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Sábado, 4 de Abril de 2009
A cumplicidade uruguaia

Chegar a Colónia de Sacramento depois de visitar o mais recôndito quinhão germânico da serrania gaúcha, é como chegar a Portugal depois de atravessar toda a extensão europeia de campos verdes e amarelos, mais ondulados do que planos. As pessoas de cá assemelham-se muito a nós, no aspecto físico, no jeito discreto de estar, na sua aparente timidez.

 

– Quando desembarquei em Lisboa, após uma estadia de 7 meses numa universidade norte-americana, onde estudei cerâmica portuguesa, julguei que os meus compatriotas se tinham mudado para Portugal – confidencia-me Nelsys Fusco Zambetogliris, a minha quarta anfitriã com «direito» a discurso directo, até porque é uma confessa admiradora do nosso país, e isso sente-se em todas as palavras que profere.

 

(ver http://www.youtube.com/watch?v=E55BfgmNAG4)

 

– Era como se todos os uruguaios estivessem a passear no Cais do Sodré e na Praça do Comércio. Nunca vi um povo tão idêntico ao uruguaio como o português.

Faço minhas as palavras desta arqueóloga que reúne sangue português, italiano e grego.

 

Sobretudo os colonienses – como se chamam a si próprios os habitantes de Colónia de Sacramento – são feitos de uma argamassa assentada pelos fundadores da cidade, os homens comandados por Manuel Lobo, figura histórica que hoje é nome de rua e pouco mais.

 

Como decidi ficar um dia extra os responsáveis da Intendência presumiram que ficaria um outro ainda, «quem fica dois, fica três», e por isso pediram a Nelsys Fusco que viesse ter comigo ao hotel. Estou certo que aceitou a missão com todo o gosto.

 

E agora aqui a tenho, no átrio do Leôncia, 1 metro e 50 centímetros de pura simpatia, com uma cesta de verga (produto artesanal muito nosso) e um sorriso nos lábios simultaneamente comedido e melancólico. Como o sorriso português.

 

Nelsys Fusco começa por me sugerir um novo olhar, mais atento, à pousada Plaza Mayor, precisamente para me mostrar as características que lhe conferem o estatuto de habitação portuguesa. No jardim das traseiras, descidos os degraus que conduzem ao jardim exterior, indica-me o preciso local onde o acrescento clássico foi adicionado ao humilde rancho de pedra nua.

Essa linha, ainda visível, marca a transição do casebre português para a moradia espanhola, acontecida no espaço de um século. Aquilo que era provavelmente o lar de um simples soldado transformou-se em casona de fidalgo e é hoje unidade hoteleira de charme, o que em economês se traduz em 150 euros por diária, no mínimo.

 

A arqueóloga leva-me depois ao hotel Esperanza, nas proximidades do baluarte Del Carmen, onde há uns anos foram encontradas algumas preciosidades arqueológicas. Esses objectos estão expostos nas salas, por detrás de vitrinas, e num dos corredores, onde vejo uma enxada e uma pá, resultado de escavações recentes. A posse deste espólio, por mais rudimentar que seja, faz do Esperanza uma espécie de museu. E eu pergunto: o que é que não é museu em Colónia do Sacramento?

 

Ao fundo do jardim é visível o único trecho de muralha preservado no lado oriental da cidade. – Tratam-me como se fosse da casa – comenta a arqueóloga, enquanto puxamos de duas cadeiras para nos sentarmos junto à piscina.

 

Peço-lhe que me fale um pouco da cidade.

– A fundação de Colónia foi fundamental para a emergência do Uruguai como país – atira ela. Na altura da sua fundação, Buenos Aires era uma pequena cidade e toda a região circundante território marginal. A chegada dos portugueses marcou o início da actividade comercial no rio do Prata, que se manteve até hoje, com muito contrabando à mistura.

– Para além do comércio – prossegue a arqueóloga – os portugueses introduziram a agricultura. A área rural era extensa e nela se plantaram todos os tipos de cereais, legumes e, sobretudo, árvores de fruta.

 

Na parte leste da cidade, na Banda Oriental, fora do perímetro amuralhado, muitas famílias portuguesas construíram casas, delimitaram quintas e arrotearam zonas de plantio. Também se criavam animais e foram erguidos moinhos e fornos onde se fabricavam telhas e ladrilhos, muito utilizadas na construção. No fundo, aquilo que é a actual economia uruguaia teve a sua origem em Colónia e na presença dos portugueses.

 

Logo nas primeiras intervenções arqueológicas, em 1992, diferenciou-se claramente a calçada portuguesa – com um vinco constituído por lajes ao centro do empedrado, por onde escoava a água – da calçada espanhola, caracterizada por uma lomba central, correndo a água, neste caso, por ambos os lados da via que não eram consideradas bermas, pois esse conceito não existia ainda.

 

Para bem interpretar a história é importante conhecer a dieta do século XVIII. Conhecer também os recipientes utilizados, em cerâmica verde e amarela. E se é certo que o consumo alimentar se baseava sobretudo no peixe e nas aves, sabe-se também que se recorria ocasionalmente à carne dos animais domesticados trazidos da Europa.

– Considerando as espinhas e os ossos de pássaros que se encontraram, concluímos que os portugueses, ao contrário dos indígenas, consumiam pouca carne – elucida a investigadora.

– Cada povo, por mais que viaje, leva sempre consigo os seus hábitos alimentares e não é de estranhar que os tente introduzir nos locais onde passam a viver, por vontade própria ou obrigação. Foi o que aconteceu em Colónia.

Os alimentos eram consumidos em pratos fundos e planos com uma tipologia muito própria. Cerâmica decorada a azul sobre branco, com círculos concêntricos, «as caracolas», e o violeta sobre branco, «ao estilo aranhiço», como o classifica Neyls. O miolo da pasta era amarelo e o esmalte exterior idêntico aos das cerâmicas encontradas em sítios arqueológicos da África e da Ásia, «basicamente em todos os locais por onde passaram e se estabeleceram os portugueses».

 

No decorrer da nossa conversa, e sempre que tem oportunidade, a arqueóloga salienta a generosidade dos portugueses, «pessoas de espírito aberto, muito receptivas», e lembra amizades «com mais de uma década», que se mantém tão fortes como no início.

– Vostro pais me encanta – conclui.

 

Mas a sorridente investigadora tem mais para me dizer.

– Se estudarmos a cartografia do século XVIII constatamos que a totalidade da cidade portuguesa, tanto sob o ponto militar como civil, jaz inteira sob a actual malha urbana. A destruição de algumas construções permitiu identificar antigas veredas e canais com fundo de pedra, por onde corria a água até ao rio.

– O mais curioso foi constatar que quem veio depois sempre respeitou o passado, como se tivesse pedido autorização para ocupar o espaço e fazer uso dele – lembra Neyls Fusco. – É muito recompensador, do ponto de vista arqueológico, estudar a vida quotidiana das diferentes épocas.

 

A ideia da aguardada escavação no bastião de San Pedro (vem também à baila) tem 10 anos e deve-se a Fernando Assunção, principal dinamizador da candidatura de Colónia de Sacramento ao título de Património da Humanidade.

publicado por JoaquimMDC às 19:28
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