.mais sobre mim
.links
.posts recentes

. LANÇAMENTO DO LIVRO «VIAG...

. Apresentação do livro «Ma...

. O Dragão Inebriado

. Os descendentes de Albuqu...

. O repouso do jesuíta

. Símbolo da Goa Dourada

. A relíquia de Cambaia

. Os dois rostos de Damão

. A cidade e o mato

. Uma estratégica Ormuz

.arquivos

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.Reportagem realizada num portátil:
.Máquina fotográfica patrocinada por:
Sábado, 4 de Abril de 2009
A Real San Carlos

Durmo até tarde, para recuperar o sono que tenho em atraso.

 

Estou eu a lavar os dentes quando sou surpreendido por um telefonema da recepção dizendo-me que tenho de desocupar o quarto, pois passam vinte minutos do meio-dia. «Mas então, já me estão a pôr daqui para fora?», é a pergunta que me ocorre.

 

Telefono ao Walter Debenedetti, que vem ter comigo poucos minutos depois, informando-me que, para o pessoal da Intendência, ficara claro que uma tarde na companhia de uma guia turística seria o suficiente para que concluísse o meu trabalho – afinal, para eles, eu era o tal técnico enviado pelo governo português para aquilatar o estado de conservação deste local –, e, como o quarto fora já reservado, teria de ficar alojado noutro sítio. É claro que não há problema, é só dizer onde.

 

Transferem-me para o terceiro andar do Hotel Leôncia, «um três estrellas… y algo más», que é mesmo ao lado da Intendência. Nunca cheguei a perceber o sentido da frase «y algo mas», mas o local é asseado e isso é o principal.

 

O Leôncia é um agradável labirinto de escadas, espelhos e corredores apertados. Passo a ocupar um quarto pequeno com uma pequena cama e um enorme espelho – óptimo para narcisistas – que cria a impressão de estarmos num espaço com o dobro do tamanho. A grande vantagem deste aposento é o facto de dar para um pátio interior, já que o ar condicionado só se faz notar se ao mesmo tempo tivermos ligada a ventoinha do tecto.

 

As piscinas dos pequenos hotéis, para quem gosta de nadar, como é o meu caso, são sempre uma grande desilusão. Ou é o espaço que é reduzido, ou a água que é quente, ou são os hóspedes que se lembram de ir nadar todos na mesma altura tornando incomportável qualquer movimento nessas espécies de tanques que ao fim de alguns minutos só nos podem conduzir ao enfado e à náusea.

Prática de natação e viagem não combinam, o melhor mesmo é esquecer a actividade por uns tempos. Ou então aguardar pelas praias de água tépida e uma oportunidade para romper com o programa que a mim próprio impus.

 

Neste suplementar segundo dia de estada fico entregue, e muito bem, aos cuidados do arquitecto Walter Debenedetti. Com ele vou almoçar, uma vez mais ao Casa Grande (o restaurante deve ter algum acordo com a Intendência), só que desta feita opto por um prato local – o frango laqueado – que me sabe a comida chinesa feita para agradar não chineses. – Hoy no esta tan rico. O cozinheiro é outro com certeza – desculpa-se o arquitecto, que no dia anterior escolhera esse mesmo prato, e fora isso que motivara a minha opção de agora. Seja como for, certamente não estou aqui para testar a culinária local.

 

Está presente o dono do restaurante, acompanhado pelo director de informação do único canal televisivo de Colónia de Sacramento. O homem da Intendência informa-os do objectivo da minha viagem, e o jornalista pergunta-me onde estarei durante a tarde, pois pensa enviar uma equipa da redacção para fazerem comigo um pequeno apontamento de reportagem.

– Estarei por aí, a fotografar – respondo-lhe. – O centro histórico é de tal forma pequeno que certamente não terão dificuldades em encontrar-me.

 

Finda refeição, Walter Debenedetti conduz-me no seu automóvel, muito devagar, ao longo da rambla costeira até à Real de San Carlos, um bairro periférico ao fundo da baía, no extremo oposto do centro histórico.

 

No auge da disputa entre os países ibéricos, os espanhóis ocuparam o local (daí o nome San Carlos, em honra ao rei Carlos III) construindo uma fortificação e vários outros edifícios dos quais sobrevive a singela igreja dedicada a São Benedito, um frade franciscano, negro, siciliano, filho de pais mouros conversos, muito venerado na América do Sul, considerado pelos indígenas da região um santo modelo. Atribuem-se a São Benedito, ainda hoje, inúmeros milagres.

 

O arquitecto está convencido que as pedras e os terrenos escondem muitos segredos, e por isso «deveriam ser feitas escavações», porque quando «Portugal ocupava a cidade, os espanhóis instalavam-se aqui. Quando estes se assenhoravam da cidade, era a vez de os portugueses mudarem-se para San Carlos» e daqui bombardearem o inimigo numa tentativa de o desalojar.

– Com toda essa habitabilidade terá de haver vestígios em abundância – conclui.

 

Os edifícios ainda visíveis remontam ao início do século XX e faziam parte do projecto de um empresário do comércio marítimo que hoje dá nome à avenida principal de Real San Carlos. Chamava-se Nicolas Mihamovich e era judeu, originário da Dalmácia. Pretendeu transformar o bairro numa zona turística, conseguindo mesmo a concessão do terreno por 25 anos a troco do fornecimento de energia eléctrica a toda a cidade.

Mandou erguer uma praça de touros, um hotel, um casino, um frontão para jogar à pelota basca e uma curta linha férrea que ligava tudo isto a um cais onde acostariam os navios vindos da outra banda do Prata, e de mais além. A ideia era tirar o máximo partido da proximidade de Buenos Aires, que Mihamovich considerava um inesgotável manancial de turistas.

 

Foi efémera a visão do dálmata. O imposto que o governo argentino decidiu aplicar aos seus cidadãos que se dirigiam às cidades com casinos, veio estragar-lhe parte dos planos, e, como se não bastasse, a posterior proibição das corridas de touros pelo governo de José Battle e Ordonez, em 1912 (fizeram-se ao todo oito corridas com touros trazidos de Espanha), impediriam em definitivo que levasse avante o seu projecto. E os edifícios ali ficaram, como fantasmas de uma época que nunca chegou a acontecer. Mais do que tudo o resto, as estacas do embarcadiço que parecem despontar das águas, quais lanças erguidas, expressam bem o sonho desfeito.

 

 

A praça de touros, de traçado mourisco, como o Campo Pequeno em Lisboa, é uma estrutura que combina ferro importado da Inglaterra com ladrilho branco cozido em fornos locais, reflectindo, em termos de estilo, uma óbvia influência francesa, pois Gustavo Eiffel era a referência da época um pouco por todo mundo. Por falta de uso, cedo começou a degradar-se. Os abalos sísmicos fizeram o resto, e as fissuras são visíveis... Mas está em curso um projecto que pretende recuperar para o turismo toda esta área.

– No fundo, trata-se de fazer renascer a ideia de Mihamovich – diz Walter.

 

Os touros não mais regressaram a Colónia de Sacramento, mas o jogo manteve-se, apesar das restrições, e hoje existem diversos casinos na cidade, «acolhidos» em salões de hotéis ou com direito a casa própria. Frequentam-nos tanto os uruguaios como os argentinos ou os brasileiros, impossibilitados de jogar nos locais onde vivem.

– Em todos os casinos pode-se trocar dinheiro, como num banco, e não é preciso jogar – informa o meu anfitrião. Dizer isto a um residente de Macau é como dizer que a água é molhada.

 

Aprecio a simpatia do arquitecto, mas é óbvio que ele tem mais que fazer do que andar a mostrar-me as vistas. Por isso, peço-lhe que faça uma série de telefonemas, para que nos museus me dêem carta-branca no que concerne ao registo de imagens, e deixo-o ir à sua vida, indo eu também à minha.

publicado por JoaquimMDC às 19:02
link do post | comentar | favorito
.pesquisar
 
.subscrever feeds