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Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Viagem de São Paulo a Belo Horizonte

Ao acordar dou-me conta que empancamos numa gigantesca fila de carros à entrada de São Paulo. Estamos metidos naquilo que os brasileiros designam de «tranqueira». Corro o risco de perder a conexão para Belo Horizonte, o que não me convém, pois São Paulo é por ora ponto de passagem, simples mala-posta.

 

Ao meu lado vejo o rio Trietê, o mais poluído do mundo. Rio? Isto é um verdadeiro esgoto a céu aberto. Na parede de cimento que o condiciona, graffiti envia a mensagem do Comando do Trietê, certamente inspirado no PCC, Primeiro Comando da Capital, o grupo mafioso que controla o crime no Rio a partir das prisões e que até a Portugal já estendeu os seus tentáculos.

 

A passarada resiste. Na Índia, são os corvos; aqui os gaviões de asa dentada. São as asas que os distinguem, quando os vemos nos céus onde progridem também helicópteros que levam a elite de topo de arranha-céus para topo de arranha-céus.

– Só os bacanas usam helicóptero – comenta o gaúcho. São Paulo é das cidades do mundo onde mais se recorre a este tipo de transporte.

Nas duas horas que estivemos no pára e arranca, vejo baixarem do céu azul umas três dezenas de aviões, de todos os tamanhos e fuselagens.

 

O motivo do engarrafamento é um acidente que acaba por ser resolvido. Já de pé, mortinhos por sair daquela camioneta, inventamos coisas para fazer. E uma das coisas que podem fazer um português e um brasileiro que se vêm envolvidos num engarrafamento deste calibre, é por em prática um qualquer intercâmbio de expressões idiomáticas. Eis algumas, que enriquecem o meu vocabulário graças ao acidente junto ao esgoto de Trietê: «Frio e quente, perigo para a gente», provérbio popular. «Estar morgado», estar despojado de tudo. «Tirar a água do joelho», vontade de urinar. Esta última, bem apropriada à situação que vivo.

 

Em doses semelhantes aos motéis, temos os templos religiosos, das mais diversas seitas. É o caso da Igreja Quadrangular, com o número 4 bem desenhado, para que não haja dúvidas. Cortesia para quem não lê mas sabe contar, e assim pode entender. No asfalto aguardam, como nós, carrinhas com dísticos feitos promessas bem visíveis na carroçaria: «O nosso sucesso é Jesus» e «Resgatando Crianças para Jesus».

 

A Ponte das Bandeiras, infra-estrutura evocativa da saga dos bandeirantes, dá-nos o sinal que Rodoviária está perto. Rostos japoneses entre a multidão são factor diferenciador do terminal de São Paulo. Isso, e uma espaçosa área onde podemos circular à vontade, as lojas são residuais, e se nos metermos no túnel que várias setas sugerem estaremos num moderno metropolitano que nos conduzirá ao centro da grande metrópole. Não é isso que tenho a fazer, antes procurar camioneta para Belo Horizonte. Procurar, encontrá-la, comprar o bilhete e pirar-me daqui para fora, ainda hoje.

 

Há duas empresas que fazem o serviço. Por uma questão de horário escolho a Cometa, que diferencia a sua frota com nomes de fenómenos celestiais mais ou menos vertiginosos. O veículo das 11 e 30 com destino a Belo Horizonte é o fenómeno Halley.

A Cometa é uma empresa antiga e foi contra uma das suas viaturas que se enfaixou o automóvel que levava Juscelino Kubitchek, «o presidente bossa-nova», na sua derradeira e trágica visita presidencial. Este detalhe só o viria a saber quando já estava confortavelmente sentado no interior da camioneta.

 

 

Sair de São Paulo é bem mais fácil do que entrar. O tráfego flui e lá fora é um não mais acabar de favelas de tijolo com andares improvisados uns nos outros e, antes disso, um hospital nipo-brasileiro, com uma faixa de pano, em todo o largo da fachada principal, que recorda os 100 anos da emigração japonesa.

 

Num repente torneamos um morro, serra Mantiqueira acima, encavalitando-nos no seu lombo rumo ao norte. A Mantiqueira faz parte de um conjunto mais vasto que é a Serra do Espinhaço, dorso norte-sul da mata Atlântica que aqui se mistura com a mata de araucárias e vasta flora nativa. A partir da verdejante encosta sul avista-se a gigantesca polis ao fundo, enquadrada, por mais estranho que possa parecer, num céu claro e azul. Onde andará metido o famoso smog paulista?

 

 

A mata é densa e de um verde quebrado apenas pelas folhas esbranquiçadas de uma árvore que se distingue de todas outras. Dir-se-ia que foram pintadas de prateado com aqueles sprays com que se pintam carros nas oficinas. O homem da poltrona ao lado diz-me que essa árvore se chama macaupa. E já que estamos no domínio da sintaxe tupi e guarani, acrescente-se que Mantiqueira significa «serra que chora», talvez devido às muitas cachoeiras existentes em toda a sua extensão.

 

Por esta serra adentro abriram-se os primeiros caminhos rumo às minas que dariam origem à Estrada Real, por onde se foram escoando as riquezas do império. Inicialmente, essa via ligava Ouro Preto a Parati. Chamavam-lhe a Estrada Velha. Depois, porque se tornou muito perigosa devido aos constantes assaltos de bandidos e ao movimento de contrabandistas, Dom Pedro II, imperador do Brasil, resolveu mudar o trajecto para o Rio de Janeiro, sendo criada então a Nova Estrada Real. Petrópolis, hoje assento do que resta da família real brasileira, cresceu a partir de uma fazenda que ali comprou o monarca.

 

Não é difícil imaginar uma bandeira Seiscentista a enfrentar este primeiro obstáculo da natureza, rumo ao interior desconhecido que viria a ceifar centenas de vidas humanas, de um lado e do outro, num inevitável e trágico encontro civilizacional. E não é difícil imaginar, porque o estado da natureza praticamente não se alterou.

O túnel Mala Fria estabelece a fronteira. Áreas inteiras encontram-se protegidas, graças ao estatuto de reserva natural, embora nas imediações surjam de imediato os condomínios fechados e as fazendas onde a classe endinheirada paulista vem passar os fins-de-semana. Uma dessas fazendas tem um restaurante chamado «O Bacalhau». O mais chique dos condomínios intitula-se Monte das Oliveiras, numa analogia a Jerusalém. Mas aqui não é calvário, antes símbolo de traição. Sim, porque em condomínios se fecha um mundo em relação ao outro.

 

Sinais de trânsito dão-nos conta que estamos na BR 381, mais conhecida como Via Fernão Dias, em memória do primeiro bandeirante a aventurar-se nestas paragens. A estrada actual segue o caminho originalmente palmilhado.

Apesar do aparente isolamento, continua a haver de tudo para proporcionar o bem-estar. Para o ser humano, o restaurante «Rei da Linguiça»; para o veículo – no âmbito da muito nobre tradição brasileira de garagem por partes – uma oficina de «Lanternagem e Pintura». Cada parte do veículo tem aqui o seu estabelecimento próprio de reparações, tal como cada enfermidade tem o seu especialista. Quanto ao apadrinhamento da coisa, o brasileiro não está com meias medidas – quando a palavra não existe, inventa-a. E quanto a mim faz bem.

 

Uma chapa de metal incrustrada no tronco de uma árvore indica o montante para o aluguer de chácaras para eventos. Não faltam quintas e animais, cavalos e bovinos, disseminados num enorme manto verde pontuado pelos montículos avermelhados de terra construídos pelas térmitas. Avistam-se churrascarias de outrora abandonadas à rigidez da intempérie. Dos estabelecimentos ainda no activo contam-se a Parada da Bolacha e, uns quilómetros adiante, a Parada do Bochecha. Esta última oferece produtos à base de milho. Café e milho, quem diria que combinam tão bem… Como que a responder à minha dúvida, uma tabuleta no meio de uma plantação de café anuncia «suco de milho batido na hora». Até o bebia, mas vai ter que ficar para uma outra oportunidade.

 

 

Não se avistam marcos quilométricos na estrada. Mas isso é normal no Brasil. Os sinais de trânsito raramente indicam a distância que falta para esta ou aquela localidade, o que por vezes se torna bastante inconveniente.

 

No banco do lado está um mineiro que regressa depois de três anos emigrado em Espanha. Ultimamente têm sido tensas as relações entre este país e o Brasil. Recentemnete a imprensa local deu grande destaque – e com toda a legitimidade – ao caso de uma jovem brasileira formada em Direito que ao viajar para Espanha foi tratada abaixo de prostituta pelos Serviços de Imigração do país vizinho. Certamente retaliação pela expulsão, dias antes, de um político espanhol, do Rio de Janeiro.

O mineiro diz que «não deu para visitar Portugal», mas conheceu muitos portugueses nas obras em redor de Barcelona, emigrados como ele.

– Como é aquilo por lá? – pergunto.

O mineiro encolhe os ombros e é vago na resposta. As suas interjeições dão a entender que não está a pensar voltar à Europa.

 

 

Na próxima parada do Graal (estação de serviço) o homem tenta, tal como eu, sem êxito, entrar em contacto telefónico com a família anunciando a sua chegada. Vai ter mesmo de fazer uma surpresa. Como o compreendo… Também me vejo e desejo para pode entrar em contacto com os entes queridos do outro lado do Atlântico. Para além deles, devo também contactar o pessoal ligado ao projecto 7 Maravilhas. Já sei que não vão acreditar quando lhes disser que em todas estas paragens não tive a mínima hipótese de os contactar, pois raramente as cabines telefónicas funcionam. Se calhar nem eu próprio acreditaria, se estivesse no lugar deles.

 

A luz do fim do dia reflecte-se numa cordilheira a leste com se ela fosse um pedaço considerável de rocha. Será uma mina? Uma pedreira? A paisagem assenta que nem uma luva na designação Minas Gerais. Estamos nos domínios da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores empresas mineiras do mundo.

 

 

Mais adiante, a caminho de um colo de montanha, é mesmo poeira vermelha, aquilo que num repente envolve o autocarro. Avista-se daqui a cidade de Belo Horizonte… no horizonte. Não espraiada numa planície, como costumam estar as cidades, mesmo que cadeias montanhosas as aconcheguem em toda a volta, mas num aglomerado de outeiros ondulados que no seu todo constituem a chamada Serra do Curral, parte integrante da reserva da biosfera da Serra do Espinhaço, património natural classificado pela Unesco.

 

Quando, finalmente, chegamos a São Joaquim de Bicas, regressam ao nosso convívio as favelas de tijoleira e os templos evangélicos. É o caso da novel sede da «Igreja Congregacional Filadélfia do Culto 3 e 5» que se situa paredes meias com o «Posto de Molas», mais um exemplo do conceito garagem por partes, neste caso do sector da suspensão. Importantíssimo quando viajamos, meus caros.

 

Entrar na cidade é um processo lento e deprimente, como costuma ser – pelo menos para mim – toda a entrada numa grande urbe. As favelas e os bairros pobres sucedem-se uns após os outros e fico com a impressão que não há um único sítio plano onde a cidade se possa instalar devidamente. E não há mesmo. Toda a topografia é irregular. E, no entanto, a cidade ergue-se, colina acima.

publicado por JoaquimMDC às 10:32
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Viagem de Porto Alegre a São Paulo

 

 
 
 
Entro finalmente no autocarro amarelo vivo da Itapamirim, talvez a mais competente empresa de viação do país. A qualidade do seu serviço traduz-se em pormenores como disponibilizarem a revista de bordo Na Poltrona a todos os passageiros – uma publicação com mais qualidade do que algumas das revistas de bordo de companhias aéreas que conheço.
O número deste mês, que traz uma reportagem sobre a cidade João Pessoa e diversas praias do nordeste, manifesta uma clara preocupação ecológica.
 
O Brasil, enorme cardápio de inspiração, tem os seus personagens. O desta viagem chama-se Paulo Henrique e apresenta-se como o Artista, à semelhança do que faz o Prince, que chegou ao extremo de mudar de nome. O papelzinho verde que Paulo Henrique, PH para amigos, entrega a todas as pessoas com quem entra em contacto, menciona, entre outras coisas, o seu projecto artístico e social, denominado Ajuda.
O pretexto para a conversa com este português que vos escreve é saber se as bolachinhas salgadas e doces que nos oferece a Itapamirim, contêm ou não lactose, já que o gaúcho é alérgico a esta substância.
Será que também o é às gorduras trans? Todas as embalagens, nem que seja de uns simples biscoitos salgados, trazem a indicação «0 de gorduras trans», o que significa que o produto em questão não contém produtos transgénicos, ou pelo menos gorduras transgénicas, o que vai dar ao mesmo.
 
O grupo Itapamirim é parceiro numa campanha de combate ao tráfico de animais selvagens, praga que assola o Brasil, que pretende ser educativa para quem viaja nas estradas do Brasil. Não só informa como apela a que se denunciem movimentos suspeitos, pois «você também é responsável».
Está escrito o seguinte no verso da embalagem que nos oferecem: «O terceiro maior negócio ilegal do mundo, o tráfico de animais silvestres retira do seu habitat, só no Brasil, cerca de 38 milhões de animais por ano». A cifra é impressionante.
 
Depois de ultrapassada a periferia urbana, a estrada mergulha literalmente na paisagem verde que caracteriza todo o território brasileiro. É um verde vivo e viçoso que cobre uma terra vermelha de um vermelho tão intenso que por vezes parece que o verde é simples disfarce desse vermelho. E o contraste que daqui resulta meus senhores, melhor é nem falar porque senão não sairíamos mais daqui. E eu quero sair daqui.
 
E já que falamos em cores, recordo que a Via Verde, produto importado de Portugal, adoptou no Brasil a designação Via Fácil. Não é essa, por enquanto, a opção da Itapamirim.
Numa das várias portagens chama-me a atenção um autocolante colado na cabina onde uma loura se entrega à insidiosa tarefa de cobrar a quem circula nesta estrada com claros melhoramentos, mas que não chega a ser via rápida. O aviso destina-se ao condutor candidato a ladrão: «Cofre Boca de Lobo – chave em poder do banco». Como medida dissuasora até que nem é má.
 
O gaúcho cantor, «policial reformado», apesar de jovem ainda (PH tem um problema de saúde que o impede de continuar o seu trabalho), quer que ouça algumas das suas composições e o ajude a escolher quais delas deverá apresentar em Campinas, numa das pré-selecções do conhecido concurso televisivo Astros, uma das maiores apostas da SBT, a televisão de Sílvio Santos, o Berlusconi brasileiro, um dos homens mais ricos do Brasil.
Tenho a impressão que este é um apelo que o Paulo Henrique faz a muita gente, o que traduz alguma insegurança, e sem razão para isso, pois até nem canta nada mal e as músicas que compõe são bem interessantes.
– Que acha Joaquim? – pergunta – canto-lhes um tema mais romântico ou um de crítica social? .
Aconselho-o a optar pela crítica social, não pela temática em sim, mas porque o tema tem mais ritmo e a melodia é mais óbvia.
 
O nosso gaúcho assegura que já publicou dois livros com poemas, gravou um CD e tem um outro pronto a sair. Mostra-me fotos em que o vemos em plena actividade, tocando em bares, churrascarias, em estúdio, e numa pose colectiva com alguns cabeludos de uma banda rock, «com o maior número de vendas fora do Brasil» (pensei que eram os Sepultura, mineiros assumidos!)
Mas o maior feito do Paulo, foi o ter conseguido convencer algumas altas patentes a recitar um poema intitulado Farda, numa parada militar. A fotografia que me mostra comprova o feito: Lá está ele, trajando à gaúcho, a dizer de sua justiça em frente a um microfone, com os militares alinhados na parada, em posição de descanso mas de olhar muito sério. É, de facto, uma foto invulgar. Mais parece uma cena do MASH ou Academia da Polícia.
 
Henrique aconselha-me, «quando tiver oportunidade», a visitar o Gasómetro de Porto Alegre, actual centro cultural de renome onde podemos assistir aos «mais magníficos pores-do-sol do planeta». O Dalai Lama esteve lá e concordou.
 – Sua Santidade disse que esse era um sítio com muita energia positiva e por essa razão tanta gente lá vai – garante.
E a nossa conversa estende-se com o acrescento de algumas informações cerca do mundo gaúcho. O gaúcho diz-me, por exemplo, que foi na cidade Vilamão, nas cercanias de Porto Alegre, que os portugueses desembarcaram pela primeira vez. E porque o local tinha forma desse apêndice do corpo, ficou «vi a mão», derivando mais tarde para «vilamão».
Fala ainda da Revolta da Farroupilha, de 1856, que opôs os chimangos (os brancos) e os maragatas (os vermelhos), e onde teve importante papel um dos portugueses que acompanhou Artigas na sua luta pela independência da Província Oriental, hoje Uruguai. Enfim, uma reedição da guerra que neste país opôs brancos aos colorados, e que foi fruto do mesmo movimento independentista.
Informa-me ainda o Paulo que a mulher do gaúcho se chama chinoca e que aquele é um verdadeiro ser livre «pois não tem pátria, fronteira ou domicílio fixo». O que vem dar razão ao conceito do gaúcho associado ao índio (ou o que resta dele), que ainda hoje passa as fronteiras destes países sem necessitar de documentos de viagem.
Também a palavra «tchê», utilizada frequentemente pelos gaúchos, esteve na origem do prefixo que deram ao guerrilheiro Guevara, mais conhecido como El Che.
– Chamavam-no assim pois quando era miúdo vivia com o pai, abastado proprietário de terras, cultivador erva-mate e criador gado, no norte da Argentina, junto ao Paraguai e ao Brasil – informa PH.
 
Desde que deixamos Porto Alegre temos vindo a levar constantemente com os intrusos outdoors que poluem a paisagem no sul do Brasil. O conteúdo de alguns fica-me registado na mente sem que tenha de me dar ao trabalho de tomar notas. O mais discreto anuncia «Alegria, a Rádio do Coração» e quase todos os outros exibem mulheres deitadas em poses provocantes, acompanhadas por um nome e um número de telefone, publicitando não se sabe muito bem o quê, talvez lojas de vestuário.
 
«Linda Moça», «Moça Bonita» e «Deslumbrada Buneka Loka» surgem-nos pouco antes de um inesperado «Surf.com». E eu pergunto: O recurso aos atributos das moças ainda se compreende (mesmo sendo mulheres de papel) – até porque a fêmea é o engodo mais antigo da humanidade – mas, digam-me, o que faz um anúncio de artigos de surf num mastodôntico campo de soja?
 
A agressividade destes outdoors é tal que alguns chegam a publicitar a mesma coisa num espaço de 100 em 100 metro, ao longo de uma extensão de vários quilómetros. Um exagero. Os responsáveis pelo marketing do «Leão – Atacadão de Mobílas e Objectos para o Lar», por exemplo, espetaram na terra uma estrutura a cada 50 metros ao longo de dois quilómetros. Do outro lado, a concorrência contra-ataca dizendo que «não compre nesse que está a 50 metros, mas sim no que está a 5 quilómetros». Demasiado industrioso se mostra o cérebro do ser humano quando se trata de dar a volta à cabeça do seu semelhante.
A estrada dos outdoors antecede a chegada do tráfego mais veloz, mas por enquanto a coisa mantém-se ao nível do arrasto.
 
Di Madeira é o nome de uma madeireira com diferentes tipos de toros e pranchas de lenho de árvores derrubadas para satisfazer as exigências mais exóticas dos clientes a nível planetário. Apenas duas me são familiares: louro freixo e cedro. Os outros nomes serão certamente tupis ou de qualquer outro dialecto indígena.
 
Entramos numa estrada com faixas para os dois lados, mas não por muito tempo. Segue-se uma extensa região marcada por uma grande quantidade de torres para energia eólica.
 
Outro lençol de água, desta vez cor de lama vermelha. Finda a planície, iniciamos uma subida considerável, e aqui a estrada começa a mostrar as suas limitações. A fila de veículos continua, não obstante, em movimento. Estaremos não muito longe da fronteira do estado de Santa Catarina.
 
Registo com verdadeiro gozo os nomes de estabelecimentos comerciais em povoações que ninguém conhece. «João das Bicicletas». «Boate do Tony». «Oficina Mademir, tudo para construir». Os brasileiros são mestres na arte de dar nomes às coisas. Talvez seja por isso que são tão fortes em publicidade.
É claro que não podem faltar, a intervalos regulares, as assembleias de Deus, sejam elas evangélicas, de Pentecostes ou espíritas. Sobre esta matéria podia encher as páginas de um capítulo inteiro. Também há um centro comunitário para a Nossa Senhora de Canveraggio, a santinha do Scolari.
 
Estamos numa cota elevada, mas as vaquinhas insistem em acompanhar-nos. Muita e contínua zona de pasto, propícia à criação de gado. Um camponês com boi de bossa, o braham indiano, que provavelmente terá sido para aqui trazido há muitos anos, traz-me à memória a carroça puxada por um cavalo que vi no centro de Montevideu.
 
As agruras do asfalto, ou da falta dele, sentem-se agora muito mais, pois a estrada continua em construção. Obras de vulto, viadutos e pontes já prontas Mais irritantes que o mau piso são as lombas. Constantes. No Paraguai chamam-lhes «lombos de burro» e no Uruguai não medem as palavras, regozijando-se com o epíteto «polícias deitados».
Esta estrada, pela sua dimensão e importância, bem necessitada estava de uma infra-estrutura destas. Nas bermas repousam despojos de antigas churrascarias, lancharias e hotéis. Ruínas de cimento e ferro velho. Quando a nova estrada estiver pronta com certeza serão necessárias muito menos horas para ligar as duas cidades.
 
«Posto de Molas Gaguinho». «Guigo Caminhões». «Carroçaria Quito de Carolinhas». Continuo a ter um enorme gozo em registar estes nomes simplesmente originais. Até o pessoal do maná evangélico capricha na veia criativa: «Igreja Betel Conservadora». Onde foram arranjar um nome destes?
 
Em Laguna, uma estrada arenosa convida-nos à praia, mas nós seguimos por um istmo tão apertado que nele só cabe a estrada e a pitoresca trilha férrea que não se sabe se continua ou não em funcionamento. Os restaurantes têm agora a disposição do viandante pratos de peixe frito e a Pousada Raízes propõe, além do pescado, «pernoite e férias», não muito longe da ponte sobre o rio Cova Triste. Depois de omnipresença da carne no Rio Grande do Sul, convenhamos que é um enorme prazer ouvir falar de peixe.
 
Voltamos a atravessar uma zona de montanha caracterizada por pequenas barracas de venda de suco de cana-de-açúcar «Caldo de Cana Souza» e «Caldo de Cana da Tia Maria». Existem garagens designadas «Retifica» ou «Refiticadoras». Neste permanente subir e descer, um aviso em forma de placa amarela: «aldeia indígena, reduza a velocidade».
 
Regressados ao litoral, novo convite: «Visite a Praia de Sonho». Vontade não me falta de seguir a indicação, mesmo sabendo que certamente não é uma praia de sonho, porque se fosse não estaria sinalizada.
Não me importava nada de por aqui ficar uns tempos, deitado de papo para o ar, numa praia qualquer, de sonho ou sem ser de sonho.
Ao longe avista-se Florianópolis e adivinha-se a ilha de Santa Catarina, poiso de inúmeros descendentes de açorianos.
 
A noite serve para atravessarmos os estados de Santa Catarina e do Paraná, os mais ricos do Brasil, até ao estado de São Paulo, depois de atravessada a Serra Queimada, onde teve início a aventura brasileira em termos consistentes. Foi daqui que se assistiu à génese deste fascinante país.
 
 
 

publicado por JoaquimMDC às 10:00
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Viagem de Montevideu a Porto Alegre
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Regressar a Porto Alegre é o retomar da viagem feita dias antes, só que virada do avesso e com uma paragem nocturna em Punta del Este, para embarcar uns turistas pés descalços nórdicos. Por isso não dá para dormir grande coisa, até porque viajo com a curiosidade atiçada a respeito dos locais que atravessamos e que a noite oculta.
Que aspecto terá a «açoriana» cidade de San Carlos? Qual a imponência das fortificações portuguesas junto a Rocha e em Santa Teresa?
Finalmente, e já do outro lado da fronteira, fundo do Brasil, mesmo, será assim tão pitoresca como consta por aí a cidade histórica de Pelotas, cujo curioso nome tanto pode estar ligado à exploração mineira como a um qualquer tipo de actividade bélica, já que toda esta região foi pródiga em acontecimentos do género?



É inacreditável a palete de imagens que se atropelam na mente quando a vontade de conhecer, incendiada por algumas luzes obtidas nos livros ou nas conversas com amigos, supera todo o cansaço e desconforto. Dêem-me caminho por trilhar e considero-me um homem feliz.

Nos quiosques da rodoviária, agora revisitada, reparo que o Jornal do Comércio, o Correio do Brasil e o Comércio do Brasil – «o primeiro jornal todo a cores do Brasil» - fazem manchetes com as notícias da continuação das chuvas no estado de Santa Catarina, suficientemente fustigado em Novembro e Dezembro passados. Imagens e comentários apontam o dedo à falta de segurança e à suicidária teimosia em construir fogos de habitação em zonas inseguras. No miolo do jornal, as fotos são as habituais: crimes de foro comum e as tricas e trocas baldrocas do universo desportivo. Já os comentários dos cronistas ou as cartas dos leitores andam, ainda e sempre, à volta da falta de segurança e do aumento da circulação do crack na cidade, com os agarrados de serviço a ficarem cada vez mais agarrados, e, pior do que isso, assanhados e até atrevidos.
Por falar neles, convém não fixar por mais de um segundo o olhar nos dois que andam de caixa de engraxar na mão com a mirada nervosa nos pés de todos os passageiros, certamente na esperança de encontrar sapato em penúria que lhes permita embolsar uns reais com que vão comprar a próxima dose. Pobres coitados.

Recorro ao meu cartão electron para comprar o bilhete de autocarro para São Paulo o que motiva o seguinte comentário do funcionário por detrás do guiché: «este é o banco que vai financiar a construção do estádio de Porto Alegre onde se irão desenrolar alguns dos jogos do Mundial de 2014».
Nem de propósito. Nesse preciso momento, um entusiasta da bola passa mesmo ao lado, embrulhado numa gigantesca bandeira, mas vai descalço. Provavelmente não há dinheiro para sapatos mas o jogo dessa noite é que se não pode perder de jeito algum. Estou perante um adepto do Inter, diminutivo do Internacional de Porto Alegre que se prepara para disputar um importante jogo para a Taça de Libertadores. O rival em campo é o Estudiantes da Argentina.

Para chegar a Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, sou obrigado a fazer escala em São Paulo numa viagem prevista de 16 horas com passagem por Florianopólis. Em Minas Gerais estão as próximas duas Maravilhas que devo visitar – a igreja de São Francisco, em Ouro Preto e o santuário de Bom Jesus, em Congonhas do Campo.

Hora e meia de espera dá para consultar a minha caixa de correio electrónico num cibercafé instalado num corredor, literalmente entalado entre duas das lojas do terminal rodoviário. É apertado o espaço e os clientes são muitos, mas lá consigo mandar notícias para Portugal e alertar a Vera Sanches e a sua amiga Geórgia, do secretariado do Turismo de Minas Gerais, acerca da minha posição geográfica neste preciso momento e a previsão da data de chegada a Belo Horizonte.
Estabeleço o contacto agora pois não sei quando terei nova oportunidade de o fazer. Apesar dos meus constantes alertas, todos continuam a supor que vou chegar de avião. No correio que me enviam, insistem para que lhes indique a hora do voo para me irem buscar ao aeroporto Tancredo Neves, situado a uns 20 quilómetros de Belo Horizonte. Presumo que isto acontece porque para a maioria das pessoas é impensável que ainda haja quem esteja disposto a percorrer milhares de quilómetros por terra quando são inúmeras as aeronaves no ar.

Entre Porto Alegre e Belo Horizonte medeiam 1724 quilómetros, o que é muito chão para andar, como se diz por cá. Quando chegar amanhã de manhã a São Paulo faltar-me-ão ainda 602 quilómetros.
O problema neste tipo de viagens – com um objectivo concreto a cumprir, o que implica dar satisfações a alguém – é que as pessoas que estão do lado de lá – neste caso, no continente do lado de lá – à falta de experiência no terreno são incapazes de perceber o que significa viajar e trabalhar simultaneamente, e então tendem a interpretar como leviandade ou falta de consideração qualquer falha no estabelecimento de contacto.
Deslocar-se de um sítio para outro com pouco ou nenhum conforto pode ser (para quem está disposto a isso) um imenso prazer mas também um autêntico sorvedouro de energia. E como bem sabe quem na estrada já andou, coisas tão simples como fazer um telefonema ou mandar um e-mail podem transformarem-se numa enorme dor de cabeça e frustração.
publicado por JoaquimMDC às 09:36
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
O historiador Assunção
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Acontece-me sempre isto. Chego a um determinado local, com a lição minimamente estudada, e, ao mais ténue contacto com os estudiosos locais, vivos ou expressos nas letras que nos legaram, dou-me conta que, afinal, conheço muito pouco da história da região.

Fernando O. Assunção, historiador uruguaio, filho de Octávio Assunção, um emigrante de Fão, Esposende, é agora o meu mestre de serviço. Meu e de todos os que se interessam pela história da região, pois era reconhecidamente a sumidade na matéria. E, como tal, o Estado português convidou-o a estar presente no congresso sobre o Património de Origem Portuguesa que decorreu em Coimbra em 2006. Infelizmente, essa seria a sua última viagem. Morreu no nosso país, fulminado por um ataque cardíaco.
Assunção, além de historiador era antropólogo, etnólogo e artista plástico, tendo publicado vasta obra sobre as tradições gaúchas.

Desloco-me à casa onde vivia, num oitavo andar em Bexura, no bairro de Pocitos, uma das zonas residenciais de eleição da capital uruguaia, para visitar a viúva e a filha.
As lágrimas saltam dos olhos de Margarita Corallo de Assunção, quando fala do marido, cuja imagem traz ao pescoço. Ao seu lado está a filha, Margarita Assunção de Garretano, licenciada em Letras, como indica o seu cartão-de-visita, e que tudo tem feito para resgatar e dar a conhecer a obra do seu pai.

(ver: http://www.youtube.com/watch?v=wAupUHO5Cww)

A acção de Assunção foi fundamental para que Unesco atribuísse a tão apetecida distinção.
– Foi um trabalho de mais de 30 anos em união de esforços com o arquitecto António Cravotto, de investigação e recuperação da área histórica – diz Margarita, em bom português.
– Nem imagina o trabalho que isso representou para ele –, diz, por sua vez, a viúva Margarita que, «apesar de não me correr sangue português nas veias», vive com muita intensidade toda esta história da diáspora portuguesa, antiga e recente, no Uruguai. Como prova disso entrega-me um livro de mesa, «o mais importante jamais feito sobre Colónia de Sacramento», com fotografias de um dos mais destacados fotógrafos de Uruguai, Alfredo Testoni. Os textos históricos são da autoria do marido.
– Colónia é como uma pedra de muito valor incrustada no Rio da Prata – conclui a Margarita filha.

Da viagem que fez a Portugal com o marido em 1967, Margarida Assunção recorda a amabilidade dos portugueses, o vinho verde e o bacalhau.
Parecem lugares comuns, e se calhar são, mas não se pode negar as virtudes dessas iguarias. Nem do vinho do Porto. O sogro dela recebeu-a com um copo desse néctar. – Gostava de morrer a beber um copo de vinho de Porto – proclama a viúva, como quem diz, «o chá-mate, nós, os uruguaios, temos todo o tempo do mundo para o beber.»

Assunção deslocava-se a Portugal duas ou três vezes por ano, onde tinha contactos e amigos no mundo académico. Esse trabalho mereceu-lhe inúmeras distinções.
A filha acompanhou o pai por altura da Expo 98, pois tinha sido nomeado comissário do pavilhão uruguaio.
– Fizemos um itinerário longo e muito completo – diz Margarida. – Partimos de Évora e subindo pelo interior do país. Posso dizer que conheci alguma coisa do país real.

– O nome Assunção é, muito provavelmente, de origem judaica, como muitos outros nomes desta região – informa.
E conta depois a saga do patriarca da família:
– O meu avô Octávio veio para o Brasil com os seus irmãos, mas como não de adaptou ao clima do Rio de Janeiro e decidiu apanhar o comboio para a Argentina, mas em rota fez uma paragem em Montevideu, que nessa altura, início do século XX, atravessava um período muito próspero. Ele gostou muito da cidade e ficou por lá. Encontrou aqui um amigo do tempo da escola primária. Facto determinante para essa sua decisão. Montou logo um negócio.

Sobre a quantidade de portugueses existentes na região do rio da Prata nada melhor que transcrever o que registou a quase centenária escritora argentina, Virginia Carreño, no seu livro Estancias e Estancieros:
«Muito pouca gente no Rio da Prata sabe até que ponto é de origem portuguesa. O português pertence ao pouco claro princípio de tudo, à conquista, à introdução do gado bovino, ao primeiro comércio destas costas atlânticas…, a influência artística, a contribuição na formação do carácter, e a decisiva participação na actividade comercial foram aceitas e integradas no dia-a-dia das nossas repúblicas. Por isso, uma enorme quantidade de apelidos, palavras, modos, usos e costumes, cujas origens buscamos complicadamente têm uma única e só explicação: é um legado português».

O consagrado escritor Jorge Luís Borges, também ele descendente de portugueses, traduz esse sentir com uma frase lapidar:
«Nada ou muy poco sé de mis mayores portugueses
los Borges, vaga gente que prosigue
en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores,
indescifrablemente forman parte del tiempo
de la tierra y del olvido»

Mãe e filha conduzem-me pelos aposentos da casa, como numa visita guiada, tendo o cuidado de me mostrar todas as condecorações (como a cruz da Ordem do Infante) os diplomas, os quadros dos pintores amigos, entre os quais Reilley, que ilustrou muitos dos livros que escreveu sobre cavalos e gaúchos (pormenores sobre o tipo de pelugens, os estribos, as selas, as botas e vestimentas dos homens das pampas) e ainda os estudos de Assunção sobre a «chamarrita», dança de origem portuguesa.
Mostram-me também a biblioteca, o local onde ele trabalhava e as cuícas em prata para o mate, os pentes de Margarita, «eu era dançarina», punhais, espadas e arreios, pois Assunção era cavaleiro. E lá está ele, numa foto antiga, montado a cavalo em plena avenida de Montevideu acompanhado da mulher e filhas.

Na mesa do escritório de Assunção está uma placa com seguinte frase de Borges: «A memória, a vasta memória da humanidade é agora o livro. O livro é como o homem, corpo e alma. Há algo de sagrado em cada livro».
publicado por JoaquimMDC às 13:29
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Ramblas de Montevideu
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Acompanhado por Keith, marido de Luísa, percorro a rambla costeira de Montevideu. Nuvens de chuva pairam sobre o rio da Prata. De Inverno, os ventos antárcticos dominantes não devem ser nada fáceis de suportar. Na paisagem urbana destaca-se um edifício que faz lembrar o Burj Al Arab, hotel de sete estrelas, coqueluche dos Emirados Árabes Unidos.
Após meia hora de percurso, desembocamos num centro histórico totalmente descaracterizado, onde sobrevivem alguns exemplares de edifícios de arte nova e arte deco, e, na Praça da Independência, um arco que assinala esta cidade fundada pelos portugueses. Sofre obras de restauro, espreitado por dezenas e dezenas de horríveis edifícios vidrados que vieram substituir os imponentes congéneres neoclássicos que assistiram (são hoje e símbolo) do crescimento do Uruguai como país independente.

Olhando um mapa da cidade apercebo-me da situação estratégica desse portão, exactamente a meio de uma rua que é Juncal numa das pontas e Ciudadela na outra. Aí estava a muralha que separava a cidade histórica congregada numa espécie de Península, um pouco como Colónia de Sacramento. Só que em Montevideu existe outra quase península, a sul, onde também foi erguida uma fortaleza.

Procuro nomes de ruas familiares e encontro uma dedicada a João de Solis, no centro histórico, e uma outra, já mais para o interior, dedicada a Fernão de Magalhães.
É domingo e as ruas estão vazias. Nas paredes o protesto: «parem com salários de miséria». Continentes diferentes, as mesmas revindicações.

Percorrermos bairros com casas muito degradadas, passamos pelo praça Matriz, até desembocarmos na praça Zabala, onde se conserva um pouco da Montevideu antiga. Uma estátua, um jardim, uma igreja, um grupo de turistas – os primeiros e únicos que avisto – e as persianas corridas nas janelas verdes dos edifícios do século XIX.
– Os seus proprietários foram com certeza passar o fim-de-semana em Punta Del Este. Correm os estores para evitar a entrada de luz – comenta o inglês.

Keith faz questão de mostrar-me o estado da casa onde viveu Carlos Gardel. Uma lástima. – Deviam transformá-la num pólo museológico. Já aqui vim várias vezes e deparei com isto sempre fechado – comenta.

Acabamos por descer até a parte norte da península onde nos devemos encontrar com a embaixadora e os seus convidados do ministério da Defesa português. Eles aguardam-nos, sentados ao balcão de um dos pequenos restaurantes do Mercado del Puerto, em frente do porto com o curioso nome de Rambla 25 de Agosto de 1825, a data de independência do Uruguai. É um mercado coberto, preenchido de cafés e restaurantes.

Paulo Viseu Pinheiro, director da política de defesa nacional, lidera uma equipa que aqui está em missão oficial. Para ele, a eleição das 7 Maravilhas dá a conhecer «a presença multissecular de Portugal que contribui para uma melhor estabilidade e paz no mundo». O político louva a nossa capacidade de nos misturarmos sem perdermos nem fazer perder outras identidades culturais, acabando por concluir que um local como Colónia de Sacramento «traz mais a Portugal e mais ao Uruguai».

O mundo tem destas coisas. Conversa puxa conversa, chego à conclusão que o director da política de defesa nacional é irmão de um amigo de Macau, Francisco Vizeu Pinheiro, homem sensível a estas coisas do património, daí a nossa cumplicidade.
publicado por JoaquimMDC às 12:52
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
O filósofo Carlos Vaz Fereeira

O peso da comunidade portuguesa em Montevideu é relativamente pequeno. A embaixada tem inscrito mil e quinhentos portugueses uruguaios, com fortes laços a Portugal, mas muitos há que mantêm apenas os apelidos ou uma ou outra afinidade qualquer.

 

A figura mais conhecida da comunidade lusa, é a do filósofo Carlos Vaz Ferreira, referência maior da intelectualidade uruguaia. Em 2008 assinalaram-se os 50 anos da sua morte.

– O facto de esse ano ter sido dedicado à vida e obra de Vaz Ferreira, diz bem da importância que ele tem no país – comenta a embaixadora, ao entregar-me um CD com informações sobre a vida desse pensador.

 

Referência em toda a América Latina, Carlos Vaz Ferreira, nasceu em 1872 e faleceu em 1958. Era de ascendência portuguesa pela linha paterna, e portuguesa e espanhola pela linha materna. Num Uruguai impregnado de positivismo, Vaz Ferreira, que era professor, introduziu no ensino uma postura aberta. Praticou e preconizou a reflexão com independência de escolas e sistemas de ensino, indo directamente aos problemas, tal e qual a realidade os apresenta. O seu nome foi lembrado como uma bandeira pelos estudantes universitários, em defesa da autonomia universitária, durante a ditadura de presidente Terra.

A obra de Carlos Vaz Ferreira abarca as áreas da filosofia pura, metafísica, ética, estética, filosofia da religião, filosofia jurídica social e pedagógica.

 

A embaixadora oferece-me ainda um livro de aguarelas sobre Fernando Pessoa, do argentino Hermenegildo Sábat, intitulado «Anónimo Transparente». Sábat considera esse livro «uma interpretação gráfica do poeta universal», à semelhança do que fizera anteriormente com a obra de Jorge Luís Borges, Carlos Gardel e Django Reinhardt, todos personagens solitários.

Trata-se de uma vintena de aguarelas com retratos de Pessoa, mais ou menos surrealistas, acompanhados de pequenos textos. Num deles, Sábat escreve o seguinte: «Capaz de sentir-se encantado pelo génio com maiúscula, Pessoa, monge sui generis, vestiu-se de renúncia e silêncio, lutando consigo próprio e os seus alteres egos, que o acompanharam em todas as suas dúvidas, crises e questões».

Na contracapa, o argentino comenta, com ironia: «se você deixa crescer o bigode e o escanhoa com cuidado, compra óculos de aros de tartaruga e decide usar um chapéu de aba larga, não esqueça que caminhar só e aceitar um obscuro posto numa qualquer escritório não são condições necessárias e suficientes para ser poeta. Agora, se pretende que as suas obras alcancem o nível de Fernando Pessoa, deverá ser tratado urgentemente por um neurólogo e um psiquiatra porque, pobre de si, está completamente louco.»

publicado por JoaquimMDC às 14:01
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Portugal versus Uruguai
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Luísa Bastos de Almeida compara o actual estado das relações bilaterais entre Portugal e o Uruguai a um «casamento sem paixão». Ou seja: nada se passa. E isso de nada se passar não combina com a sua maneira de ser; sempre que pode tenta inverter a situação.
Do trabalho já efectuado, constava a assinatura de um acordo cultural e de educação, mas pouco se tinha feito para o implementar. Socorrendo-se da experiência que acumulara no Instituto Camões, Luísa meteu mãos à obra. Começou por solicitar uma leitora de português, que é a que se mantém ainda hoje em funções.
– A professora Raquel Carinhas, que se tem mostrado de uma competência exemplar, começou por dar formação a professores de português locais – diz.
A par da docência, a leitora funciona como agente cultural, divulgando as mais diversas iniciativas culturais.

O ensino da Língua Portuguesa é um dos objectivos do governo uruguaio, que discutirá em breve no parlamento uma proposta de lei no sentido de o considerar obrigatório. Até porque a língua portuguesa é já uma realidade na zona fronteiriça com o Brasil, «onde de manhã se dão lições em espanhol e à tarde em português». A população daí nem fala uma língua nem a outra, antes uma forma de portunhol.
– Claro que isso vai requerer mais professores e mais material didáctico. E doações de gramáticas e dicionários não têm faltado, da parte do Instituto Camões – lembra a embaixadora.
O governo Uruguai sabe bem que a língua portuguesa é um instrumento económico muito forte, pois o vizinho Brasil vai ser um gigante que crescerá ainda mais.
– Se a Guiné Equatorial está na CPLP porque razão não há-de estar o Uruguai? – pergunta, com toda a legitimidade, Luísa Bastos de Almeida.

O ano de 2007 foi fundamental para o relançamento das relações entre os dois países, tendo havido uma verdadeira comunhão de esforços aproveitando o facto de esse ano Portugal presidir a União Europeia e o Uruguai o Mercosul.
O presidente uruguaio, Tabaré Vasques, visitou Portugal em Setembro desse ano.
– Foi a primeira visita de um chefe de estado uruguaio a Portugal em duas décadas – nota a embaixadora.

Para além da agenda EU e do Mercusul, foram discutidos assuntos de defesa nacional (assinatura de acordos mútuos), foi estabelecido um acordo na área da saúde e outro na área económica. A negociação de duas fragatas portuguesas que o governo uruguaio pretendia adquirir, é assunto já resolvido. Uma dela foi vendida e outra doada, o que implica uma futura cooperação entre as duas marinhas. Portugal pode tirar partido da presença de capacetes azuis uruguaios nas Nações Unidas e das investigações de Ciência e Tecnologia em curso na Antárctida, colocando um cientista português na base que esse país tem nesse continente.

Uma das medidas da embaixadora foi reanimação da Câmara de Comércio que estava em perigo de encerramento. Outra área de cooperação a explorar é a da saúde. Há imensos médicos no Uruguai e o serviço de saúde é gratuito, como em Cuba. Luísa Bastos de Almeida lembra que «actualmente trabalham no INEM catorze médicos uruguaios».

Portugal tem também contribuído para a modernização do Estado uruguaio, «nomeadamente na área da justiça e cooperação penitenciária». O uso de pulseiras electrónicas é um programa que está ter sucesso no Uruguai. Exportamos para o Uruguai o conceito da Empresa na Hora e o sistema da Via Verde, que já existe no Brasil.
– Há que tirar proveito do capital emocional e histórico que é muito grande e poderá dar ainda muitos mais frutos no futuro – conclui.

Uma das áreas em que Luísa mais quer apostar é na cultura.
– Tivemos o ano passado uma exposição de fotografia «Museu Improvável», apoiado pela Calouste Gulbenkien, que foi um enorme sucesso – diz.
Portugal começa a ser olhado como um país de vanguarda, embora muito pouco se conheça acerca dos nossos escritores, artistas plásticos ou músicos.
Também uma exposição de cartografia dos séculos XVI e XVIII percorreu todos os departamentos e Casas da Cultura do país.
– As intendências, organizavam depois visitas guiadas aos alunos e assim, desse modo didáctico, era feita a ligação histórica de Portugal e Uruguai – acrescenta.

Com o apoio do Instituto Camões, e por iniciativa de Luísa Bastos de Almeida, a Embaixada de Portugal editou um trabalho em CD do Ensemble Vocal e Instrumento de Profundis, com músicos argentinos e uruguaios, que interpretam magistralmente o Códice de Oaxaca, da autoria do padre Gaspar Fernandes (1566-1629).
O «Cancioneiro Musical de Gaspar Fernandes» é um vasto documento considerado «um dos tesouros mais espectaculares de qualquer catedral do hemisfério ocidental», nas palavras do musicólogo norte-americano Robert Stevenson. O «Cancioneiro Musical de Gaspar Fernandes» integra o denominado acervo de «Oaxaca», México, património documental reconhecido, desde 1997, pelo programa UNESCO «Memory of the World Register».
publicado por JoaquimMDC às 13:59
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Passagem por Montevideu
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No último dia da minha estada em Colónia, Cláudia Gandini retoma as funções de anfitriã e leva-me a almoçar uma vez mais ao restaurante Casa Grande. Em troca – parou de chover e o céu azul é de novo a realidade que todos ansiamos – pede-me que a fotografe na Calle dos Suspiros.
– Mas depois retoque as fotos com a ajuda do Photoshop – ordena ela –, faça qualquer coisa, só não me deixe feia.
Aproveito o inesperado pedido para fazer mais uns bonecos. Fotógrafo que se preze nunca se dá por satisfeito com as imagens que regista.

Finda a tarefa, em jeito de despedida, Cláudia entrega-me uma pequena lembrança com uma frase da sua autoria: «Colónia de Sacramento… donde cada rincon te atrapa com su magia, y sus cales de ensueno te envolvem em mil matices.». Desconhecia a veia poética da Relações Públicas da Intendência!
Claro que de bom grado ficaria atrapado por cá uns dias mais, mas o objectivo está cumprido e o caminho pela frente é longo.

Tenho dificuldade em deixar os lugares que gosto, pois há sempre algo a descobrir e, por mais que o aproveitemos, nunca é suficiente o tempo de que dispomos. Por isso, como incentivo à partida vem mesmo a jeito a insuportável humidade e a «ameaça» das hordas de turistas argentinos, já que o fim-de-semana está à porta.

Na viagem de regresso a Montevideu, o autocarro da COT faz várias paragens e apercebo-me de pormenores que me tinham escapado na deslocação anterior – as palmeiras despidas à saída da cidade, a zona franca Libertad… –, mas isso é perfeitamente normal. Parecem-me muitos mais os automóveis vintage estacionados nas quintas e registo, desta vez, a presença regular de estabelecimentos de bate chapas e gomarias (no Brasil chamam-lhe borracharias) que quebram a monotonia das extensões agrícolas onde o gado pasta e os outdoors publicitam a marca de roupa Burma e um sem número de empresas com nomes germânicos e marcas de vinho com designação italiana.
A Petrobras brasileira está por cá também, e embora nas lojas de Colónia me tenha fartado de ver latas de azeitonas made in Uruguay, das árvores onde elas crescem é que nem sinal.

À entrada de Montevideu, retenho o curioso nome de uma igreja evangélica que em nada fica a dever às congéneres brasileiras: «Auditório de Las Ondas de Jesus». Poético, no mínimo.

Logo que desembarco no terminal Tres Cruces, telefono à embaixadora que me indica o local onde vive e me confirma o convite anteriormente feito, para que ficasse uns dias na sua residência.
– Estou ainda na chancelaria, mas telefone lá para casa que a empregada atende. Vá indo que ela trata de tudo – diz.

Claro que só posso ficar extremamente agradado com esta manifestação de confiança. Afinal, só nos conhecemos via e-mail e, apesar de representar a iniciativa 7 Maravilhas de Origem Portuguesa, para Luísa de Bastos Almeida não passo de um ilustre desconhecido.

Apanho o primeiro táxi disponível, que com muita dificuldade (parece querer desconchavar-se pelo caminho) leva-me até Carrasco, o mais requintado bairro de Montevideu, junto ao rio da Prata. Não é fácil encontrar o caminho e o pobre do taxista vê-se obrigado a pedir informações a colegas seus.
– Não costumo fazer fretes para este local – diz ele, atenciosíssimo, tentando justificar a demora.
Chegamos, finalmente, junto a um imponente casarão branco, identificável pela bandeira das quinas que esvoaça no alto de um mastro à mesma altura de uma outra, da União Europeia, num jardim sem qualquer vedação.
Que bom é pertencer a um país que se dá ao luxo de ter uma representação diplomática sem muros altos, arame farpado ou militares armados dentro de guaritas ou fora delas!

Saio do táxi e nem preciso de tocar à campainha. A sorridente empregada peruana, de uniforme azul e avental branco, abre já o portão, dando-me as boas vindas e conduzindo-me depois ao primeiro andar onde está o quarto de hóspedes – de enormes dimensões, com duas camas e vista privilegiada para uma pequena piscina Lá fora o vento é constante. Mas que diferença de temperatura entre Colónia e Montevideu. De repente, a humidade desapareceu e o frio instalou-se.

Tenho tempo para tomar um banho e desfrutar de todo aquele espaço até à chegada dos meus anfitriões. A embaixadora, sorridente, dona uma genica extraordinária, e o marido, Keith Sangway, funcionário inglês de carreira e a fleuma em pessoa.
Feitas as apresentações, arranjam-se e voltam a sair, pois há um casamento programado. Mas antes da partida, Luísa sintoniza a televisão na RTP Internacional, «para saber das notícias». – Se quiser utilizar o computador – sugere – esteja à vontade. Basta clicar na pasta dos Amigos. É para isso que ela foi criada.

Surpreende-me, uma vez mais, o gentil convite, pois o computador está na mesa da sala que serve de local de trabalho a ambos. Mas depressa entendo que Luísa Bastos de Almeida assume, na sua essência, o verdadeiro papel do diplomata. E sente-se logo que tudo o que faz não é forçado.
– Ainda anteontem esteve aqui a jantar um grupo de jovens empresários portugueses. Esta casa tem sempre gente – diz ela quando nos despedimos.

Ao jantar, face a um bife ensanguentado no prato que a empregada põe à minha frente, não me resta alternativa. Como-o, e a verdade é que me sabe bem. «Estou no país da carne, porque não experimentá-la?», diz-me a parte da minha consciência alojada no lado vegetariano do cérebro. A verdade é que já não comia um bife desde os meus dezoito anos.

Ao folhear os jornais apercebo-me que esta noite há um concerto do Hermeto Pascoal – o grande Hermeto! Tive o privilégio de o conhecer numa das primeiras edições do Festival de Jazz de Guimarães, graças ao convite do meu amigo António Ferro, na altura o responsável pelo evento.
Hermeto é um verdadeiro génio musical, fascinante personagem despido de quaisquer vestígios de vedetismo.
– Quando vieres ao Brasil, vem visitar-nos. A nossa casa está sempre aberta para os amigos – dissera-me ele, nos bastidores, acompanhado da mulher, que o ajudou a entrar no palco alguns minutos depois, pois Hermeto, sendo albino, enxerga muito mal.

Luísa Bastos de Almeida liberta-se com facilidade da farda oficial para se tornar numa amiga sincera. Sempre que algum membro do Governo ou simples amigo a visita, leva-os a Colónia de Sacramento, pois «para além de constituir uma mais-valia cultural é comoventemente uma coisa portuguesa».

Uma vez regressada a casa, não se cansa de realçar a importância da cidade que eu acabara de visitar.
– Para os uruguaios – diz ela – Colónia é um chamariz para o turismo; para Portugal, um óptimo meio de divulgação, pois os turistas que a visitam passam a ter curiosidade em conhecer o país que esteve na origem dessa pérola do património.

http://www.youtube.com/watch?v=MG80ngrKjzo

Quanto à presença de portugueses, basta consultar uma lista telefónica. Metade dos apelidos no Uruguai é de origem portuguesa. E a panóplia é grande.
– As pessoas na rua fazem gala em perguntarem-me, mas você é portuguesa? – comenta.
E quando ela lhes responde na positiva, exclamam: – Eu também sou –. Ou se não são eles, é um seu avô, uma sua avó, um parente distante.
– Têm origens portuguesas mas conhecem mal o nosso país, nem nunca lá foram sequer – resume a diplomata.

A abundância de apelidos que nos são familiares também se pode comprovar com uma aleatória consulta aos jornais e revistas pousados na mesa da sala de estar. Folheie-se, por exemplo, o suplemento Sábado Show do El País, homónimo do reputado jornal espanhol e o mais popular diário do Uruguai, e repare-se na ficha técnica: vemos ali um Sobral, um Conde, um Medeiros, todos articulistas. Protagonistas do meio social de Montevideu, com destaque nas páginas interiores, o actor Luciano Castro e o autor da rubrica Miradas, o «grande redactor» Luís Ventura.

A revista de mexericos Galeria dá destaque ao casamento de um rebento Silveira com uma menina dos Navarro. O pai do noivo, o empresário Jorge Silveira, director da grife La Corte Marcelo, posa com a mulher junto a uns Albuquerque e a uns Álvares.
A directora da empresa Work Office chama-se Susana Vidal de Barreto e uma das entrevistadas da edição desta semana da Galeria é a técnica de medicina nuclear, Zulena Gonçalvez.

Se o apelido Gonçalves na Ásia se transformou em Gonsalves, no Uruguai passou para Gonçalvez. Como Figueiredo derivou em Figaredo, Ribeiro em Ribero, Freitas em Fleitas, Saraiva em Sarabia.
publicado por JoaquimMDC às 13:55
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Sábado, 4 de Abril de 2009
O culto do chá mate

Os uruguaios, ainda mais que os argentinos, riograndenses ou paraguaios, todos eles grandes apreciadores de chá-mate, passeiam-se nas ruas, ou melhor, não saem à rua sem a sua garrafa de termos com água quente, que geralmente transportam debaixo do braço.

 

O mate, que tanto designa a erva como o vasilhame onde é preparada a decocção, representa para eles o que o chá verde representa para os chineses, vietnamitas e japoneses. Uns e outros não prescindem dessas miraculosas bebidas, faça quente ou faça frio. É algo de gutural, cultural também.

 

Confesso adicto de chá verde que sou, aprendi a substituí-lo pelo mate escosa buena em saquetas que se vende nos supermercados, enquanto não me decido a comprar mate a granel e equipamento apropriado, como qualquer rioplatense faria se estivesse no meu lugar.

 

Para preparar uma boa infusão é fundamental a erva, a cuia – feita a partir de uma cabaça devidamente seleccionada, que deve ser curada antes de ser utilizada como vasilha –, a bomba (geralmente fabricada em metal e que serve para sugar e filtrar a infusão), e a garrafa térmica, o garante de água quente durante várias horas, requisito fundamental. O uso da garrafa térmica em vez da tradicional chaleira é uma inovação uruguaia que permitiu que o mate passasse a ser bebido em qualquer lugar. No Uruguai, ao contrário dos restantes países, o mate compartilha-se, utilizando sempre a mesma cuia e a mesma bomba. É esta forma de partilha que o diferencia do chá ou do café.

«De acordo com o lugar, o momento ou a pessoa com quem o toma, o mate adquire diferentes significados. Pode ser alimento, companhia para as horas mais longas, ou simples factor de união e sinal de boas vindas», vem escrito no folheto turístico que os serviços de turismo uruguaios propositadamente prepararam.

 

A erva-mate provém de uma árvore que cresce espontaneamente nesta região sul-americana, em zonas de cultivo temperadas e pouco frias. Tem um conteúdo apreciável de cafeína, numa posição intermédia entre o chá e o café em termos de proporção do alcalóide. É estimulante, diurética e altamente nutritiva pois contém vitamina A.

 

A bebida data do período pré hispânico e está ligado à cultura dos índios guaranis. Companheiro inseparável do gaúcho desde o século XVII, com o correr dos tempos, o mate foi cativando também os habitantes da cidade.

 

Antes de ir dormir, prometo a mim mesmo aprender a preparar devidamente a cuica para o mate, já que a senhora Dolores se disponibiliza a ensinar-me.

 

– A cabaça deve ser bem enchida com erva-mate – diz ela, enquanto faz uma pequena concavidade num dos lados para poder despejar a água a ferver, que nunca deve cobrir por completo a preparação, pois seria falta de respeito para com a planta, que se pode considerar sagrada. Em jeito de conclusão, remata: – Os homens gostam dela mais amarga e as mulheres mais suave.

 

 

Enquanto lhe estudo os gestos, reparo que Dolores parece-se com a mulherzinha que me vende os legumes no mercado da Figueira, em Lisboa, que por sua vez me faz lembrar a minha tia Fernanda, que é freira.

É engraçado: Todos temos os nossos sósias, nos locais mais inesperados.

publicado por JoaquimMDC às 19:30
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Os candidatos e a literatura
Choveu mas não arrefeceu, a humidade aumentou até consideravelmente.

A caminho do hotel sou alertado pelo rufar de tambores e o toque de trompetes de uma fanfarra que anima as hostes de Beretta, candidato à eleição presidencial já em pré-campanha, apesar do escrutínio se realizar apenas daqui a um ano. Para colorir o evento juntaram ao grupo alguns gaúchos montados a cavalo e vestidos a preceito: chapéu de abas, botas altas com esporas, cinto com o punhal acoplado, e lenço vermelho à volta do pescoço.

Já no resguardo do Leôncia, e a propósito do circo eleitoral há minutos presenciado, ouço o seguinte desabafo de Dolores, a senhora da limpeza:
– Esse Beretta não me convence. E o Tabaré, o actual presidente, também não.

Para Dolores o senador Moreira é o que reúne mais hipóteses. – Queremos Moreira de volta – diz ela – pois por tudo o que já fez, não precisa de campanhas.

Moreira é um dos apelidos lusos mais usuais no Uruguai. Assim como Miranda. Há um prolífico poeta chamado Luís de Miranda, com duas dezenas de títulos publicados, que se prepara para lançar um livro (com edição prevista entre nós) denominado Velas de Portugal.
Miranda faz parte do colectivo Poetas del Mondo cuja newsletter, sem saber porque, passei a receber na minha caixa de correio electrónico. É certamente obra e engenho de Lúcia Santos, a poetisa de São Luís do Maranhão.

Umas horas depois regresso à rua e entretenho-me a procurar nas tabuletas e montras das lojas ainda abertas rastos visíveis da nossa passagem e permanência. Pergunto-me se haverá algum tipo de relação entre os proprietários da farmácia Da Costa (onde vou comprar um frasco de multivitaminas) e os empresários da indústria alimentar responsáveis por colocar no mercado, entre outros consumíveis alimentares, as latas de sardinhas Gomes da Costa, bem mais caras do que em Portugal.

Mais adiante, demoro o olhar no escaparate da livraria situada à frente da Intendência. Os preços praticados são iguais aos da Europa. Anoto alguns títulos e respectivos autores. «A história que nos pario» e «El lugar dos grandes pecados atroces», do escritor Júlio César Castro. «Ensayos sobre la indocrassia Rio Platense», de António Lezamo. «A história secreta de Montevideu», de Leonardo Borges. «Os índios uruguaios», de Rinzo P. Hugarte. Enfim, nomes a juntar aos de Eduardo Galeano e Mário Benedetti, os únicos autores uruguaios que conheço.
publicado por JoaquimMDC às 19:30
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