.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sábado, 4 de Abril de 2009
O país natural
Outra cifra da qual se orgulha a pátria dos gaúchos, é o terceiro lugar que ocupa no ranking do índice mundial de sustentabilidade ambiental. Verdade seja dita: não há muita gente para destruir o meio ambiente no «país natural», assim designado devido azul celeste estampado no estandarte nacional.
Habitam o Uruguai – território de 180 mil quilómetros quadrados – 3 milhões e 300 mil criaturas, captando a metrópole Montevideu três quartos dessa gente, ou seja, 2 milhões e 350 mil. E é precisamente em Montevideu que as questões de segurança podem ser notícia. Fora isso, uma estada neste país não requer preocupações de monta. A média anual de 2 milhões de visitantes por ano fala por si.

O território uruguaio oferece ruralidade a poucos quilómetros de distância dos centros urbanos. Numa região com alguns dos maiores lençóis freáticos do mundo, abundam fazendas, ideais para o turismo rural, e estâncias de águas termais, como Salto (onde perdura uma importante comunidade de origem portuguesa) e Paysadu. A fronteira leste com a Argentina é toda ela delimitada pelo rio Uruguai, verdadeira fonte termal. O rio Negro, que também nasce no Brasil, corta o país a meio, sendo em boa parte do seu percurso praticamente um lago.

Mas há ameaças ambientais. Uma delas é plantação de industrial de eucaliptos que tem vinda a privar de água aldeias inteiras.

O litoral de 650 quilómetros disponibiliza praias para todos os gostos, com ondas e sem ondas, de areia grossa ou areia fina, praias marítimas ou fluviais, todas com interessante biodiversidade – diferentes espécies de tartarugas, lobos-marinhos e a baleia branca austral, uma espécie rara, que ao largo da costa uruguaia cumpre parte da sua maratona oceânica.

Para quem vem da Europa, acostumado a um inverno rigoroso, é um privilégio contar de novo com dias longos, pois não esqueçamos que estamos no hemisfério Sul. Talvez por isso me pareça uma eternidade esta primeira tarde em Colónia de Sacramento. Para um turista comum, todavia, tudo estaria visto e a sugestão deixada no ar seria: vamos até Punta del Este, ou melhor, até Punta Del Diablo, algumas dezenas de quilómetros a norte onde o ambiente é mais pacato, para dar uns mergulhos e fazer um surf.
Tendo em consideração o braseiro, na verdade, é isso que mais me apetece fazer, viciado assumido que sou em mar e maresia.

Os uruguaios já não se lembravam de um Verão assim: não chove há mais de seis meses. A proximidade do rio e a presença de grande quantidade de árvores, plátanos maioritariamente, mas há outras espécies mais exóticas, vão ajudando a atenuar os efeitos da canícula. O problema é a humidade, que o céu de chumbo torna opressiva. É o que em Macau se designa de «tempo de capacete».

Para percorrer as estradas paralelas da baixa os uruguaios optam pelo motociclo de baixa cilindrada e uns pequenos jipes, semelhantes aos buges do nordeste brasileiro. Os raros pedestres que avisto, caminham em tronco nu. As esplanadas estão praticamente vazias, mas as piscinas municipais esgotaram a lotação, e na sorveteira da General Flores, a avenida principal, é um sempre a aviar. Pudera, os gelados caseiros que aqui se fazem são uma verdadeira delícia!

O pôr-do-sol de Colónia acontece em Buenos Aires, pode dizer-se assim, pois é em direcção à capital argentina que todos os olhos se dirigem quando o astro-rei se torna uma bola alaranjada. E logo que a noite assenta, o clarão avermelhado natural é substituído por um outro artificial. Como num passe de magia, acende-se na linha do horizonte uma cidade – imagina-se, e é mesmo verdade – assente na outra margem do rio da Prata que deveria antes chamar-se rio do Barro.
Sinais vermelhos e verdes emitidos pelas dezenas de farolins das embarcações que cumprem a faina diária, e de um ou outro ferry de passageiros, misturam-se com as luzes dessa Buenos Aires que se levanta quando Colónia se vai deitar.
Recordo as palavras de Liliana: – Estamos habituados a olhar para o rio da Prata com se fosse o mar.

No ancoradouro há quem pesque e há quem beba litros de chá-mate, desfrutando a suave brisa ao som da bossa nova, a música que mais se ouve no sonoro da magnífica esplanada do café do Clube de Pesca.
Em baixo, uma placa afixada na parede recorda os nomes dos destemidos argentinos e uruguaios – mais aqueles do que estes – que nas últimas nove décadas fizeram a nado a travessia do canal de 43 quilómetros que separa Colónia de Buenos Aires.

Ao regressar ao quarto do Plaza Mayor encontro os candeeiros acesos e dois bombons Garoto e um papel com a indicação do tempo que irá fazer amanhã em cima da mesa-de-cabeceira. Há séculos que não punha a vista em cima deste chocolate baunilhado, produto maior da Indústria Brasileira!

Estou tão cansado que nem me dou ao trabalho de abrir o computador para escrever uma linha que seja. Como os dois bombons e enfio-me debaixo dos lençóis de um branco imaculado.
De olhos posto na telha do tecto, desfrutando deste pé alto gigantesco, penso: «Eis-me a dormir num rancho português praticamente inalterado». Ou melhor, alterado apenas para lhe conferir mais conforto. Pois, como bem sabe quem por este mundo vagabundeia, o rústico paga-se cada vez mais caro. Há umas décadas apenas era encarado com repugnância, agora é considerado chique. Já não é para a bolsa de qualquer um.
publicado por JoaquimMDC às 17:39
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds