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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
O historiador Assunção
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Acontece-me sempre isto. Chego a um determinado local, com a lição minimamente estudada, e, ao mais ténue contacto com os estudiosos locais, vivos ou expressos nas letras que nos legaram, dou-me conta que, afinal, conheço muito pouco da história da região.

Fernando O. Assunção, historiador uruguaio, filho de Octávio Assunção, um emigrante de Fão, Esposende, é agora o meu mestre de serviço. Meu e de todos os que se interessam pela história da região, pois era reconhecidamente a sumidade na matéria. E, como tal, o Estado português convidou-o a estar presente no congresso sobre o Património de Origem Portuguesa que decorreu em Coimbra em 2006. Infelizmente, essa seria a sua última viagem. Morreu no nosso país, fulminado por um ataque cardíaco.
Assunção, além de historiador era antropólogo, etnólogo e artista plástico, tendo publicado vasta obra sobre as tradições gaúchas.

Desloco-me à casa onde vivia, num oitavo andar em Bexura, no bairro de Pocitos, uma das zonas residenciais de eleição da capital uruguaia, para visitar a viúva e a filha.
As lágrimas saltam dos olhos de Margarita Corallo de Assunção, quando fala do marido, cuja imagem traz ao pescoço. Ao seu lado está a filha, Margarita Assunção de Garretano, licenciada em Letras, como indica o seu cartão-de-visita, e que tudo tem feito para resgatar e dar a conhecer a obra do seu pai.

(ver: http://www.youtube.com/watch?v=wAupUHO5Cww)

A acção de Assunção foi fundamental para que Unesco atribuísse a tão apetecida distinção.
– Foi um trabalho de mais de 30 anos em união de esforços com o arquitecto António Cravotto, de investigação e recuperação da área histórica – diz Margarita, em bom português.
– Nem imagina o trabalho que isso representou para ele –, diz, por sua vez, a viúva Margarita que, «apesar de não me correr sangue português nas veias», vive com muita intensidade toda esta história da diáspora portuguesa, antiga e recente, no Uruguai. Como prova disso entrega-me um livro de mesa, «o mais importante jamais feito sobre Colónia de Sacramento», com fotografias de um dos mais destacados fotógrafos de Uruguai, Alfredo Testoni. Os textos históricos são da autoria do marido.
– Colónia é como uma pedra de muito valor incrustada no Rio da Prata – conclui a Margarita filha.

Da viagem que fez a Portugal com o marido em 1967, Margarida Assunção recorda a amabilidade dos portugueses, o vinho verde e o bacalhau.
Parecem lugares comuns, e se calhar são, mas não se pode negar as virtudes dessas iguarias. Nem do vinho do Porto. O sogro dela recebeu-a com um copo desse néctar. – Gostava de morrer a beber um copo de vinho de Porto – proclama a viúva, como quem diz, «o chá-mate, nós, os uruguaios, temos todo o tempo do mundo para o beber.»

Assunção deslocava-se a Portugal duas ou três vezes por ano, onde tinha contactos e amigos no mundo académico. Esse trabalho mereceu-lhe inúmeras distinções.
A filha acompanhou o pai por altura da Expo 98, pois tinha sido nomeado comissário do pavilhão uruguaio.
– Fizemos um itinerário longo e muito completo – diz Margarida. – Partimos de Évora e subindo pelo interior do país. Posso dizer que conheci alguma coisa do país real.

– O nome Assunção é, muito provavelmente, de origem judaica, como muitos outros nomes desta região – informa.
E conta depois a saga do patriarca da família:
– O meu avô Octávio veio para o Brasil com os seus irmãos, mas como não de adaptou ao clima do Rio de Janeiro e decidiu apanhar o comboio para a Argentina, mas em rota fez uma paragem em Montevideu, que nessa altura, início do século XX, atravessava um período muito próspero. Ele gostou muito da cidade e ficou por lá. Encontrou aqui um amigo do tempo da escola primária. Facto determinante para essa sua decisão. Montou logo um negócio.

Sobre a quantidade de portugueses existentes na região do rio da Prata nada melhor que transcrever o que registou a quase centenária escritora argentina, Virginia Carreño, no seu livro Estancias e Estancieros:
«Muito pouca gente no Rio da Prata sabe até que ponto é de origem portuguesa. O português pertence ao pouco claro princípio de tudo, à conquista, à introdução do gado bovino, ao primeiro comércio destas costas atlânticas…, a influência artística, a contribuição na formação do carácter, e a decisiva participação na actividade comercial foram aceitas e integradas no dia-a-dia das nossas repúblicas. Por isso, uma enorme quantidade de apelidos, palavras, modos, usos e costumes, cujas origens buscamos complicadamente têm uma única e só explicação: é um legado português».

O consagrado escritor Jorge Luís Borges, também ele descendente de portugueses, traduz esse sentir com uma frase lapidar:
«Nada ou muy poco sé de mis mayores portugueses
los Borges, vaga gente que prosigue
en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores,
indescifrablemente forman parte del tiempo
de la tierra y del olvido»

Mãe e filha conduzem-me pelos aposentos da casa, como numa visita guiada, tendo o cuidado de me mostrar todas as condecorações (como a cruz da Ordem do Infante) os diplomas, os quadros dos pintores amigos, entre os quais Reilley, que ilustrou muitos dos livros que escreveu sobre cavalos e gaúchos (pormenores sobre o tipo de pelugens, os estribos, as selas, as botas e vestimentas dos homens das pampas) e ainda os estudos de Assunção sobre a «chamarrita», dança de origem portuguesa.
Mostram-me também a biblioteca, o local onde ele trabalhava e as cuícas em prata para o mate, os pentes de Margarita, «eu era dançarina», punhais, espadas e arreios, pois Assunção era cavaleiro. E lá está ele, numa foto antiga, montado a cavalo em plena avenida de Montevideu acompanhado da mulher e filhas.

Na mesa do escritório de Assunção está uma placa com seguinte frase de Borges: «A memória, a vasta memória da humanidade é agora o livro. O livro é como o homem, corpo e alma. Há algo de sagrado em cada livro».
publicado por JoaquimMDC às 13:29
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3 comentários:
De Dr. Sousa a 29 de Abril de 2009 às 18:52
Muitos parabéns por este texto. Gostaria de fazer uma pergunta! Se este é o Blog oficial, porque razão não é divulgado no site? É que só soube deste Blog por uma entrevista do Sr. Joaquim na RTP.
Muitos parabéns aos autores deste Blog.
De Anónimo a 6 de Maio de 2009 às 23:43
Excelente trabalho.
Parabéns
ATM
De Hildelia Assunção a 5 de Julho de 2016 às 03:01
Muito bom gostei, meu tataravô por parte de minha avó se chamava Otávio Assunção, meu bisavô da parte de meu avô chamava-se coronel João Assunção (é meus avós são primos) a parte da família a qual eu pertenço casavam entre parentes!

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