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Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Viagem de São Paulo a Belo Horizonte

Ao acordar dou-me conta que empancamos numa gigantesca fila de carros à entrada de São Paulo. Estamos metidos naquilo que os brasileiros designam de «tranqueira». Corro o risco de perder a conexão para Belo Horizonte, o que não me convém, pois São Paulo é por ora ponto de passagem, simples mala-posta.

 

Ao meu lado vejo o rio Trietê, o mais poluído do mundo. Rio? Isto é um verdadeiro esgoto a céu aberto. Na parede de cimento que o condiciona, graffiti envia a mensagem do Comando do Trietê, certamente inspirado no PCC, Primeiro Comando da Capital, o grupo mafioso que controla o crime no Rio a partir das prisões e que até a Portugal já estendeu os seus tentáculos.

 

A passarada resiste. Na Índia, são os corvos; aqui os gaviões de asa dentada. São as asas que os distinguem, quando os vemos nos céus onde progridem também helicópteros que levam a elite de topo de arranha-céus para topo de arranha-céus.

– Só os bacanas usam helicóptero – comenta o gaúcho. São Paulo é das cidades do mundo onde mais se recorre a este tipo de transporte.

Nas duas horas que estivemos no pára e arranca, vejo baixarem do céu azul umas três dezenas de aviões, de todos os tamanhos e fuselagens.

 

O motivo do engarrafamento é um acidente que acaba por ser resolvido. Já de pé, mortinhos por sair daquela camioneta, inventamos coisas para fazer. E uma das coisas que podem fazer um português e um brasileiro que se vêm envolvidos num engarrafamento deste calibre, é por em prática um qualquer intercâmbio de expressões idiomáticas. Eis algumas, que enriquecem o meu vocabulário graças ao acidente junto ao esgoto de Trietê: «Frio e quente, perigo para a gente», provérbio popular. «Estar morgado», estar despojado de tudo. «Tirar a água do joelho», vontade de urinar. Esta última, bem apropriada à situação que vivo.

 

Em doses semelhantes aos motéis, temos os templos religiosos, das mais diversas seitas. É o caso da Igreja Quadrangular, com o número 4 bem desenhado, para que não haja dúvidas. Cortesia para quem não lê mas sabe contar, e assim pode entender. No asfalto aguardam, como nós, carrinhas com dísticos feitos promessas bem visíveis na carroçaria: «O nosso sucesso é Jesus» e «Resgatando Crianças para Jesus».

 

A Ponte das Bandeiras, infra-estrutura evocativa da saga dos bandeirantes, dá-nos o sinal que Rodoviária está perto. Rostos japoneses entre a multidão são factor diferenciador do terminal de São Paulo. Isso, e uma espaçosa área onde podemos circular à vontade, as lojas são residuais, e se nos metermos no túnel que várias setas sugerem estaremos num moderno metropolitano que nos conduzirá ao centro da grande metrópole. Não é isso que tenho a fazer, antes procurar camioneta para Belo Horizonte. Procurar, encontrá-la, comprar o bilhete e pirar-me daqui para fora, ainda hoje.

 

Há duas empresas que fazem o serviço. Por uma questão de horário escolho a Cometa, que diferencia a sua frota com nomes de fenómenos celestiais mais ou menos vertiginosos. O veículo das 11 e 30 com destino a Belo Horizonte é o fenómeno Halley.

A Cometa é uma empresa antiga e foi contra uma das suas viaturas que se enfaixou o automóvel que levava Juscelino Kubitchek, «o presidente bossa-nova», na sua derradeira e trágica visita presidencial. Este detalhe só o viria a saber quando já estava confortavelmente sentado no interior da camioneta.

 

 

Sair de São Paulo é bem mais fácil do que entrar. O tráfego flui e lá fora é um não mais acabar de favelas de tijolo com andares improvisados uns nos outros e, antes disso, um hospital nipo-brasileiro, com uma faixa de pano, em todo o largo da fachada principal, que recorda os 100 anos da emigração japonesa.

 

Num repente torneamos um morro, serra Mantiqueira acima, encavalitando-nos no seu lombo rumo ao norte. A Mantiqueira faz parte de um conjunto mais vasto que é a Serra do Espinhaço, dorso norte-sul da mata Atlântica que aqui se mistura com a mata de araucárias e vasta flora nativa. A partir da verdejante encosta sul avista-se a gigantesca polis ao fundo, enquadrada, por mais estranho que possa parecer, num céu claro e azul. Onde andará metido o famoso smog paulista?

 

 

A mata é densa e de um verde quebrado apenas pelas folhas esbranquiçadas de uma árvore que se distingue de todas outras. Dir-se-ia que foram pintadas de prateado com aqueles sprays com que se pintam carros nas oficinas. O homem da poltrona ao lado diz-me que essa árvore se chama macaupa. E já que estamos no domínio da sintaxe tupi e guarani, acrescente-se que Mantiqueira significa «serra que chora», talvez devido às muitas cachoeiras existentes em toda a sua extensão.

 

Por esta serra adentro abriram-se os primeiros caminhos rumo às minas que dariam origem à Estrada Real, por onde se foram escoando as riquezas do império. Inicialmente, essa via ligava Ouro Preto a Parati. Chamavam-lhe a Estrada Velha. Depois, porque se tornou muito perigosa devido aos constantes assaltos de bandidos e ao movimento de contrabandistas, Dom Pedro II, imperador do Brasil, resolveu mudar o trajecto para o Rio de Janeiro, sendo criada então a Nova Estrada Real. Petrópolis, hoje assento do que resta da família real brasileira, cresceu a partir de uma fazenda que ali comprou o monarca.

 

Não é difícil imaginar uma bandeira Seiscentista a enfrentar este primeiro obstáculo da natureza, rumo ao interior desconhecido que viria a ceifar centenas de vidas humanas, de um lado e do outro, num inevitável e trágico encontro civilizacional. E não é difícil imaginar, porque o estado da natureza praticamente não se alterou.

O túnel Mala Fria estabelece a fronteira. Áreas inteiras encontram-se protegidas, graças ao estatuto de reserva natural, embora nas imediações surjam de imediato os condomínios fechados e as fazendas onde a classe endinheirada paulista vem passar os fins-de-semana. Uma dessas fazendas tem um restaurante chamado «O Bacalhau». O mais chique dos condomínios intitula-se Monte das Oliveiras, numa analogia a Jerusalém. Mas aqui não é calvário, antes símbolo de traição. Sim, porque em condomínios se fecha um mundo em relação ao outro.

 

Sinais de trânsito dão-nos conta que estamos na BR 381, mais conhecida como Via Fernão Dias, em memória do primeiro bandeirante a aventurar-se nestas paragens. A estrada actual segue o caminho originalmente palmilhado.

Apesar do aparente isolamento, continua a haver de tudo para proporcionar o bem-estar. Para o ser humano, o restaurante «Rei da Linguiça»; para o veículo – no âmbito da muito nobre tradição brasileira de garagem por partes – uma oficina de «Lanternagem e Pintura». Cada parte do veículo tem aqui o seu estabelecimento próprio de reparações, tal como cada enfermidade tem o seu especialista. Quanto ao apadrinhamento da coisa, o brasileiro não está com meias medidas – quando a palavra não existe, inventa-a. E quanto a mim faz bem.

 

Uma chapa de metal incrustrada no tronco de uma árvore indica o montante para o aluguer de chácaras para eventos. Não faltam quintas e animais, cavalos e bovinos, disseminados num enorme manto verde pontuado pelos montículos avermelhados de terra construídos pelas térmitas. Avistam-se churrascarias de outrora abandonadas à rigidez da intempérie. Dos estabelecimentos ainda no activo contam-se a Parada da Bolacha e, uns quilómetros adiante, a Parada do Bochecha. Esta última oferece produtos à base de milho. Café e milho, quem diria que combinam tão bem… Como que a responder à minha dúvida, uma tabuleta no meio de uma plantação de café anuncia «suco de milho batido na hora». Até o bebia, mas vai ter que ficar para uma outra oportunidade.

 

 

Não se avistam marcos quilométricos na estrada. Mas isso é normal no Brasil. Os sinais de trânsito raramente indicam a distância que falta para esta ou aquela localidade, o que por vezes se torna bastante inconveniente.

 

No banco do lado está um mineiro que regressa depois de três anos emigrado em Espanha. Ultimamente têm sido tensas as relações entre este país e o Brasil. Recentemnete a imprensa local deu grande destaque – e com toda a legitimidade – ao caso de uma jovem brasileira formada em Direito que ao viajar para Espanha foi tratada abaixo de prostituta pelos Serviços de Imigração do país vizinho. Certamente retaliação pela expulsão, dias antes, de um político espanhol, do Rio de Janeiro.

O mineiro diz que «não deu para visitar Portugal», mas conheceu muitos portugueses nas obras em redor de Barcelona, emigrados como ele.

– Como é aquilo por lá? – pergunto.

O mineiro encolhe os ombros e é vago na resposta. As suas interjeições dão a entender que não está a pensar voltar à Europa.

 

 

Na próxima parada do Graal (estação de serviço) o homem tenta, tal como eu, sem êxito, entrar em contacto telefónico com a família anunciando a sua chegada. Vai ter mesmo de fazer uma surpresa. Como o compreendo… Também me vejo e desejo para pode entrar em contacto com os entes queridos do outro lado do Atlântico. Para além deles, devo também contactar o pessoal ligado ao projecto 7 Maravilhas. Já sei que não vão acreditar quando lhes disser que em todas estas paragens não tive a mínima hipótese de os contactar, pois raramente as cabines telefónicas funcionam. Se calhar nem eu próprio acreditaria, se estivesse no lugar deles.

 

A luz do fim do dia reflecte-se numa cordilheira a leste com se ela fosse um pedaço considerável de rocha. Será uma mina? Uma pedreira? A paisagem assenta que nem uma luva na designação Minas Gerais. Estamos nos domínios da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores empresas mineiras do mundo.

 

 

Mais adiante, a caminho de um colo de montanha, é mesmo poeira vermelha, aquilo que num repente envolve o autocarro. Avista-se daqui a cidade de Belo Horizonte… no horizonte. Não espraiada numa planície, como costumam estar as cidades, mesmo que cadeias montanhosas as aconcheguem em toda a volta, mas num aglomerado de outeiros ondulados que no seu todo constituem a chamada Serra do Curral, parte integrante da reserva da biosfera da Serra do Espinhaço, património natural classificado pela Unesco.

 

Quando, finalmente, chegamos a São Joaquim de Bicas, regressam ao nosso convívio as favelas de tijoleira e os templos evangélicos. É o caso da novel sede da «Igreja Congregacional Filadélfia do Culto 3 e 5» que se situa paredes meias com o «Posto de Molas», mais um exemplo do conceito garagem por partes, neste caso do sector da suspensão. Importantíssimo quando viajamos, meus caros.

 

Entrar na cidade é um processo lento e deprimente, como costuma ser – pelo menos para mim – toda a entrada numa grande urbe. As favelas e os bairros pobres sucedem-se uns após os outros e fico com a impressão que não há um único sítio plano onde a cidade se possa instalar devidamente. E não há mesmo. Toda a topografia é irregular. E, no entanto, a cidade ergue-se, colina acima.

publicado por JoaquimMDC às 10:32
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3 comentários:
De nickname a 6 de Maio de 2009 às 12:22
Mereceu destaque:) muitos parabéns
De LD a 6 de Maio de 2009 às 12:43
excelente blog... só tenho pena de não lhe poder fazer companhia!
De Edite Gonçalves a 1 de Junho de 2009 às 14:41
Só uma pequena correção não é rio Trietê é Tietê. e acredite ou não o tietê já esteve muito pior do que está..... No mais, gostei muito daquilo que já li. Vou continuar acompanhando.

Abraços

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