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Sábado, 4 de Abril de 2009
O farol no convento

Prosseguimos o nosso passeio pela cidade, atravessando a rua Alberto Mendez, uma das perpendiculares à avenida Flores, (mais um caso de alteração de nome, Mendes derivou em Mendez), até chegarmos ao edifício onde está sedeada a Marinha.

 

No átrio encontra-se exposto um pequeno obus recuperado de um navio que naufragou em meados do século XVIII, ao largo da costa uruguaia. A arqueologia subaquática é uma área com muito trabalho pela frente.

 

 

Paralela ao rio, a rua Florida, prolonga-se até à muralha, mas antes merece-me a atenção uma antiga estação ferroviária de cor amarela com a palavra «Colónia» estampada num espaço rectangular pintado a branco bem visível numa das paredes laterais, ao estilo das estações de Portugal. Encontra-se desactivada e é agora parte de um Centro Cultural, que ocupa ainda outros dois barracões.

 

Ora aí está uma óptima ideia para resolver o imbróglio das centenas de armazéns e estações da CP actualmente fora de serviço em todo o país, património de inestimável valor, que por pura incúria ou falta de verba continua a cair aos pedaços. Sigam o exemplo do Uruguai e transformem-nos em salas para a actividade cultural ou desportiva!

 

No local onde a linha da ferrovia é abruptamente interrompida costumam estacionar os autocarros que trazem à cidade excursões escolares e de idosos. O Prata está aqui mesmo ao lado. Um ou outro pescador, equilibrado nas pedras, e os inevitáveis pares de namorados sentados nos bancos de madeira, privilegiam esta nesga de verde para partilharem intimidades e pensamentos com o rio.

 

Mas um ruidoso grupo de crianças acabado de sair de um autocarro vem quebrar a pacatez a que já me tinha habituado. Tal como nós, dirigem-se para a Porta da Cidadela, o local ideal para iniciar qualquer tipo de périplo pela cidade. O homem estátua vestido de palhaço sabe disso, e, em consonância, coloca-se em frente à muralha, numa pose estudada, estático, à espera das moedas que vão caindo.

 

 

A Porta da Cidadela, também conhecida como Porta do Campo, situa-se ao lado do baluarte da Bandeira (hoje inexistente) e era o principal ponto de acesso à cidade setecentista.

 

Do lado de fora da muralha, a Praça de 1811, marca o lugar onde Artigas iniciou a jornada libertadora que conduziria à independência o Uruguai.

 

Inauguradas em 1745, na vigência do governador Vasconcellos, a porta e a ponte levadiça sobre um fosso, seriam destruídas, juntamente com a muralha, em 1859, por ordem do presidente Gabriel Pereira – ironia do destino – um dos vários políticos uruguaios com ascendência portuguesa. Pereira justificou o bárbaro acto pela necessidade de eliminar «uma disfuncionalidade que impedia o crescimento da cidade»!

 

As pedras subtraídas à muralha seriam utilizadas para encher o fosso. Em lugar de destaque, mas sem qualquer nota indicativa, podemos ver a enorme clave triangular de granito onde assentava o escudo com as armas da cidade. O que vemos em cima da entrada é uma réplica do original que foi levado para Buenos Aires por Cevallos, e que, depois de devolvido, veio parar ao Museu Português, onde ainda está, como já aqui foi dito.

 

 

O processo de restauro de toda esta área remonta a 1972 e deve-se ao arquitecto Ordiozola, que colocou cravos de bronze para identificar o limite do que era muralha original e a parte reconstruída. Um trabalho muito bem conseguido, pois intervenção é mínima, o que vai de encontro à filosofia pela qual sempre se pautou o reputado arquitecto.

 

As trapalhadas de Gabriel Pereira não ficariam por aí. Também foi polémica a sua decisão de mandar construir um farol (hoje Património Nacional) na base de uma das torres em ruínas do convento de São Francisco Xavier, construído, entre 1683 e 1704, com blocos de ganisse biótico azul e tijolos intercalados, que formam arcos de 90 centímetros de largura.

 

 

Esta é uma das mais antigas estruturas arquitectónicas do Uruguai.É precisamente aqui que voltamos a encontrar o nosso já conhecido grupo de estudantes, todos eles com batas brancas, iguaizinhas as que eu usava na escola primária. Eram brancas mas depressa ficavam azuis, pois reinavam ainda os tinteiros, se bem que os anúncios televisivos às lapiseiras Bic fossem um claro prelúdio à sua extinção.

 

As duas janelas laterais do convento, ainda bem preservadas, são um dos locais favoritos para as sessões fotográficas dos traquinas.

 

 

«Ora aí estão uns rostos bonitos para fotografar», penso para com os meus botões. Pensado e feito. «Te gusta fotografar a los ninõs?», ouço um deles dizer, com uma pontinha de insinuação. A pergunta, feita assim, apanha-me de surpresa e confesso que me inibe. Era só o que me faltava – confundir trabalho honesto e suado com tentativas de pedofilia velada!

 

Talvez a pergunta da miúda seja totalmente inocente, mas eu é que já não sou, e como nos dias que correm pode ser considerado suspeito fotografar crianças, opto por fazer uma pausa para poder explicar à curiosa fedelha que um fotógrafo tira retratos a pessoas, entre muitas outras coisas. E pessoas tanto podem ser ninõs como ninas; abuelitos como abuelitas; cães como gatos, entiendes? Ela parece que entendeu.

 

Há pouco mais de um ano provoquei um mal entendido ao fotografar, em Chefchouen, duas meninas que brincavam numa fonte no interior da medina. O pai de uma delas ficou ofendidíssimo e exigiu que eu apagasse a imagem. É claro que lhe fiz a vontade (vantagem do registo digital) pedindo-lhe todas as desculpas que pude arranjar. O homem tinha razão. Numa altura em que jovens europeus em viagem por terras marroquinas, tão imaginativos quanto ignorantes, viam em todas as crianças berberes alouradas uma Maggie Mcaan em potência, criando suspeitas internacionais que se iriam reflectir na tranquilidade das respectivas famílias, não era nada apropriado andar de máquina em punho, a disparar sem perguntar.

 

Inspirada pela presença da criançada, que se diverte saltitando de pedra em pedra, nos muros que restam do convento, Neyls Fusco aproveita para me falar dos jovens «vigias do património», com 15 anos e até menos, que, à semelhança dos mirins brasileiros, zelam pelo património local, chamando a atenção dos adultos para certos hábitos que devem adquirir e outro que devem mudar. Ela própria dá o exemplo ao repor um cadeado delimitador de uma zona pedonal que tinha caído, e apanhando uma garrafa do chão, enfiando-a no caixote do lixo mais próximo.

– Quer ir fotografá-los? – pergunta. Não, para hoje chega de crianças.

 

 

Polémicas à parte, o farol é uma incontornável referência visual nesta cidade sem arranha-céus, e, definitivamente, o melhor local para poder apreciá-la em toda sua dimensão. Do alto dos seus 34 metros, esta torre branca, propriedade dos serviços da Marinha, vigia a costa emitindo sinais vermelhos cada nove segundos que atingem uma distância de quase 17 milhas.

 

Na balaustrada circular do topo, travo conhecimento, já a tarde vai longa, com a catalã Mariana e a uruguaia, emigrada em Espanha, Sully. E é na sua companhia que observo um bloco de nuvens avançar sobre a cidade, atravessado por raios de luz que lembram aqueloutros retratados nos livrinhos de catecismo, representando a divindade castigadora. Não podia pedir melhor luz para fotografar.

 

Face à ameaça de borrasca, o faroleiro decide subir para se certificar que tudo está bem. Chega a tempo de fechar a porta, agora que as primeiras bátegas, gordas, pesadas, batem com estrondo no tecto cilíndrico de vidro e chapa que resguarda o aparelho de fabrico finlandês capaz de produzir uma intensidade luminosa correspondente a 620 candeias acesas em simultâneo.

 

A chuvada é breve mas diluviana, e põe um ponto final na seca que se arrastava há meses.

publicado por JoaquimMDC às 19:29
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