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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Passagem por Montevideu
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No último dia da minha estada em Colónia, Cláudia Gandini retoma as funções de anfitriã e leva-me a almoçar uma vez mais ao restaurante Casa Grande. Em troca – parou de chover e o céu azul é de novo a realidade que todos ansiamos – pede-me que a fotografe na Calle dos Suspiros.
– Mas depois retoque as fotos com a ajuda do Photoshop – ordena ela –, faça qualquer coisa, só não me deixe feia.
Aproveito o inesperado pedido para fazer mais uns bonecos. Fotógrafo que se preze nunca se dá por satisfeito com as imagens que regista.

Finda a tarefa, em jeito de despedida, Cláudia entrega-me uma pequena lembrança com uma frase da sua autoria: «Colónia de Sacramento… donde cada rincon te atrapa com su magia, y sus cales de ensueno te envolvem em mil matices.». Desconhecia a veia poética da Relações Públicas da Intendência!
Claro que de bom grado ficaria atrapado por cá uns dias mais, mas o objectivo está cumprido e o caminho pela frente é longo.

Tenho dificuldade em deixar os lugares que gosto, pois há sempre algo a descobrir e, por mais que o aproveitemos, nunca é suficiente o tempo de que dispomos. Por isso, como incentivo à partida vem mesmo a jeito a insuportável humidade e a «ameaça» das hordas de turistas argentinos, já que o fim-de-semana está à porta.

Na viagem de regresso a Montevideu, o autocarro da COT faz várias paragens e apercebo-me de pormenores que me tinham escapado na deslocação anterior – as palmeiras despidas à saída da cidade, a zona franca Libertad… –, mas isso é perfeitamente normal. Parecem-me muitos mais os automóveis vintage estacionados nas quintas e registo, desta vez, a presença regular de estabelecimentos de bate chapas e gomarias (no Brasil chamam-lhe borracharias) que quebram a monotonia das extensões agrícolas onde o gado pasta e os outdoors publicitam a marca de roupa Burma e um sem número de empresas com nomes germânicos e marcas de vinho com designação italiana.
A Petrobras brasileira está por cá também, e embora nas lojas de Colónia me tenha fartado de ver latas de azeitonas made in Uruguay, das árvores onde elas crescem é que nem sinal.

À entrada de Montevideu, retenho o curioso nome de uma igreja evangélica que em nada fica a dever às congéneres brasileiras: «Auditório de Las Ondas de Jesus». Poético, no mínimo.

Logo que desembarco no terminal Tres Cruces, telefono à embaixadora que me indica o local onde vive e me confirma o convite anteriormente feito, para que ficasse uns dias na sua residência.
– Estou ainda na chancelaria, mas telefone lá para casa que a empregada atende. Vá indo que ela trata de tudo – diz.

Claro que só posso ficar extremamente agradado com esta manifestação de confiança. Afinal, só nos conhecemos via e-mail e, apesar de representar a iniciativa 7 Maravilhas de Origem Portuguesa, para Luísa de Bastos Almeida não passo de um ilustre desconhecido.

Apanho o primeiro táxi disponível, que com muita dificuldade (parece querer desconchavar-se pelo caminho) leva-me até Carrasco, o mais requintado bairro de Montevideu, junto ao rio da Prata. Não é fácil encontrar o caminho e o pobre do taxista vê-se obrigado a pedir informações a colegas seus.
– Não costumo fazer fretes para este local – diz ele, atenciosíssimo, tentando justificar a demora.
Chegamos, finalmente, junto a um imponente casarão branco, identificável pela bandeira das quinas que esvoaça no alto de um mastro à mesma altura de uma outra, da União Europeia, num jardim sem qualquer vedação.
Que bom é pertencer a um país que se dá ao luxo de ter uma representação diplomática sem muros altos, arame farpado ou militares armados dentro de guaritas ou fora delas!

Saio do táxi e nem preciso de tocar à campainha. A sorridente empregada peruana, de uniforme azul e avental branco, abre já o portão, dando-me as boas vindas e conduzindo-me depois ao primeiro andar onde está o quarto de hóspedes – de enormes dimensões, com duas camas e vista privilegiada para uma pequena piscina Lá fora o vento é constante. Mas que diferença de temperatura entre Colónia e Montevideu. De repente, a humidade desapareceu e o frio instalou-se.

Tenho tempo para tomar um banho e desfrutar de todo aquele espaço até à chegada dos meus anfitriões. A embaixadora, sorridente, dona uma genica extraordinária, e o marido, Keith Sangway, funcionário inglês de carreira e a fleuma em pessoa.
Feitas as apresentações, arranjam-se e voltam a sair, pois há um casamento programado. Mas antes da partida, Luísa sintoniza a televisão na RTP Internacional, «para saber das notícias». – Se quiser utilizar o computador – sugere – esteja à vontade. Basta clicar na pasta dos Amigos. É para isso que ela foi criada.

Surpreende-me, uma vez mais, o gentil convite, pois o computador está na mesa da sala que serve de local de trabalho a ambos. Mas depressa entendo que Luísa Bastos de Almeida assume, na sua essência, o verdadeiro papel do diplomata. E sente-se logo que tudo o que faz não é forçado.
– Ainda anteontem esteve aqui a jantar um grupo de jovens empresários portugueses. Esta casa tem sempre gente – diz ela quando nos despedimos.

Ao jantar, face a um bife ensanguentado no prato que a empregada põe à minha frente, não me resta alternativa. Como-o, e a verdade é que me sabe bem. «Estou no país da carne, porque não experimentá-la?», diz-me a parte da minha consciência alojada no lado vegetariano do cérebro. A verdade é que já não comia um bife desde os meus dezoito anos.

Ao folhear os jornais apercebo-me que esta noite há um concerto do Hermeto Pascoal – o grande Hermeto! Tive o privilégio de o conhecer numa das primeiras edições do Festival de Jazz de Guimarães, graças ao convite do meu amigo António Ferro, na altura o responsável pelo evento.
Hermeto é um verdadeiro génio musical, fascinante personagem despido de quaisquer vestígios de vedetismo.
– Quando vieres ao Brasil, vem visitar-nos. A nossa casa está sempre aberta para os amigos – dissera-me ele, nos bastidores, acompanhado da mulher, que o ajudou a entrar no palco alguns minutos depois, pois Hermeto, sendo albino, enxerga muito mal.

Luísa Bastos de Almeida liberta-se com facilidade da farda oficial para se tornar numa amiga sincera. Sempre que algum membro do Governo ou simples amigo a visita, leva-os a Colónia de Sacramento, pois «para além de constituir uma mais-valia cultural é comoventemente uma coisa portuguesa».

Uma vez regressada a casa, não se cansa de realçar a importância da cidade que eu acabara de visitar.
– Para os uruguaios – diz ela – Colónia é um chamariz para o turismo; para Portugal, um óptimo meio de divulgação, pois os turistas que a visitam passam a ter curiosidade em conhecer o país que esteve na origem dessa pérola do património.

http://www.youtube.com/watch?v=MG80ngrKjzo

Quanto à presença de portugueses, basta consultar uma lista telefónica. Metade dos apelidos no Uruguai é de origem portuguesa. E a panóplia é grande.
– As pessoas na rua fazem gala em perguntarem-me, mas você é portuguesa? – comenta.
E quando ela lhes responde na positiva, exclamam: – Eu também sou –. Ou se não são eles, é um seu avô, uma sua avó, um parente distante.
– Têm origens portuguesas mas conhecem mal o nosso país, nem nunca lá foram sequer – resume a diplomata.

A abundância de apelidos que nos são familiares também se pode comprovar com uma aleatória consulta aos jornais e revistas pousados na mesa da sala de estar. Folheie-se, por exemplo, o suplemento Sábado Show do El País, homónimo do reputado jornal espanhol e o mais popular diário do Uruguai, e repare-se na ficha técnica: vemos ali um Sobral, um Conde, um Medeiros, todos articulistas. Protagonistas do meio social de Montevideu, com destaque nas páginas interiores, o actor Luciano Castro e o autor da rubrica Miradas, o «grande redactor» Luís Ventura.

A revista de mexericos Galeria dá destaque ao casamento de um rebento Silveira com uma menina dos Navarro. O pai do noivo, o empresário Jorge Silveira, director da grife La Corte Marcelo, posa com a mulher junto a uns Albuquerque e a uns Álvares.
A directora da empresa Work Office chama-se Susana Vidal de Barreto e uma das entrevistadas da edição desta semana da Galeria é a técnica de medicina nuclear, Zulena Gonçalvez.

Se o apelido Gonçalves na Ásia se transformou em Gonsalves, no Uruguai passou para Gonçalvez. Como Figueiredo derivou em Figaredo, Ribeiro em Ribero, Freitas em Fleitas, Saraiva em Sarabia.
publicado por JoaquimMDC às 13:55
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