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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Portugal nos trópicos
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Belo Horizonte, ou Beagá, como carinhosamente lhe chamam os seus habitantes, é a porta de entrada para quem deseja visitar as cidades históricas espalhadas pelo Estado de Minas Gerais. Foi com o ouro extraído das suas serras que se embelezaram os interiores de deslumbrantes igrejas, como a de São Francisco de Assis da Penitência, primoroso exemplo do barroco português, a concurso na iniciativa 7 Maravilhas de Origem Portuguesa.

Tenho à minha espera no terminal rodoviário o Ricardo Meneses Chaves da agência Master, que será o meu guia durante a minha estada em Minas. O programa foi definido pela secretaria de turismo local, que teve essa amabilidade e preocupação, e a ele vou ter de me cingir.
Ricardo começa por me falar das características intrínsecas do mineiro, que é por natureza «recatado, discreto, desconfiado, por vezes». Não tem por hábito embandeirar em arco, tão pouco se convence com conversa mole. Enfim, o mineiro é o oposto do estereótipo aplicado ao brasileiro fora do seu país.

Todo o caminho até Ouro Preto tem o cunho da actividade mineira, o motor económico da região. Como escrevia Carlos Drumond de Andrade, no poema Confidência do Itabirano, esta terra é caracterizada por «noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas».
Outro escritor local, o novelista Guimarães Rosa, costumava dizer que «Minas são várias», para melhor definir um Estado que devido à sua dimensão e variedade paisagística e sociocultural pode ser considerado um verdadeiro país. Comentava Rosa que «Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…»

A paisagem ruraliza-se progressivamente – sempre o verde em contraste com o vermelho. Em certos locais o pó das pedreiras cobre literalmente a estrada e as folhas das árvores. Itabirito significa, em língua tupi, «risco de pedra vermelha». Seguem-se Rio dos Velhos e Vale do Rio Doce. Outrora foi o ouro, hoje é o minério de ferro que aqui é intensamente explorado e exportado para a China. Dizem-me que é transportado, através de um gigantesco tubo e com a ajuda da água, directamente até ao litoral, onde é embarcado nos cargueiros.

Ouro Preto recebe-nos com um nevoeiro cerrado. Os arredores, dada a sua disposição orográfica, fazem-me lembrar as cidadezinhas do Himachel Pradesh indiano. Dalhouse ou Darjelling, antigas possessões britânicas.
Fico alojado no Hotel Pousada do Arcanjo, propriedade de Ângela Carvalho de Freitas, na rua São Miguel Arcanjo. Este é um hotel temático e cada um dos quartos é dedicado a um personagem ligado à Inconfidência Mineira.
O meu aposento honra a memória de Luís Vaz de Toledo Piza. Na parede, um quadro encaixilhado dá a informação necessária. O dito cujo era sargento-mor e descendia de um «dos mais consagrados troncos paulistas». Era homem abastado (à semelhança de todos os inconfidentes), dono de uma extensa fazenda nas proximidades de Vila de São João Del Rei.

Pelo seu casario, igrejas, ruas e becos, Ouro Preto é um decalque de uma vila portuguesa redesenhada no arvoredo subtropical do interior brasileiro. Fundada em 24 de Junho de 1698 pelos bandeirantes paulistas foi a segunda capital de Minas Gerais, logo após Mariana, sua vizinha. Seria o primeiro sítio brasileiro a obter da Unesco, em 1980, o honroso título de Património Cultural da Humanidade.

Vetusta senhora, orgulhosa dos sobrados plantados no alto das colinas, deve a sua designação aos vestígios de metal precioso encerrados em pelotas de óxido de ferro existente na região. É esse mesmo ouro, transformado em talha, que embeleza os interiores das várias igrejas barrocas da cidade. António Manuel Lisboa, o Aleijadinho, é o mais conhecido dos mestres que deram vida a muitas das estátuas que vemos no Museu da Inconfidência e nos templos locais e os das cidades históricas congéneres, caso de Diamantina, Mariana, Tiradentes ou São João Del Rei.
Estar em Ouro Preto é, mais de que um prazer, reler uma das páginas mais significativas da História do Brasil. A cidade é, toda ela, uma obra de arte a céu aberto.

Apesar das providências tomadas por Ricardo, que não para de telefonar às entidades turísticas, procurando obter licenças para que eu possa visitar e fotografar o interior dos museus e das igrejas, a tarefa não se afigura fácil. Estamos em pleno Jubileu e esse é um dos justificativos utilizados pelas autoridades eclesiásticas locais para impedir quaisquer fotografias no interior dos monumentos mais importantes, nomeadamente a igreja de São Francisco de Assis da Penitência, situada no Largo de Coimbra. Ricardo também manifesta o seu descontentamento, mas argumenta:
– A propriedade é deles e por isso o Turismo não tem qualquer jurisdição. Se dizem que não podemos, não podemos mesmo.

Comecemos então pelas ruas empedradas com granito, onde estão as pessoas e se desenrola a vida do dia-a-dia, que essa não precisa de autorização para ser registada. Nesta cidade de dimensão humana, confesso que me sinto pouco confortável ao ser transportado num veículo motorizado até à praça de Tiradentes, onde se ergue a estátua do mártir da Inconfidência, cenário predilecto dos turistas brasileiros para a foto da praxe.
Descemos depois uma curta rua com um declive impressionante e estacionamos junto à Casa dos Contos, na rua de São José. Perto deste antigo local de pesagem e fundição do ouro extraído da região, hoje um dos mais importantes museus da cidade, situa-se um vistoso chafariz e, logo em frente, o cineteatro.
Os automóveis, intrusos, atrevidos, incomodam. Racionalmente falando, é óbvio que o centro histórico deveria ser interditado ao trânsito. Afinal, as tão apregoadas exigências da Unesco para que determinadas cidades continuem a merecer o título de Património da Humanidade, não passam de intenções impressas no papel. O romantismo de Ouro Preto, como o de Colónia de Sacramento, desvanece-se logo que surge a primeira leva de automóveis.

Para quem chega do Rio Grande do Sul, esta cidade é já Brasil profundo. Negra é a cor da pela da maioria dos seus residentes.
Em termos arquitectónicos, a primeira comparação é com a cidade do Porto. Não propriamente pelo traçado urbano, que esse encontra paralelo em várias urbes portuguesas, mas sim pelo declive acentuado das ruas de paralelepípedos. Na baixa, a referência vai toda para Marco de Canaveses ou Amarante, talvez devido à ponte de granito com um cruzeiro implantado, exactamente ao centro, onde os mais devotos acendem paus de incenso, e em cujo banco de pedra costumam descansar as pessoas mais idosas, ou uma ou outra figura típica que parece ter saído de um romance de Machado de Assis. É o caso de negro de chapéu de feltro, certamente descendente directo de escravos, que fica felicíssimo porque lhe tiro um retrato.
– Cruzes em cima das pontes servem para afastar os maus-olhados, pelo menos essa é a crença do mineiro – informa Ricardo.

A Vila Rica de outros tempos, sede dos rebeldes que deram origem ao Brasil independente, é hoje um pólo urbano criativo e dinâmico. Reside aqui uma considerável população estudantil que, à semelhança de Coimbra, se organiza em Repúblicas e participa nas muitas iniciativas culturais que a cidade proporciona.

Fomos almoçar ao restaurante Chafariz, instalado num sobrado do século XVII, em frente à casa onde viveu José Joaquim Xavier, o famoso Tiradentes.
– O local foi salgado para que nada crescesse mais, como era tradição da época – informa Ricardo.

Já que não é permitido fotografar o interior da igreja de São Francisco, limitamo-nos a fazer uma visita breve. Os tectos, as paredes, os altares, os púlpitos e a estatuária em talha dourada, obrigam-me literalmente a abrir a boca e a pender a cabeça para trás, de espanto e maravilha. Mas em breve saímos para o terreiro em frente onde temos oportunidade de apreciar a mestria de artesãos que, de canivete em punho, moldam estatuetas de pedra sabão. Buscam inspiração sobretudo em motivos religiosos – figuras de santos, igrejas, cruzes – mas também recriam objectos comuns como guitarras, corações, instrumentistas, e a frase «mãe te amo». Há ainda pintores de aguarelas e vendedores de jóias, as ditas gemas, ou não estivéssemos em terra de pedras preciosas.
O movimento de turistas é que continua fraco. Avisto apenas uma escandinava de mochila às costas que, alheada de tudo, consulta um mapa sentada junto a uma paragem de autocarro…
Um património destes certamente merecia mais visitantes. Sobretudo estrangeiros.
publicado por JoaquimMDC às 15:44
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