Somos bem mais discretos do que os argentinos – afirma Liliana, fazendo questão de realçar as diferenças.

Para além dos argentinos, há também abundância de visitantes oriundos dos Estados Unidos, França, Espanha, Itália e até Portugal. Quando Cavaco Silva aqui esteve cruzou-se com excursionistas portugueses que se mostraram «assombrados de encontrar aqui o seu presidente». E, como no Uruguai o protocolo é mais relaxado, «pois aqui não temos problemas de segurança», puderam trocar algumas palavras.

 

Como vivi muitos anos em Macau (sou ainda residente) estabeleço de imediato paralelos entre os sítios que visito e ex-território ultramarino. Colónia está para Buenos Aires como Macau está para Hong Kong, de onde, durante décadas, provinha o grosso do contingente turístico. Há ainda a cor da água, barrenta, lá como cá. Estamos, pode dizer-se, numa espécie de foz onde as águas dos rios Paraná e Uruguai se misturam; no extremo Oriente é o rio das Pérolas que se espalha num delta.

Depois, há a presença de casinos em ambos cidades, com as devidas e astronómicas diferenças em termos de mesas de jogo e número de apostadores. Em Macau, mais propriamente na ilha da Taipa, há cantinhos preservados com casas de estilo colonial à sombra de figueiras da índia que lembram a atmosfera pacata de Colónia de Sacramento. Uma similaridade que se acentua se a tudo isto associarmos o calor e a extrema humidade.

 

Estou certo que paralelos destes surgirão, inevitavelmente, ao longo da viagem. Esta coisa da atribuição de títulos de prestígio internacional tem as suas inconveniências e nem todos gostam de viver em locais assim designados, pois há privilégios que se perdem, hábitos que têm de ser alterados. Isto, apesar de não me parecer que exista um critério da Unesco que seja definidor sobre o que deve ou não deve ter uma cidade, que requisito deve ou não deve obedecer para poder ostentar o título, como quem usa uma condecoração.

 

Recentemente inaugurado, o restaurante de comida francesa La Gallette tem já motivos de queixa. Mas quem os transmite não é o dono bretão (mais preocupado com o ponto da farinha dos crepes), mas sim a Daniela Gomes Merladett, «artista plástica, empregada de mesa e mãe solteira», que aproveita o espaço para expor as suas telas. Oferece-me, «como recuerdo», um dos seus trabalhos: um pé de sofá ao qual uma pintura psicadélica conferiu aspecto antropomórfico.

– Gostava bem de poder partir contigo para as praias doces do Brasil – exclama a uruguaia.

 

Mas que ideia é essa de invariavelmente associar viagem à praia e à boa vida! Não é bem assim cara Daniela, mesmo que o objectivo a cumprir implique proximidade com o mar. É o caso, neste projecto: as maiorias das nossas Maravilhas situam-se em zonas costeiras, ou mesmo em ilhas.

 

Daniela não hesita em classificar de fundamentalistas todos os que pensam que o título de Património da Humanidade constitui motivo para controlar e limitar a iniciativa privada. E dá exemplos:

– Tínhamos umas canalizações podres que empestavam o ar e nem imaginas o que tivemos de passar para conseguir autorização para colocar tubagem nova. Isso da Unesco é muito bonito, desde que não interfira com o bem-estar das pessoas e o direito que têm à sua individualidade.

Indica, a propósito, uma pequena abertura na parede que liga a cozinha à sala de jantar, e acrescenta:

– Por termos feito aquilo, fomos obrigados a pagar uma multa muito pesada. Nas entrelinhas, Daniela deixa entender que quem assim o deseje pode, de forma sub-reptícia, aliciar alguns dos funcionários municipais com luvas para fazer aprovar projectos e obter as autorizações necessárias, não estivéssemos num país latino-americano, apesar das nuances escandinavas com que deparamos nas zonas rurais.

 

Num outro registo, a artista fala do problema da droga no país, de algo que aqui designam como pasta base, «mil vezes pior que o craque». É feita de uma mistura explosiva de filamentos de lâmpadas de tungsténio esmagados, cimento e porcarias do género.

 

Voltando à questão do património. O que provavelmente iria mexer com o já esperado comodismo das pessoas, mas que seria uma óptima ideia, era a retirada imediata e completa dos automóveis do casco viejo de Colónia, pois são verdadeiros intrusos e um constante empecilho a quem pretende descontrair-se com um simples passeio a pé.

 

Esta luta contra a ditadura automóvel provavelmente será tema de futuras impressões, pois todos os centros históricos de cidades únicas no mundo (a não ser na nórdica Europa) continuam pejados de automóveis, senhores absolutos dos destinos da humanidade. Eis o exemplo de um problema que é global e não desaparece só porque se eliminam fronteiras.

 

Se por um lado se reprime e se impede; por outro deixa-se que caia em ruína muito do património classificado, mesmo quando é a Unesco a atribuir o título. Neste deambular sem rumo definido (a dimensão de Colónia permite luxos destes), confronto-me com vários edifícios à espera de restauro e financiamento. Nas paredes degradadas vêem-se placas com um «Se Vende» acompanhado de um apelido e um contacto telefónico. Alguns desses apelidos são portugueses: Freitas. Mata. Amaral. Este último parece dominar o ramo imobiliário local. Muito do casario à venda, o degradado e o não degradado, está por conta dele. Há habitações disponíveis em óptimas condições que certamente acabarão como propriedade de europeus que aqui escolheram viver, a exemplo do que acontece em Arzila e noutras praças-fortes de origem portuguesa na costa marroquina. E ainda bem que assim é. Haja alguém que trave o irremediável e deprimente processo de desmoronamento!

 

 

O estado ruinoso de certos edifícios, alguns de grande porte, autênticos sobrados coloniais, é mais evidente junto a um passadiço de madeira situado a uns 50 metros do café onde trabalha Daniela.

Este ancoradouro alinha, quase em paralelo, com o que resta da muralha do baluarte Del Carmen, uns metros a oeste, ocupando o local exacto onde acostavam as embarcações nos tempos áureos do comércio e contrabando, quando as potências europeias se digladiavam para dar a melhor dentada na «maçã da discórdia». Hoje, o madeiro renovado limita-se a suportar o andar pausado dos sonhadores, dos velhos e dos amantes. Para além disso, resguarda um ou outro barco de recreio, apesar de um moderno embarcadouro de cimento, muito mais longo, construído uns 50 metros a sul, e que parece estar sob a alçada do Clube de Pesca local, tê-lo substituído na sua habitual função.

 

Implantado no gramado que o pedaço de muralha ainda em razoável estado de conservação sustem, uma torre de tijoleira com trinta e tal metros de altura – projectada, no início do século XX, com o intuito de expelir para bem longe os pouco agradáveis fumos de uma fábrica de cola e sabão, que era ao mesmo tempo lavadouro de lãs e curtumes, e que nunca chegou a funcionar –, assume hoje as funções de marco de referência da cidade. Dir-se-ia um farol de barro, a fazer lembrar os minaretes das peculiares mesquitas das cidades uigures no oásis do Turquistão chinês. Torre e armazém, propriedade de investidores argentinos, foram vendidos ao estado uruguaio que dele fez um Centro Cultural onde expõem agora artistas locais e estrangeiros. Há nesta cidade uma propensão para o desenho e as aguarelas que se traduz na quantidade de pequenas galerias que vemos ao virar da esquina e nos muitos artesãos de rua, alguns acompanhados por toda família, que aqui passam os verões, havendo quem prolongue a estada pelo ano inteiro, como é o caso da brasileira Nanne, que habitualmente estende a sua banca com colares, braceletes e pendentes de missanga à sombra providencial de uma figueira-da-índia no Paseo de San Miguel, junto ao baluarte com mesmo nome.

– Prefiro viver aqui, pois é muito mais seguro do que em qualquer parte do Brasil – assegura.

 

A segurança é uma dos grandes trunfo de Colónia de Sacramento, em particular, e de todo o Uruguai, provavelmente o país com a mais baixa taxa de criminalidade da América do Sul. As pessoas são pacíficas e existe uma força especial, a polícia turística, que dissuade possíveis meliantes e deixar mais tranquilos os visitantes menos afoitos.

 

Uruguai é também, a par com Cuba, o país com o maior nível de literacia e com o melhor sistema de saúde. O acesso aos cuidados médicos é gratuito e o décimo segundo ano obrigatório.

publicado por JoaquimMDC às 17:35
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