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Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Viagem de Porto Alegre a São Paulo

 

 
 
 
Entro finalmente no autocarro amarelo vivo da Itapamirim, talvez a mais competente empresa de viação do país. A qualidade do seu serviço traduz-se em pormenores como disponibilizarem a revista de bordo Na Poltrona a todos os passageiros – uma publicação com mais qualidade do que algumas das revistas de bordo de companhias aéreas que conheço.
O número deste mês, que traz uma reportagem sobre a cidade João Pessoa e diversas praias do nordeste, manifesta uma clara preocupação ecológica.
 
O Brasil, enorme cardápio de inspiração, tem os seus personagens. O desta viagem chama-se Paulo Henrique e apresenta-se como o Artista, à semelhança do que faz o Prince, que chegou ao extremo de mudar de nome. O papelzinho verde que Paulo Henrique, PH para amigos, entrega a todas as pessoas com quem entra em contacto, menciona, entre outras coisas, o seu projecto artístico e social, denominado Ajuda.
O pretexto para a conversa com este português que vos escreve é saber se as bolachinhas salgadas e doces que nos oferece a Itapamirim, contêm ou não lactose, já que o gaúcho é alérgico a esta substância.
Será que também o é às gorduras trans? Todas as embalagens, nem que seja de uns simples biscoitos salgados, trazem a indicação «0 de gorduras trans», o que significa que o produto em questão não contém produtos transgénicos, ou pelo menos gorduras transgénicas, o que vai dar ao mesmo.
 
O grupo Itapamirim é parceiro numa campanha de combate ao tráfico de animais selvagens, praga que assola o Brasil, que pretende ser educativa para quem viaja nas estradas do Brasil. Não só informa como apela a que se denunciem movimentos suspeitos, pois «você também é responsável».
Está escrito o seguinte no verso da embalagem que nos oferecem: «O terceiro maior negócio ilegal do mundo, o tráfico de animais silvestres retira do seu habitat, só no Brasil, cerca de 38 milhões de animais por ano». A cifra é impressionante.
 
Depois de ultrapassada a periferia urbana, a estrada mergulha literalmente na paisagem verde que caracteriza todo o território brasileiro. É um verde vivo e viçoso que cobre uma terra vermelha de um vermelho tão intenso que por vezes parece que o verde é simples disfarce desse vermelho. E o contraste que daqui resulta meus senhores, melhor é nem falar porque senão não sairíamos mais daqui. E eu quero sair daqui.
 
E já que falamos em cores, recordo que a Via Verde, produto importado de Portugal, adoptou no Brasil a designação Via Fácil. Não é essa, por enquanto, a opção da Itapamirim.
Numa das várias portagens chama-me a atenção um autocolante colado na cabina onde uma loura se entrega à insidiosa tarefa de cobrar a quem circula nesta estrada com claros melhoramentos, mas que não chega a ser via rápida. O aviso destina-se ao condutor candidato a ladrão: «Cofre Boca de Lobo – chave em poder do banco». Como medida dissuasora até que nem é má.
 
O gaúcho cantor, «policial reformado», apesar de jovem ainda (PH tem um problema de saúde que o impede de continuar o seu trabalho), quer que ouça algumas das suas composições e o ajude a escolher quais delas deverá apresentar em Campinas, numa das pré-selecções do conhecido concurso televisivo Astros, uma das maiores apostas da SBT, a televisão de Sílvio Santos, o Berlusconi brasileiro, um dos homens mais ricos do Brasil.
Tenho a impressão que este é um apelo que o Paulo Henrique faz a muita gente, o que traduz alguma insegurança, e sem razão para isso, pois até nem canta nada mal e as músicas que compõe são bem interessantes.
– Que acha Joaquim? – pergunta – canto-lhes um tema mais romântico ou um de crítica social? .
Aconselho-o a optar pela crítica social, não pela temática em sim, mas porque o tema tem mais ritmo e a melodia é mais óbvia.
 
O nosso gaúcho assegura que já publicou dois livros com poemas, gravou um CD e tem um outro pronto a sair. Mostra-me fotos em que o vemos em plena actividade, tocando em bares, churrascarias, em estúdio, e numa pose colectiva com alguns cabeludos de uma banda rock, «com o maior número de vendas fora do Brasil» (pensei que eram os Sepultura, mineiros assumidos!)
Mas o maior feito do Paulo, foi o ter conseguido convencer algumas altas patentes a recitar um poema intitulado Farda, numa parada militar. A fotografia que me mostra comprova o feito: Lá está ele, trajando à gaúcho, a dizer de sua justiça em frente a um microfone, com os militares alinhados na parada, em posição de descanso mas de olhar muito sério. É, de facto, uma foto invulgar. Mais parece uma cena do MASH ou Academia da Polícia.
 
Henrique aconselha-me, «quando tiver oportunidade», a visitar o Gasómetro de Porto Alegre, actual centro cultural de renome onde podemos assistir aos «mais magníficos pores-do-sol do planeta». O Dalai Lama esteve lá e concordou.
 – Sua Santidade disse que esse era um sítio com muita energia positiva e por essa razão tanta gente lá vai – garante.
E a nossa conversa estende-se com o acrescento de algumas informações cerca do mundo gaúcho. O gaúcho diz-me, por exemplo, que foi na cidade Vilamão, nas cercanias de Porto Alegre, que os portugueses desembarcaram pela primeira vez. E porque o local tinha forma desse apêndice do corpo, ficou «vi a mão», derivando mais tarde para «vilamão».
Fala ainda da Revolta da Farroupilha, de 1856, que opôs os chimangos (os brancos) e os maragatas (os vermelhos), e onde teve importante papel um dos portugueses que acompanhou Artigas na sua luta pela independência da Província Oriental, hoje Uruguai. Enfim, uma reedição da guerra que neste país opôs brancos aos colorados, e que foi fruto do mesmo movimento independentista.
Informa-me ainda o Paulo que a mulher do gaúcho se chama chinoca e que aquele é um verdadeiro ser livre «pois não tem pátria, fronteira ou domicílio fixo». O que vem dar razão ao conceito do gaúcho associado ao índio (ou o que resta dele), que ainda hoje passa as fronteiras destes países sem necessitar de documentos de viagem.
Também a palavra «tchê», utilizada frequentemente pelos gaúchos, esteve na origem do prefixo que deram ao guerrilheiro Guevara, mais conhecido como El Che.
– Chamavam-no assim pois quando era miúdo vivia com o pai, abastado proprietário de terras, cultivador erva-mate e criador gado, no norte da Argentina, junto ao Paraguai e ao Brasil – informa PH.
 
Desde que deixamos Porto Alegre temos vindo a levar constantemente com os intrusos outdoors que poluem a paisagem no sul do Brasil. O conteúdo de alguns fica-me registado na mente sem que tenha de me dar ao trabalho de tomar notas. O mais discreto anuncia «Alegria, a Rádio do Coração» e quase todos os outros exibem mulheres deitadas em poses provocantes, acompanhadas por um nome e um número de telefone, publicitando não se sabe muito bem o quê, talvez lojas de vestuário.
 
«Linda Moça», «Moça Bonita» e «Deslumbrada Buneka Loka» surgem-nos pouco antes de um inesperado «Surf.com». E eu pergunto: O recurso aos atributos das moças ainda se compreende (mesmo sendo mulheres de papel) – até porque a fêmea é o engodo mais antigo da humanidade – mas, digam-me, o que faz um anúncio de artigos de surf num mastodôntico campo de soja?
 
A agressividade destes outdoors é tal que alguns chegam a publicitar a mesma coisa num espaço de 100 em 100 metro, ao longo de uma extensão de vários quilómetros. Um exagero. Os responsáveis pelo marketing do «Leão – Atacadão de Mobílas e Objectos para o Lar», por exemplo, espetaram na terra uma estrutura a cada 50 metros ao longo de dois quilómetros. Do outro lado, a concorrência contra-ataca dizendo que «não compre nesse que está a 50 metros, mas sim no que está a 5 quilómetros». Demasiado industrioso se mostra o cérebro do ser humano quando se trata de dar a volta à cabeça do seu semelhante.
A estrada dos outdoors antecede a chegada do tráfego mais veloz, mas por enquanto a coisa mantém-se ao nível do arrasto.
 
Di Madeira é o nome de uma madeireira com diferentes tipos de toros e pranchas de lenho de árvores derrubadas para satisfazer as exigências mais exóticas dos clientes a nível planetário. Apenas duas me são familiares: louro freixo e cedro. Os outros nomes serão certamente tupis ou de qualquer outro dialecto indígena.
 
Entramos numa estrada com faixas para os dois lados, mas não por muito tempo. Segue-se uma extensa região marcada por uma grande quantidade de torres para energia eólica.
 
Outro lençol de água, desta vez cor de lama vermelha. Finda a planície, iniciamos uma subida considerável, e aqui a estrada começa a mostrar as suas limitações. A fila de veículos continua, não obstante, em movimento. Estaremos não muito longe da fronteira do estado de Santa Catarina.
 
Registo com verdadeiro gozo os nomes de estabelecimentos comerciais em povoações que ninguém conhece. «João das Bicicletas». «Boate do Tony». «Oficina Mademir, tudo para construir». Os brasileiros são mestres na arte de dar nomes às coisas. Talvez seja por isso que são tão fortes em publicidade.
É claro que não podem faltar, a intervalos regulares, as assembleias de Deus, sejam elas evangélicas, de Pentecostes ou espíritas. Sobre esta matéria podia encher as páginas de um capítulo inteiro. Também há um centro comunitário para a Nossa Senhora de Canveraggio, a santinha do Scolari.
 
Estamos numa cota elevada, mas as vaquinhas insistem em acompanhar-nos. Muita e contínua zona de pasto, propícia à criação de gado. Um camponês com boi de bossa, o braham indiano, que provavelmente terá sido para aqui trazido há muitos anos, traz-me à memória a carroça puxada por um cavalo que vi no centro de Montevideu.
 
As agruras do asfalto, ou da falta dele, sentem-se agora muito mais, pois a estrada continua em construção. Obras de vulto, viadutos e pontes já prontas Mais irritantes que o mau piso são as lombas. Constantes. No Paraguai chamam-lhes «lombos de burro» e no Uruguai não medem as palavras, regozijando-se com o epíteto «polícias deitados».
Esta estrada, pela sua dimensão e importância, bem necessitada estava de uma infra-estrutura destas. Nas bermas repousam despojos de antigas churrascarias, lancharias e hotéis. Ruínas de cimento e ferro velho. Quando a nova estrada estiver pronta com certeza serão necessárias muito menos horas para ligar as duas cidades.
 
«Posto de Molas Gaguinho». «Guigo Caminhões». «Carroçaria Quito de Carolinhas». Continuo a ter um enorme gozo em registar estes nomes simplesmente originais. Até o pessoal do maná evangélico capricha na veia criativa: «Igreja Betel Conservadora». Onde foram arranjar um nome destes?
 
Em Laguna, uma estrada arenosa convida-nos à praia, mas nós seguimos por um istmo tão apertado que nele só cabe a estrada e a pitoresca trilha férrea que não se sabe se continua ou não em funcionamento. Os restaurantes têm agora a disposição do viandante pratos de peixe frito e a Pousada Raízes propõe, além do pescado, «pernoite e férias», não muito longe da ponte sobre o rio Cova Triste. Depois de omnipresença da carne no Rio Grande do Sul, convenhamos que é um enorme prazer ouvir falar de peixe.
 
Voltamos a atravessar uma zona de montanha caracterizada por pequenas barracas de venda de suco de cana-de-açúcar «Caldo de Cana Souza» e «Caldo de Cana da Tia Maria». Existem garagens designadas «Retifica» ou «Refiticadoras». Neste permanente subir e descer, um aviso em forma de placa amarela: «aldeia indígena, reduza a velocidade».
 
Regressados ao litoral, novo convite: «Visite a Praia de Sonho». Vontade não me falta de seguir a indicação, mesmo sabendo que certamente não é uma praia de sonho, porque se fosse não estaria sinalizada.
Não me importava nada de por aqui ficar uns tempos, deitado de papo para o ar, numa praia qualquer, de sonho ou sem ser de sonho.
Ao longe avista-se Florianópolis e adivinha-se a ilha de Santa Catarina, poiso de inúmeros descendentes de açorianos.
 
A noite serve para atravessarmos os estados de Santa Catarina e do Paraná, os mais ricos do Brasil, até ao estado de São Paulo, depois de atravessada a Serra Queimada, onde teve início a aventura brasileira em termos consistentes. Foi daqui que se assistiu à génese deste fascinante país.
 
 
 

publicado por JoaquimMDC às 10:00
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1 comentário:
De Edite Gonçalves a 1 de Junho de 2009 às 15:02
outra ligeira correção, o termo gordura trans nada tem a ver com transgênica, e sim com a adulteração de gorduras insaturadas (que são os óleos vegetais) em saturadas ricas. Através de um processo químico chamado hidrogenação. estas gorduras trnas apesar de origem vegetal, por sua alteração são ricas em colesterol...por isso cuidado com as margarinas....que são ricas em gordura trans, ou seja transformam o bom óleo vegetal que é líquido á temperatura ambiente, em uma gordura saturada que faz muito mal à saúde.

Parabéns pelo blog!!!! e realmente, viajar por este brasil afora não é pra qualquer um. Parabéns!!!!

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