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Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Viagem de Montevideu a Porto Alegre
san Carlos.JPG


Regressar a Porto Alegre é o retomar da viagem feita dias antes, só que virada do avesso e com uma paragem nocturna em Punta del Este, para embarcar uns turistas pés descalços nórdicos. Por isso não dá para dormir grande coisa, até porque viajo com a curiosidade atiçada a respeito dos locais que atravessamos e que a noite oculta.
Que aspecto terá a «açoriana» cidade de San Carlos? Qual a imponência das fortificações portuguesas junto a Rocha e em Santa Teresa?
Finalmente, e já do outro lado da fronteira, fundo do Brasil, mesmo, será assim tão pitoresca como consta por aí a cidade histórica de Pelotas, cujo curioso nome tanto pode estar ligado à exploração mineira como a um qualquer tipo de actividade bélica, já que toda esta região foi pródiga em acontecimentos do género?



É inacreditável a palete de imagens que se atropelam na mente quando a vontade de conhecer, incendiada por algumas luzes obtidas nos livros ou nas conversas com amigos, supera todo o cansaço e desconforto. Dêem-me caminho por trilhar e considero-me um homem feliz.

Nos quiosques da rodoviária, agora revisitada, reparo que o Jornal do Comércio, o Correio do Brasil e o Comércio do Brasil – «o primeiro jornal todo a cores do Brasil» - fazem manchetes com as notícias da continuação das chuvas no estado de Santa Catarina, suficientemente fustigado em Novembro e Dezembro passados. Imagens e comentários apontam o dedo à falta de segurança e à suicidária teimosia em construir fogos de habitação em zonas inseguras. No miolo do jornal, as fotos são as habituais: crimes de foro comum e as tricas e trocas baldrocas do universo desportivo. Já os comentários dos cronistas ou as cartas dos leitores andam, ainda e sempre, à volta da falta de segurança e do aumento da circulação do crack na cidade, com os agarrados de serviço a ficarem cada vez mais agarrados, e, pior do que isso, assanhados e até atrevidos.
Por falar neles, convém não fixar por mais de um segundo o olhar nos dois que andam de caixa de engraxar na mão com a mirada nervosa nos pés de todos os passageiros, certamente na esperança de encontrar sapato em penúria que lhes permita embolsar uns reais com que vão comprar a próxima dose. Pobres coitados.

Recorro ao meu cartão electron para comprar o bilhete de autocarro para São Paulo o que motiva o seguinte comentário do funcionário por detrás do guiché: «este é o banco que vai financiar a construção do estádio de Porto Alegre onde se irão desenrolar alguns dos jogos do Mundial de 2014».
Nem de propósito. Nesse preciso momento, um entusiasta da bola passa mesmo ao lado, embrulhado numa gigantesca bandeira, mas vai descalço. Provavelmente não há dinheiro para sapatos mas o jogo dessa noite é que se não pode perder de jeito algum. Estou perante um adepto do Inter, diminutivo do Internacional de Porto Alegre que se prepara para disputar um importante jogo para a Taça de Libertadores. O rival em campo é o Estudiantes da Argentina.

Para chegar a Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, sou obrigado a fazer escala em São Paulo numa viagem prevista de 16 horas com passagem por Florianopólis. Em Minas Gerais estão as próximas duas Maravilhas que devo visitar – a igreja de São Francisco, em Ouro Preto e o santuário de Bom Jesus, em Congonhas do Campo.

Hora e meia de espera dá para consultar a minha caixa de correio electrónico num cibercafé instalado num corredor, literalmente entalado entre duas das lojas do terminal rodoviário. É apertado o espaço e os clientes são muitos, mas lá consigo mandar notícias para Portugal e alertar a Vera Sanches e a sua amiga Geórgia, do secretariado do Turismo de Minas Gerais, acerca da minha posição geográfica neste preciso momento e a previsão da data de chegada a Belo Horizonte.
Estabeleço o contacto agora pois não sei quando terei nova oportunidade de o fazer. Apesar dos meus constantes alertas, todos continuam a supor que vou chegar de avião. No correio que me enviam, insistem para que lhes indique a hora do voo para me irem buscar ao aeroporto Tancredo Neves, situado a uns 20 quilómetros de Belo Horizonte. Presumo que isto acontece porque para a maioria das pessoas é impensável que ainda haja quem esteja disposto a percorrer milhares de quilómetros por terra quando são inúmeras as aeronaves no ar.

Entre Porto Alegre e Belo Horizonte medeiam 1724 quilómetros, o que é muito chão para andar, como se diz por cá. Quando chegar amanhã de manhã a São Paulo faltar-me-ão ainda 602 quilómetros.
O problema neste tipo de viagens – com um objectivo concreto a cumprir, o que implica dar satisfações a alguém – é que as pessoas que estão do lado de lá – neste caso, no continente do lado de lá – à falta de experiência no terreno são incapazes de perceber o que significa viajar e trabalhar simultaneamente, e então tendem a interpretar como leviandade ou falta de consideração qualquer falha no estabelecimento de contacto.
Deslocar-se de um sítio para outro com pouco ou nenhum conforto pode ser (para quem está disposto a isso) um imenso prazer mas também um autêntico sorvedouro de energia. E como bem sabe quem na estrada já andou, coisas tão simples como fazer um telefonema ou mandar um e-mail podem transformarem-se numa enorme dor de cabeça e frustração.
publicado por JoaquimMDC às 09:36
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