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Sábado, 4 de Abril de 2009
Casas Museu

Aproveito o que resta da tarde para regressar aos museus, que até agora só tinha apreciado do exterior. E eu sou pessoa para demorar uma eternidade a visitá-los, por mais pequenos que sejam.

 

 

A funcionária de serviço no Museu Nacarello reivindica de imediato a sua costela lusa, dizendo-me que é da família que comprou a habitação aos italianos, muitos anos antes de esta reverter para a municipalidade. A senhora Quintana está ali para cuidar do local e informar os interessados acerca dos «90 centímetros de espessura das paredes» da casa onde viveu um tio seu. Quanto ao bisavô, Teodósio de Quintana, «foi um dos muitos portugueses que acompanharam José Artigas nas campanhas pela libertação do Uruguai».

– Tenho ainda em meu poder um isqueiro que lhe pertencia – diz com orgulho a mulher, sentada numa cadeira junto a um baú forrado a couro, que ela garante ter mais de 300 anos.

 

Mesmo ao lado situa-se o Museu Municipal, ou Casa Bautista Rebuffo, outra construção portuguesa dos meados do século XVIII, modificada durante o período espanhol. À entrada estão dois canhões, um deles com a boca arrebentada.

 

– Estas peças de artilharia foram destruídos para que os portugueses não pudessem fazer uso delas – informa a responsável da instituição, lembrando-me que só a título excepcional se permite a fotografia dos interiores de todos os museus da cidade.

– O arquitecto Debenadetti informou-me que está a fazer um trabalho sobre a nossa cidade e, por isso, não há quaisquer restrições para si – assegura.

 

Este museu, outrora a Casa dos Secretários, que eram as autoridades civis na época do domínio português, divide-se em várias salas temáticas onde se pode apreciar artefactos arqueológicos dos povos indígenas, armamento militar, peças de cerâmica, materiais pertencentes à Praça de Touros, variada parafernália religiosa doada pelas famílias mais beatas e ricas, mobiliário do século XIX e uma secção paleontológica que inclui o esqueleto de um lestodonte (pequeno dinossáurio) e a enorme carapaça de um gliptodonte, antepassado – pode considerar-se assim – da tartaruga.

 

O Estado português assumiu a sua responsabilidade histórica ao ceder todo o espólio do Museu Português, outro dos típicos ranchos com tecto de quatro águas e muros de pedra de 60 e 90 centímetros de espessura, e interior de adobe e tabiques preenchidos com calhaus, pedaços de telha e saibro.

 

 

De salientar a riqueza do mobiliário da época, em madeira de jacarandá – árvore que dá uma bonita flor lilás –, os uniformes do Regimento do Dragões de 1771, várias moedas dos reinados de D. João VI e D. Pedro I, o escudo original com as armas de Portugal que ornamentava o Porta da Bandeira, e heráldica vária ligada a ilustres figuras locais.

É o caso do brasão da família Vasconcellos e a árvore genealógica de Manuel Lobo, desenhada pelo historiador luso uruguaio Fernando Assunção, que, pelos vistos, tinha também queda para a pintura.

 

O edifício, minúsculo para quem o vê de fora, revela-se enorme no seu interior. É como se a casa se desdobrasse em diferentes salas à medida que se progride na visita. Na cave o destaque vai todo para uma exposição de cartazes com textos e gravuras demonstrativas dos cruéis métodos utilizados pelos esclavagistas, complementados com réplicas de instrumentos de tortura. Réplicas são também os instrumentos de navegação e as cartas náuticas desenhadas pelos nossos mais famosos cartógrafos (e as que na Europa se produziram com base no seu trabalho pioneiro) expostos na sala contígua.

 

Numa terceira divisória, os quadros e os objectos (balas, uniformes, documentos) evocam os turbulentos episódios do início do século XIX que originaram a República Cisplatina, esse breve período da história em que o Uruguai foi colónia portuguesa.

 

Mesmo em frente ao Museu Português está a Plaza Mayor, o espaço mais amplo da cidade. Destinava-se a manobras militares – a Praça de Armas – e está hoje transfigurada num aprazível jardim onde chama a atenção uma enorme árvore originária da região subtropical onde se situavam as missões dos jesuítas. Chamam-lhe palo borracho, porque as suas flores e a casca do tronco, que têm propriedades psicotrópicas, eram utilizados como anestesiante pelos guaranis nas suas pescarias. Eles limitavam-se a atirar para o rio um preparado de flores e cascas previamente esmagadas, aguardando depois alguns minutos para poder recolher os peixes atordoadas. Enfim, uma pesca sem grandes trabalhos que traduz bem a sábia filosofia de vida dos índios sul-americanos.

 

Todos os museus locais são pequenos e compactos. De outro modo não podia ser, pois encontram-se instalados no casario tradicional, o que faz deles museus dentro do enorme museu que é o centro histórico. O que recorda o período espanhol, por exemplo, ocupa um imponente sobrado português de 1720, com um andar, várias varandas, portadas e beirais de granito, e imaculadamente caiado de alto a baixo.

 

 

 

Sobranceiro ao rio, um pequeno rancho com três séculos de existência e paredes nuas que revelam pedras assentes umas sobre as outras, à semelhança das construções tradicionais da Beira Alta, abriga um ainda mais pequeno museu onde se encontram expostos diferentes tipos de azulejos. Mesmo ao lado, numa casa de época posterior, funciona um restaurante espanhol que serve paella, entre outras especialidades.

 

A bandeira amarela e vermelha identifica-o, lembrando-nos que temos o dever de divulgar a nossa gastronomia, pelo menos nos locais por onde passamos e deixamos rasto significativo.

 

Como é possível que não haja um único restaurante português em Colónia de Sacramento? Se até os franceses, que nada têm a ver com isto, tomaram já a iniciativa, de que estamos nós à espera?

 

Não dá para entender porque razão os produtos portugueses, sejam eles fabris, históricos ou culturais, não se conseguem impor devidamente em lado nenhum do mundo. Nem sequer num país como o Brasil, que ao contrário do que alguma gente afirma, tem tudo a ver connosco.

Desgraçadamente continuamos demasiado tímidos, reservados, adaptáveis no mau sentido. Moldamo-nos, e num instante fazemos parte da paisagem humana do país onde escolhemos viver. E de tal forma nos moldamos, que quase cessamos de existir, o que só pode ser mau.

 

Já que estamos com a mão na massa, tomemos como exemplo essa nossa gastronomia, que embora seja das mais variadas e ricas, só é realmente conhecida entre portas, e num ou outro foco de resistência da lusa colherada por essa rosa-dos-ventos fora. Reconforta-me saber, no entanto, que ela se encontra profundamente impregnada na cozinha brasileira, japonesa, malaia, indiana, africana ou macaense, só para citar alguns exemplos.

 

 

Outro dos locais que me merece particular atenção é a denominada Plazuela del Teatro, pitoresca praceta sombreado pelos sempre generosos plátanos, onde, em 1730, se representou a primeira peça de teatro no Uruguai. Tratava-se de «As Armas da Formosura» de Pedro Calderón de la Barca, propositadamente encenada para celebrar as bodas do príncipe Dom José com Dona Maria Ana Vitória, infanta de Castela, era então governador António Pedro de Vasconcellos.

 

Local de visita obrigatório, o Museu Indígena, dá-nos uma ideia da diversidade de tribos que outrora habitaram a região e das suas essenciais diferenças. Todos os índios eram nómadas, vivendo da caça e da pesca. Embora não conhecessem a escrita eram óptimos artesãos, trabalhando o osso, a pedra e o barro, com os quais faziam armas e demais utensílios. A conhecida dança gaúcha em que o interveniente faz girar em círculos concêntricos bolas presas a fios de couro batendo-as no chão de vez em quando numa crescente cadência e malabarismo vertiginoso, é certamente de tradição indígena.

 

 

Os charruas da região do Prata, entretanto exterminados, não eram canibais como os guaranis e acreditavam na vida após a morte, embora não tivessem propriamente uma crença religiosa. Os cronistas da época salientavam o facto de serem muito ciumentos e nunca mostrarem as suas mulheres, ao contrário dos guaranis que eram promíscuos e ofereciam as suas mulheres aos visitantes.

 

Na actualidade, apenas sete por cento da população uruguaia pode reivindicar origem charrua. Aqui as pessoas são essencialmente de extracção europeia, raramente se vê alguém com traços índios ou negros, algo de comum no Brasil, no Paraguai, no Chile ou na Argentina.

 

Nada resta do original «rancho com sineta» feito de palha e terra batida logo após a primeira ocupação da cidade, mas a igreja matriz do Santíssimo Sacramento manteve-se no mesmo local, e com mesma forma, até 1699, quando por ordem do governador foi construída de pedra e cal.

 

Alvo predilecto nos sucessivos conflitos bélicos, o templo sobreviveu a cercos e a um incêndio provocado por um raio que fez explodir algumas munições ali esquecidas, mantendo a sua estrutura em forma de cruz latina de uma só nave, tipicamente portuguesa, com tecto de telhas e duas torres que hoje caracterizam indelevelmente a fachada principal caiada de branco.

 

 

Os muros em pedra, à entrada, alguns pilares e a parede por detrás do altar, no interior, são de origem portuguesa; já os ladrilhos, as arcadas e o revestimento final em estuque, resultam da intervenção do arquitecto espanhol Tomas Toribo, que remodelou a igreja em 1806.

 

Apesar das alterações efectuadas, esta continua a ser a mais antiga igreja do Uruguai, e é tranquilidade o que sinto quando franqueio a entrada. O interior é sóbrio e quase despido de imagens, o que a aproxima de um templo protestante. Pintura não há, e a estatuária conta-se pelos dedos das mãos. Chamam desde logo a atenção a figura de São Francisco de Assis, um calvário luso-brasileiro do tempo de D. José I, um crucifixo talhado pelos índios das missões, um altar de madeira espanhol, um sacrário missioneiro em jacarandá e uma pia baptismal que pertenceu a uma das primeiras capelas.

 

Em frente à basílica há uma loja de recordações que exibe na montra várias peças de cerâmica portuguesa. Malgas, chávenas, potes, jarros, castiçais. Nem sequer faltam os pratinhos que se penduram nas paredes para enfeitar e deixar recados. Eis alguns dos dizeres a preceito, com a respectiva tradução: «Mais vale borracho conhecido que alcoólico anónimo». «Aqui se juntam caçadores, pescadores e restante súcia de mentirosos». Os dizeres seguintes transcrevo-os em castelhano, pois não me atrevo a traduzi-los: «El hombre se casa, por civil, por iglesia y por idiota». «En este rincon nos juntamos los distintos, solo le damos el tinto».

 

Talvez tenha havido desencontro, o certo é que não há sinais da prometida equipa televisiva, e, quando dou por mim, o dia chega ao fim.

 

Desta feita não acontece um desses admiráveis pores-do-sol sobre o Prata, trunfo frequentemente utilizado nas brochuras turísticas. O céu está sombrio, com nuvens cinzentas encasteladas a oeste, em jeito de ameaça. Será que vem aí a chuva tão aguardada?

publicado por JoaquimMDC às 19:04
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