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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
A vila dos sete morros
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Quem, vindo do sul do Brasil, pretenda chegar a Olinda, tem de atravessar as pontes e os canais do Recife, essa tentativa de recriar Amesterdão nas Américas, sendo o último de uma série de viadutos com que se deparará, aquele onde pereceu, num acidente de viação, Chico Science, criador do mangue beat, um dos recentes estilos musicais de Pernambuco, que veio enriquecer a já vasta panóplia de ritmos nordestinos onde, entre outros, se inscrevem o frevo, o maracatú e, claro, o endiabrado forró.

Enquanto os traços holandeses pouco se notam, a lusitanidade transpira por todos os poros desta cidade caracterizada por um número elevado de igrejas e um estilo arquitectónico, no mais puro barroco tardio, comum a todos as povoações fundadas pelos portugueses, fosse na América, em África ou nos diferentes recantos da Ásia. Acresce a tudo isto, a curiosa singularidade de serem sete as colinas onde foi crescendo o povoado original, como sete são as colinas de Macau (sua concorrente nesta iniciativa), Lisboa, Roma e um número indeterminado de outros locais do planeta. As sete colinas associadas a cidades é uma desses mistérios e coincidências que não se conseguem explicar.

Desloco-me a Olinda na companhia de três das minhas primas brasileiras, um passeio que tem como destino final a casa onde actualmente vive o responsável por esta muito unida prole, decano da família, pelo lado da minha mãe, o português e meu tio-avô Elísio Caldas, natural de Lobão, Santa Maria da Feira.
Elísio foi um dos muitos jovens que nas primeiras décadas do século XX vieram procurar a sorte numa cidade que quatro séculos antes o primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, mandou erguer numa colina sobranceira ao mar. Ela acolhe o mosteiro de São Bento, símbolo maior do barroco, que serviria de inspiração a tantos outros em todo o nordeste brasileiro.

Estamos no início da tarde a as ruas próximas ao monumento estão vazias. A cidade, rendida aos 35 graus centígrados, dormita ainda.
Embora não o aparente exteriormente, o mosteiro de São Bento, datado de 1760, obra do arquitecto Francisco Nunes Soares, é a mais categorizada edificação da cidade. O seu altar-mor de talha dourada, executado por frei Miguel Arcanjo da Anunciação, regressou recentemente dos Estados Unidos, onde permaneceu durante vários anos para obras de restauro. Chegou mesmo a estar exposto ao público durante algum tempo. Pelo menos é o que diz o guia de um dos raros grupos de turistas com que me cruzo no interior.
Inspirado no Mosteiro de Tibães, no norte de Portugal – dizem os entendidos –, este edifício situa-se a meio caminho entre a parte baixa e a parte alta da cidade, antes de chegarmos às ruas dos entalhadores, ceramistas, pintores e escultores, pois do cultivo das artes vive ainda esta pequena e tranquila pérola pernambucana.

Fabricam-se em Olinda estampas, máscaras (algumas estão expostas nas fachadas das casas que as produzem) e xilogravuras – os folhetos impressos com moldes de madeira é uma tradição europeia que remonta ao século XV.
Mas são os bonecos gigantes, com origem nos gigantones das festas populares das povoações do litoral norte de Portugal, o que mais impressiona. Eles são, aliás, uma das principais atracções do Carnaval, e a prova provada que foram os portugueses que introduziram esta festividade no Brasil, e não contrário, como ainda muita gente pensa.

No alto da Sé, deixo as primas entregues as suas compras, e avanço para a cidade que continua meia deserta, numa busca que terá de ser pessoal e totalmente pedestre. De outra forma não podia ser. Olinda é pequena e compacta. Uma verdadeira concha que encerra pérolas arquitectónicas que se tornam ainda mais belas quando as vemos alinhadas ao longo das ladeiras íngremes e fortemente arborizadas.

Entre as duas dezenas de templos católicos, destacam-se a igreja do Santo António do Carmo, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos – a primeira em Pernambuco a autorizar a entrada de negros escravos ou alforriados – e, no Alto da Sé, principal palco da cidade, a igreja de São Salvador do Mundo, fundada em1540, onde está o túmulo de Dom Hélder Câmara, o «bispo vermelho», defensor dos sem-terra e opositor à ditadura militar.

Em Olinda viveu também, em 1627, tinha então 18 anos apenas, o padre António Vieira, paladinos dos povos indígenas e dos escravos africanos, e certamente alguém que inspirou o inspirador da «teologia da libertação». Numa das suas alas laterais exteriores consegue-se uma das melhores panorâmicas.
A tradição social reflecte-se também no domínio académico. Inspirada pela Universidade de Coimbra, Olinda acolheu a primeira Escola Superior de Direito, fundamental no processo de evolução do Brasil imperial rumo à República.

No Alto da Sé onde, em 1860, um astrónomo instalou o seu observatório, tendo descoberto um cometa a que deu o nome de Olinda, o prédio Caixa d´Água, a primeira construção modernista no Brasil, chama a atenção e divide opiniões. Apesar de não ser da sua autoria teve a mão do «intocável» Oscar Niemeyer, que aos 100 anos, tal como o nosso Manoel de Oliveira, continua a trabalhar com uma energia invejável.
Alto da Sé é também sinónimo de gastronomia pernambucana. Em pequenos estabelecimentos, ou numa simples esplanada, podemos degustar a tapioca (bolinhos feios de mandioca), o queijo de coalha assado na brasa, as cocadas, os biscoitos e licores artesanais produzidos nos conventos ou mosteiros, enquanto ouvimos os afamados repentistas locais. Munidos de uns instrumentos de corda híbridos, entre a guitarra e o banjo, improvisam versos num estilo que faz lembrar o cantar ao desafio popularizado no Douro e Beira litorais.

Mas nem só de igrejas e Carnaval vive Olinda. Existem muitas outras construções históricas de relevância. É o caso do forte de São Francisco, «o fortim do Queijo», o palácio dos governadores e inúmeros sobrados onde é por demais evidente a influência árabe. Os residentes de Olinda estão proibidos de alterar o exterior das casas onde vivem, mas ninguém os pode impedir que, pelo Carnaval, as aluguem aos foliões vindos de outras partes do país, e até do estrangeiro. Muitas destas moradias foram transformadas em pensões e hotéis de charme, numa variada e abundante oferta para todos as bolsas. Os fios eléctricos e de telefone – a maior nódoa visual de Olinda – esses, é que continuam por soterrar.

«Mas que lindo local para erguer uma vila», teria dito um subordinado de Duarte Coelho (há quem atribua a frase ao capitão donatário) ao subir a colina que se ergue a norte da actual cidade de Recife. Desde então muita obra foi feita no lindo lugar de Olinda, graças aos proveitos da produção da cana-de-açúcar, uma economia onde tiveram um papel fundamental os cristãos-novos portugueses aqui refugiados, que na cidade vizinha fundariam a primeira sinagoga das Américas, e, anos mas tarde, estabeleceriam as bases da hoje poderosíssima comunidade judaica de Nova Iorque.
Nem a destruição e o saque perpetrados pelos holandeses, que obrigaram a uma alteração radical do tecido urbano – que é o actual e data do século XVIII –, impediu essa evolução, que culminaria, em 1982, na obtenção do almejado título Património da Humanidade. A isso se deve, com certeza, a harmonia mantida entre os edifícios e os espaços verdes, ainda hoje um dos principais atractivos deste aprazível local cantado por Alceu Valença, filho da terra, que não hesita em chamar «minha mulher» a Olinda: «Tu és linda/Para mim és ainda /Minha mulher/Calada /O silêncio rompe a madrugada».

Já o sociólogo Gilberto Freyre, autor de um dos livros fundadores do pensamento moderno brasileiro, «Casa Grande e Senzala», diz que «não há apenas as árvores que convivem numa excepcional intimidade com as igrejas antigas. Há também os pássaros e as crianças», justificando o seu fascínio pela cidade do seguinte modo: «Tudo isso é por causa da luz, que permite que a natureza refresque constantemente a tradição».
Agora sei porque razão o tio-avô Elísio não foi capaz de partir para o sul em busca de cidades mais prósperas, Rio de Janeiro ou São Paulo, como muitos outros o fizeram. Olinda, era, apesar de longe o que mais perto tinha da sua aldeia natal. Com uma vantagem: um mar que, ao contrário do nosso, parece incapaz de se zangar.
publicado por JoaquimMDC às 16:03
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Aqui nasceu o Brasil
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Percorrida a Costa do Descobrimento que a frota de Cabral tocou e a pena de Vaz de Caminha tão bem documentou, e depois de uma breve estada na capital do Brasil multirracial, é altura de rumar, uma vez mais de camioneta, a uma das primeiras regiões a serem ocupadas pelos portugueses em Terras de Vera Cruz. Talvez, por isso, não seja de admirar a presença aqui de duas das maravilhas a concurso, por sinal quase cidade gémeas, com uma história e um mar comuns.

Se em Minas Gerais foi o ouro o motor do desenvolvimento e das tragédias, a riqueza de Pernambuco trouxe-a o açúcar, plantado em grandes extensões centradas nos engenhos – que ainda hoje se podem visitar –, palco de desmandos de coronéis, e a sua relação com caboclos e cangaceiros, de que todos já ouvimos falar, pois Lampião e quejandos foram sobejamente retratados nos romances, no cinema e na banda desenhada. Mas com a riqueza sobreveio a guerra: Pernambuco, facilmente acessível por mar, foi assolado por holandeses e franceses. E se nos séculos XVI, XVII e XVIII se cobiçavam as riquezas produzidas na terra – alturas houve em que mais de 500 engenhos operavam simultaneamente –, hoje são os mangais, as dunas e as águas cristalinas o que mais de precioso há a preservar.

Porto de excelência, que começou por ser um apêndice da já estabelecida povoação de Olinda, Recife – «o Arrecife quinhentista» – era, em 1609, um simples acumulado de casas que em quinze anos apenas se transformaria num traçado urbano povoado por duas centenas de portugueses muito devotos, que para o provarem erigiram a capela de São Pedro Gonçalves, ou do Corpo Santo, como também era conhecida.
À força de se entulharem terrenos alagadiços, a localidade foi-se expandindo, e de uma forma desorganizada surgiram ruas paralelas. Curiosamente, a cidade só adquiriria esse estatuto com Maurício de Nassau, governador holandês que em 1637 assumiu as rédeas do poder (sete anos após a conquista da cidade pelos seus compatriotas), começando por fundar o bairro de Santo António, na época uma das três povoações que acabariam por dar origem a Recife propriamente dito.
Agora existem muitos outros bairros, ligados por uma extensa marginal, que só não constituem um elo urbano ainda mais longo, porque entre Vitória e Joabatão de Guararapes há que deixar um corredor aéreo, pois o aeroporto fica muito perto da cidade.
É nesta última cidade satélite que tenho familiares, nados e criados no Brasil.

Chego à rodoviária de manhã bem cedo. E lá estão, o primo Fernando e a prima Ana, como se nunca se tivessem regressado a casa desde que os deixei, neste mesmo local, já lá vão oito anos. O Fernando, pai da Ana, um entusiasta pela história, como eu, certamente já não se recorda o que então me dissera, pois volta a dizê-lo, um facto atrás do outro, um número após outro, tal é a paixão que nutre pela sua terra.
«Aqui nasceu o Brasil», vejo escrito nalgumas placas desta zona da cidade, como que a corroborar a dedicação e empenho deste meu primo em segundo grau.
Os pernambucanos orgulham-se da derrota que infligiram aos holandeses, em 1648, na famosa batalha de Guararapes, num local assinalado hoje por um miradouro e uma maqueta onde o episódio é contado em miniatura. Este é um excelente posto de observação para quem, como eu, gosta de ver levantar e pousar aviões.
Expulso o invasor holandês, as ordens religiosas regressaram em força, prontas a restaurar os antigos conventos e mosteiros e, claro, a erguerem mais e mais igrejas. A que nos interessa surgiu de uma iniciativa dos franciscanos que a dedicaram a Santo António, mesmo ao lado de um convento que já exista em 1606.

Ao inteirar-se da minha missão, a principal preocupação de Fernando passa a ser levar-me a esse local. O dia está magnífico, mas na mente do comum dos brasileiros paira, como sempre, o receio das ruas vazias.
– É sábado papai – alerta Ana – é melhor irem lá durante a semana. Agora é perigoso. Está cheio de vagabundo. Ainda vão ser assaltados.
Pese o exagero, Ana tem alguma razão. Passear no Recife com uma máquina fotográfica profissional, mesmo em pleno dia, é estar a pedi-las.
Mesmo assim, dirigimo-nos ao convento onde travamos conhecimento com o frei Salvador Macedo de Oliveira, que está na Ordem há 54 anos. Contrariamente ao que se passou no convento de São Francisco, em Salvador, aqui é tudo facilidades.
– Pode fotografar à vontade – convida o simpático frade, aproveitando para me chamar a atenção para o avançado estado de degradação dos azulejos do claustro.
– O salitre está a destrui-los – diz.
Não precisava de o dizer. A coisa salta à vista. Há até secções onde esses azulejos, fabricados em Portugal no reinado de D. João VI, já caíram. Quando lhe pergunto se há algum projecto de restauro previsto pelo IPHAN ou por alguma entidade portuguesa, frei Salvador desabafa:
– Até agora ainda não vi nenhum português chegar aqui não.
E aproveita para recordar que em Salvador tem havido muito mais investimento na recuperação do património, pois «os azulejos de lá estão em melhores condições».

No convento vivem 12 frades, entre brasileiros e alemães. Um deles conversa com Fernando enquanto eu me entretenho a fotografar. De tempos a tempos o pequenino frade, irrequieto e sempre sorridente, dá-me algumas indicações. Conduz-me por um corredor até uma das portas de saída do convento.
– Debaixo das pedras deste corredor foram enterrados muitos frades portugueses, assassinados durante um ataque holandês – diz.
Reparo que a porta de cor verde tem as mesmas barras de ferro, para a tornar mais resistente. Pelos vistos, de nada valeu.

O conjunto de azulejos no interior retrata cenas da criação do mundo e está em muito melhor estado que o do claustro. Todo o mobiliário da sacristia é feito em madeira de jacarandá. Frei Salvador destaca a pia baptismal, um cadeirão de estilo D. João V e um bonito e compacto armário com dezenas de pequenas gavetas.
– Era aqui que os frades guardavam os seus pertences – diz.
Indica ainda uma pesadíssima mesa colocada no meio da sacristia a que chamam «mesa de bolacha», devido à forma torneada da madeira na sua base.
Minutos depois, sob as arcadas do claustro, vejo-o receber uns donativos de uma senhora ainda jovem.
– É a mulher do prefeito – segreda-me ao ouvido o primo Fernando.
Antes de irmos, frei Salvador faz questão de lançar um apelo em frente da minha máquina de vídeo. Lembra ao «nosso querido Portugal, nossa mãe, que veio de lá para cá, descobrindo esta terra maravilhosa de Santa Cruz» a sua obrigação «para salvar toda a história do azulejo do Brasil que pertence totalmente a Portugal», concluindo, em jeito de bênção, que «há que procurar o mais rápido possível soluções de restauro e de vida, ámen».

A igreja da Ordem Terceira fica colada ao convento de Santo António, mas a sua administração é feita separadamente.
Invertem-se agora os papéis. Ao contrário do que se passou em Salvador, no Recife são os responsáveis da Ordem Terceira que começam a complicar, conduzindo-me a um quarto onde terei de aguardar para poder falar com um dos responsáveis que irá ou não conceder-me autorização para fotografar. Claro que não fico à espera, pois logo me apercebo que é mais fácil fazer a visita na condição de turista, e assim tirar as fotos que quiser, pois ninguém me irá impedir de o fazer, como não impedem os restantes visitantes.

A decoração interior, da autoria de António Santiago, é unanimemente considerada pelos especialistas da história da arte «a mais importante obra de talha do espaço português». Nas paredes laterais podem ser apreciados vistosos retábulos. A pintura é, aliás, a componente predominante, e uma vez mais deparo com temas alusivos ao Oriente, desta feita alguns quadros que contam a história dos franciscanos martirizados no Japão. Há, no entanto, uma série de pinturas que me deixam intrigado, pois foram vandalizadas. Alguém riscou os olhos de todos os personagens nelas retratados.
– Consta que são os judeus que fazem isto, por não concordarem com a versão dos factos retratados nestas obras de arte – diz-me em voz baixa o primo Fernando.
«Mas quais factos?», apetece-me perguntar. Pois. Se calhar deveria ter aguardado na sala, obedientemente, pelo tal responsável da Ordem Terceira…
A verdade é que não posso dar-me ao luxo de aprofundar muito as visitas que faço. Antes que o dia termine há que regressar a Joabatão de Guararapes, onde a identidade brasileira se afirmou pela primeira vez, e onde nos espera uma refeição quente preparada pela prima Lúcia, a mulher do Fernando.
publicado por JoaquimMDC às 15:59
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Ouro e pé de moleque
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Um gigantesco templo da Igreja Universal do Reino de Deus com pórtico romano, um exagero de luz e cimento acabado de inaugurar, é a primeira imagem que desta vez me oferece Salvador da Baía, antiga capital do Brasil, cadinho de todas as fusões etno-culturais, terra do candomblé e dos orixás, Património da Humanidade desde a década de 80 do século XX.
O ambiente da rodoviária local é mais agradável, menos confuso. Mas se calhar isso deve-se ao sol radioso e à proximidade de algumas das melhores praias do país. Entro, definitivamente, no domínio da mulata. E ela anda por aí, de calção curto e camisa de laço.

O pequeno autocarro que me conduz ao Pelourinho, coração do centro histórico, onde estão os locais que devo visitar – as igrejas de São Francisco e da Ordem Terceira –, percorre uma orla costeira ponteada com fortes, faróis e luxuosos hotéis. É uma enseada urbana que termina na ponta de Humaíta, onde anualmente decorre a cerimónia da Lavagem do Bonfim, na igreja com o mesmo nome, o mais importante evento do calendário religioso.
Do forte da Barra subimos até ao Campo Grande e à Graça, via avenida Sete de Setembro. Ao avistarmos a praça de Castro Alves sabemos que o Pelourinho é já ao dobrar da esquina. Também na Baía, à semelhança do Rio, os portugueses tentaram recriar uma Lisboa nos trópicos. Comprovam-no a toponímia, os edifícios e o traçado das ruas. O sóbrio edifício da prefeitura, ao estilo dos edifícios municipais portugueses, foi erguido em honra do fundador da Baía de Todos os Santos, e seu primeiro governador, Tomé de Souza. Aqui se ergueram as primeiras casas, com pedra trazida directamente da metrópole.

Nas esplanadas em redor do chafariz oitocentista do Terreiro de Jesus vende-se suco de coco e cerveja e as coloridas baianas de saiote rodado incitam-nos a que provemos do seu acarajé, inspiradas pelo ritmo hipnótico do berimbu que faz rodar os praticantes da capoeira. Há sempre movimento nesta praça, até altas horas da noite.
A rua que conduz ao Pelourinho é um imenso expositor de arte e de artesanato, percorrido por inúmeros turistas. Em Salvador, ao contrário do que acontece nas cidades históricas mineiras, abundam visitantes estrangeiros. O casarão azul que aloja a Fundação Jorge Amado, o mais conhecido dos baianos (se bem que haja vários pretendentes ao título), é o edifício mais vistoso do local onde eram castigados escravos e criminosos. Ironicamente, têm também aqui a sua sede a Casa do Benin e o Centro Cultural da Nigéria, instituições representativas das culturas do Golfo da Guiné, de onde era traficada a mão-de-obra que construiu o Brasil.

A fachada da Ordem Terceira, ramo secular dos franciscanos, chama a atenção pela variedade de motivos rendilhados em pedra. Geométricos, florais, antropomórficos. Bem mais austera, recolhida num nicho, a estátua de São Francisco segurando uma caveira lembra-nos da caducidade das coisas terrenas.
Caracteriza o claustro em frente um belo relógio solar e um admirável conjunto de azulejos que retratam a Lisboa antes do terramoto. Porventura o conjunto pictórico mais importante da época. Infelizmente, muitos dos azulejos estão bastante danificados e o trabalho de recuperação iniciado pela Fundação Calouste Gulbenkian parece ter sido interrompido. Pelo menos disso se queixa Raimundo Couto, o encarregado do património da irmandade.

Estamos na sala de reuniões da directoria e uma sessão acaba de ser liderada por um homem já idoso, português, que, ao contrário de Raimundo, não é atencioso nem se mostra minimamente interessado no motivo que aqui me traz.
Ocupa boa parte da sala uma enorme mesa e várias cadeiras em madeira de jacarandá da Baía.
– Este tipo de jacarandá distingue-se dos restantes por ser de cor castanha, com veios negros em vez das habituais tonalidades amarelas e avermelhadas – informa Raimundo, chamando-me ainda a atenção para os lustres de bacará e a madeira do soalho de cotumuju, uma árvore da região da Baía actualmente em risco de extinção.
As pormenorizadas pinturas do tecto, que retratam cenas bíblicas, obrigam-me a posturas de ginasta para perceber o que é. As portas, muito antigas, foram reforçadas com chapas de ferro, para defesa dos ataques dos piratas franceses e holandeses que assolavam as costas do Brasil.

Fundada em 1635, a ordem dos Irmãos de São Francisco de Assis tinha imensos recursos e os seus membros eram obrigatoriamente ricos e de raça branca. Hoje, felizmente, a condição social é irrelevante. Basta que o candidato seja católico e um irmão o recomende aos restantes.
Estão sob a responsabilidade de Raimundo Couto mais de 170 casas doadas ao longo dos tempos, pois era a forma de muitos irmãos tentarem a sua entrada no paraíso.
– Se chegaram lá ou não, não sabemos – ironiza o baiano.
Essas casas servem para obter rendimentos para manter o lar franciscano, um enorme edifício amarelo que vemos em frente.
Sou confrontado com dezenas de estatuetas de santos, relicários, oratórios, estandartes, andores e paramentos sacerdotais de diversas épocas. Couto chama a atenção para uma pequena estátua do Santo António:
– Olhe as mãos, os pés e o rosto, como são proporcionais. Esta é estátua mais perfeita que conheço. É de gesso. Se fosse de madeira, o seu valor seria incalculável.
Aproveito para espreitar os telhados da cidade. Num primeiro plano, o casario tradicional; num segundo plano, as construções modernas. As pessoas que avisto na íngreme viela que desemboca na Baixa dos Sapateiros, «local a evitar a partir das 6 da tarde», pertencem a uma realidade social bem diferente das que se passeiam pelo Pelô, como apelidam os baianos o principal cartão-de-visita de Salvador.
– Estamos no cocuruto do morro – prossegue Raimundo. – Os antigos eram muito sabidos, tinham isto tudo cercado, para se defenderem dos índios e dos piratas. Sobretudo destes últimos que queimavam usinas e igrejas.
Ao fundo da ladeira, que na época não passava de um precipício de mato e pedra, havia um portão, «do Carmo», que complementava um outro, a sul, na ladeira do São Bento.
Inesperadamente, na igreja, uma mulher começa a cantar. Mas que bela voz de soprano! Canta um momento e depois cala-se, baixando a cabeça, como tivesse acabado de rezar. Observo-a de um dos dois camarotes reservados à alta sociedade. Aos governadores, bispos e capitães de outrora.
– Como eles brigavam muito – esclarece Raimundo – tinha de haver dois camarotes para os separar. Era assim em todas as igrejas.

No exterior, os vendedores de bijutarias com fiadas de colares de missangas pendendo das mãos nervosas, acercam-se das portas da igreja de São Francisco que estão prestes a abrir. A gestão deste valioso património pertence aos franciscanos da Primeira Ordem. Ou seja, aos monges propriamente ditos. A fachada é muito mais sóbria do que a parceira do lado, mas o seu interior é um dos mais exuberantes exemplos do barroco português em todo o mundo.
Entro no átrio e peço para falar com o responsável. Sai-me na rifa um frade com cara de poucos amigos e com sotaque germânico que começa por me dizer que não está autorizado a deixar-me fotografar o interior, mas logo depois diz que sim, que o posso fazer desde que avance com 300 reais que me serão devolvidas quando «providenciar a matéria escrita» referente ao projecto em que estou envolvido. Também devo garantir, por escrito, que as minhas fotos não têm qualquer pretensão comercial.
É claro que declino a proposta e pago o bilhete de entrada para simplesmente visitar o local, sem direito a fotografia. Qual não é o meu espanto quando, ao entrar na igreja – após apreciar as cenas religiosas e campestres dos azulejos que decoram o claustro, também em mau estado –, reparo que toda a gente fotografa e filma o que muito bem lhe apetece, havendo até quem se dá ao luxo de tocar na talha e nas estátuas que estão ao alcance da mão, seguindo, de resto, o exemplo de alguns dos guias.

O interior desta igreja é, de facto, de uma sumptuosidade única, um verdadeiro desafio aos sentidos. Por isso não me dou ao trabalho de apresentar o meu protesto junto ao frade alemão, até porque hoje é Terça Feira da Bênção, dia de copos e concertos gratuitos nos largos de Jubiabá, Teresa Baptista e Quincas do Berro de Água. Esta noite – lembro-me bem da última vez que cá estive – as ruas apertadas transformar-se-ão numa espécie de Bairro Alto tropical.
publicado por JoaquimMDC às 15:55
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O oásis dos beneditinos
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Se em dia soalheiro a avistarmos do alto do Corcovado, de olhos fixos na baía de Guanabara, o Rio de Janeiro é certamente a cidade maravilhosa que todos falam. Mas nada tem de belo quando, num dia cinzento, entro pelo lado oeste, por um istmo que parece uma ponte e uma ponte que parece um istmo, aeroporto do Galeão à minha direita, depois da ilha do Fundão, unida agora à ilha do Governador.
Ao longe, num morro com séculos de histórias para contar, é visível a igreja de Nossa Senhora da Penha. Sinal de modernidade, a ponte que liga Rio a Niterói e os inúmeros arranha-céus.

Estou de regresso ao Rio oito anos depois. Parece-me mais degradado, mais caótico. Os alertas feitos poemas do Profeta Gentileza permanecem nas colunas de cimento que sustentam o viaduto que acompanha o porto em toda a sua extensão, ao longo da avenida Rodrigues Alves. Na parte inferior dessas colunas, sinal dos tempos, o apelo é mais terra a terra. A tenda espírita Búzios e Cartas propõe uma «missão de caridade por apenas 5 reais».

Chego ao Rio de Janeiro sem ter a mínima ideia onde vou ficar alojado. Até aqui contei com o apoio do turismo brasileiro, a partir de agora terei de recorrer aos meus dotes de experiente viajante. Nada que me deixe angustiado. Uma vez que a estada vai ser curta, o melhor é colocar a bagagem no guarda volumes da rodoviária. No processo, vislumbro entre a multidão apressada, duas sotainas negras. Devem ser beneditinos. Pergunto-lhes onde se situa o mosteiro de São Bento, o motivo da minha visita, e um deles responde-me:
– É muito perto. Não mais do que 15 minutos de táxi.
E com quem devo falar? Mauro é seu nome, por Mauro perguntarei.

Apanho o autocarro para a praça de Mauá. Dizem-me que o mosteiro se situa nessa área. Apesar dos dois quilómetros de distância apenas, passo uma hora e meia num infernal pára arranca. Ainda bem que não optei pelo táxi.
O primeiro transeunte que abordo na rua Sacadura Cabral, com pensões baratas mas pouco recomendáveis, aponta na direcção de um arranha-céus com janelas de vidro. «É para ali». Mas…como pode ser? Um mosteiro dentro de um prédio? Imaginem o meu espanto, que pensava ter de subir a um morro...
«Só pode estar escondido». E escondido está. Atravesso a avenida Rio Branco, entro na rua Dom Gerardo, e no número 68 deparo com uma entrada que dá para um minúsculo espaço verde literalmente entalado no betão. A pequena placa acastanhada não deixa dúvidas: «Mosteiro de São Bento».

Não fico muito impressionado com a fachada do convento, embora um céu azul pudesse dar toda uma outra dimensão a esta sobriedade. As torres laterais fazem-me lembrar o castelo de Santa Maria da Feira (recordação da adolescência), e a estrutura em si, o mosteiro e a igreja dessa mesma cidade, que tem as suas origens nos primórdios da nação. Aliás, qualquer câmara municipal do interior português rivaliza em imponência com a fachada deste edifício, onde predomina o granito e as paredes brancas. Os portões são de ferro forjado.
Surpreende-me, isso sim, a informação que encontro na placa de plástico afixada na parede de um edifício ali próximo, onde funciona uma escola: «A ordem beneditina instalou-se neste morro no final do século XVI e iniciou a construção do mosteiro em 1617, e da igreja em 1633. Esta é a terceira mais antiga abadia das Américas. Tombado pelo IPHAN em 1938, o conjunto foi considerado pela Unesco Património da Humanidade.»

Do alto do morro, abrigado pelo frondoso arvoredo que partilha espaço com os automóveis estacionados à frente do monumento, retirando-lhe dignidade, aprecio um pouco do que resta do Rio colonial, oculto por edifícios construídos nas últimas décadas do século passado. A sistemática destruição do centro histórico teve o seu auge quando foram arrasados 540 edifícios de grande valor patrimonial para dar lugar à avenida Presidente Vargas. Olhando para um mapa da cidade, esta via é uma verdadeira cicatriz cortando cerce ruas e vielas de traçado irregular, grande parte delas inspiradas nas ruas da velha Lisboa. Apesar de tudo, não falta história a esta cidade, onde se mantêm preservados muitos pedaços de memória, se bem que seja preciso saber onde estão localizados.

O mosteiro de São Bento é uma dessas relíquias que podem passar despercebidas a quem visita a cidade. Diariamente, várias pessoas deslocam-se à igreja da casa, dedicada à virgem de Montserrat, para apreciar as vésperas, cantados ao estilo gregoriano pelos monges residentes (umas duas dezenas), o que em si é uma atracção turística. Porque se acendem então todas as luzes, esta é a melhor altura para apreciar as tonalidades dos dourados e vermelhos que preenchem tecto e paredes, que da sua base à abóbada estão revestidas de ornatos, pinturas e estatuária, numa policromia que nos deixa rendidos. Em absoluto contraste com todo este fausto, a fachada principal é bastante simples, na linha monástica tradicional.

Frei Mauro, sempre muito prestável, deixa-me aos cuidados de um ou outro frade, para que me mostre o mosteiro por dentro. Começamos pelo claustro, com um jardim e algumas árvores, onde continuam a ser enterrados os irmãos quando morrem. Esta ordem é a única autorizada a fazê-lo, pois foi durante séculos a educadora oficial da família real brasileira.
As datas nas lápides de mármore vão de1767 a 1978. Numa delas, leio: «Mueller Portman, falecido em 2006.»
– Foi o último monge estrangeiro. Agora só temos cá brasileiros – informa o meu anfitrião, ironizando logo de seguida: – Bem. Não é bem assim. Temos aqui alguns mineiros…
É conhecida a rivalidade entre os cariocas e os nativos de Minas Gerais.
No primeiro andar, em toda a área do claustro, funciona a maior biblioteca da América Latina, «não em número de livros mas de títulos», como ressalva o beneditino.

De uma das varandas em granito temos uma excelente vista para a baía e a Ilha das Cobras, «outrora uma das senzalas da ordem». Foi aterrada e tem uma ponte que a liga à cidade. Há guindastes por todo o lado e um grande edifício de finais do século XIX. Entre a ilha das Cobras e o pontão de Mauá, estão dois submarinos e dois navios de guerra, entre várias outras embarcações. Com a ajuda da minha objectiva de 200 milímetros posso ler-lhes os nomes pintados no casco: Tupi e Tamoio. Assim se designam duas das tribos de índios com maior expressão no Brasil.
Este era então, certamente, um dos locais mais aprazíveis da capital, onde as ondas do Atlântico batiam directamente nas fundações do mosteiro. Hoje, o som é outro. Só a extrema grossura das paredes do mosteiro atenua o contínuo ruído do trânsito.
O cruzeiro Costa Mágica, com o pavilhão da União Europeia desenhado no casco, acaba de zarpar do cais e prepara-se para rumar em direcção à ilha de Paquetá. Passará no seu percurso na zona de aproximação ao aeroporto de Santos Dummont. No horizonte avistam-se vários aviões que se preparam para aterrar, com poucos minutos de diferença.
– Vi alguns deles caírem à água – comenta o frade com um enigmático sorriso.

Frei Mauro junta-se a nós para visitarmos uma pequena capela com cortinas carmesim, paredes de talha dourada e tecto de pranchas de madeira azuis, como os tectos das casas antigas. Há ainda estátuas e relicários, de um lado e do outro do altar. De salientar uma tíbia guardado dentro de um molde de uma perna em talha dourada, visível através de um pequeníssimo vidro.
– Pertence a São Vitório – garante frei Mauro.

São muitos os tesouros pertencentes a este convento fundado por dois leigos portugueses, que numa fase adiantada da sua vida decidiram tornar-se monges.
Frei Mauro destaca a imagem da Sagrada Família, «da autoria de Frei António do Desterro, nascido em Viana do Castelo», uma pintura de José de Oliveira Rosa, «o precursor da escola fluminense de pintura», e, ciente do local onde habitualmente resido, chama a atenção para alguma da mobília em pau de jacarandá da sacristia, peças que, segundo ele, «sofreram influências de Macau». Esta influência oriental sobretudo no traje de muitas das estátuas religiosas, tem sido um denominador comum nesta minha viagem sul-americana. Nada de surpreendente, já que o Brasil foi durante muito tempo ponto de escala obrigatório na rota para as Índias. Na ida e na volta.
publicado por JoaquimMDC às 15:52
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O génio de Aleijadinho
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Saímos de Ouro Preto como entramos, pela parte alta da cidade. Visto daqui, o local onde assenta a igreja da Senhora do Carmo assemelha-se à parte alta de Coimbra, onde está a Universidade.
Rumamos a Congonhas do Campo, onde se situa o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, a próxima maravilha a visitar.

Mina da Passagem é uma velha mina desactivada junto ao morro de Santo António, onde inicialmente se instalaram os garimpeiros. Incapazes de a rentabilizar, os seus mais recentes proprietários decidiram encerrá-la, transformando-a posteriormente num pólo de atracção turística.
– Chegaram à conclusão que ganhavam mais dinheiro assim – confidencia o jovem guia, enquanto se prepara para descer connosco os 120 metros que separam o solo do subsolo, numa dessas carrinhas celebrizadas nos velhos westerns.
O guia apressa-se a demonstrar-nos que «nem tudo o que luz é ouro», como diz o ditado. O ouro, ao contrário do que se pensa, só brilha depois de polido. E a propósito do tão apetecido metal, conta-nos um episódio curioso. No passado, os contratadores obrigavam os mineiros a rapar o cabelo e todo o pêlo do corpo e a tomarem banho inteiramente nus no fim da jorna. Só assim se certificavam que nenhuma grama saía da mina por portas travessas. Mas os escravos depressa encontraram um estratagema que lhes permitissem compensar de algum modo a exploração desumana a que eram sujeitos. Passaram a dissimular algum do ouro no pêlo das éguas que puxavam os vagões para a superfície. Quando elas ali chegavam, lavavam-nas, tendo o cuidado de por um balde por debaixo, recolhendo assim o produto traficado. Dessa engenhosa artimanha surgiu a expressão brasileira «lavando a égua», que hoje é considerada uma expressão de sorte.

De novo na estrada, passamos junto a um magnífico casarão colonial do século XIX, antigo quartel dos Dragões do Rei, a cavalaria de elite, onde hoje funciona um seminário salesiano. Mais adiante, uma placa de trânsito junta Ouro Preto a Ouro Branco, povoação não muito distante, também ela, como o nome indica, ligada à extracção do minério. Uma outra placa, com função diversa, autoriza a que circulem nesta estrada veículos com 45 toneladas, pelo menos até ao trevo de Lavras Novas. Trevo, no Brasil, e neste contexto, significa cruzamento.

Estamos na Estrada Real, assinalada nas placas de trânsito e nalguns postes de cimento específicos com a sigla ER, encimada com uma coroa e a cruz de Cristo. Uma outra tabuleta castanha completa a informação: «Compreende-se por Estrada Real os caminhos oficiais, cujos traçados remontam ao século XVIII, e suas variantes, que interligam os centros mineiros ao Rio de Janeiro e São Paulo.»
De colinas verdejantes e pedregosas é feita a paisagem que nos rodeia até chegarmos ao nosso destino. A terra nua, essa, continua a ser vermelha. Num contínuo serpentear, a estrada permite que lhe sigamos o rasto muitos quilómetros à frente.

O morro do Arraial de Congonhas, o sector que me interessa visitar na incaracterística cidade de Congonhas do Campo, é pequeno mas tem uma energia muito forte. Confesso que me surpreende o que vejo cá em cima. Aparentemente, nada de especial: tão só um hotel e duas dezenas de casas (as poucas que têm as portas abertas vendem artesanato), intervaladas por um jardim e algumas palmeiras, como se de um qualquer outro arraial de garimpeiros se tratasse. O declive acentuado no terreno, dominado pelo santuário que lhe dá reputação internacional, e pelo qual se alinham as doze capelinhas de vias-sacras quadrangulares e de tectos ovais, confere ao local um encanto e mistério muito próprios. Certamente contribuem para essa atmosfera, e muito, as enigmáticas estátuas de pedra sabão distribuídas pelo adro da igreja. Parecem estar vivas, fazendo companhia ou dando conselhos às pessoas que por ali circulam.

Para ganhar tempo, junto-me a uns turistas que atentamente escutam um guia de camisola amarela contratado pela Auxílio Pedagógico & Excursões. Graças a ele fico a saber que a fundação do santuário se deve a um tal Feliciano Mendes que encomendou a obra depois de ter considerado que só um milagre do divino o poderia ter curado de uma doença que padecia. Porém, não bastava querer para poder edificar templos no Brasil dessa época. Era necessária autorização eclesiástica, que lhe seria concedida, em 1757. Seriam necessários mais catorze anos para dar por finda a conclusão dos trabalhos.

Tudo aqui transparece a vida e a obra de António Francisco Lisboa, conhecido como o Aleijadinho, nascido em 1738, em Vila Rica de Ouro Preto, filho do escultor e construtor Manuel Francisco Lisboa. A deficiência física que o marcou à nascença não o impediu de emprestar todo o seu talento à arte de esculpir, à qual imprimiria o maior rigor, cumprindo as empreitadas em tempo recorde.
Uma série de conjuntos escultóricos representativos das cenas do calvário de Jesus Cristo – os Passos da Paixão de Cristo, como se diz no Brasil – foi uma das mais importantes encomendas feitas a Aleijadinho. Mas as capelas só seriam construídas alguns anos depois deste «animador de estátuas» – assim o podemos chamar – ter aceitado o pedido. Depois de esculpidas, Francisco Xavier Carneiro, um colaborador de Aleijadinho, pintou-as com cores vivas, podendo nós hoje apreciá-las olhando por entre as frinchas de madeira rendilhada de cor azul das capelinhas.
Esculpidas em pedra sabão, bem mais maleável do que qualquer outra pedra, e muito abundante na região, os 12 profetas são a imagem de marca do artista mineiro. Isaías, Jeremias, Ezequiel, Jonas ou até Joel são nomes que bem conhecemos. Mas quem ouviu falar de Oséias, Baruc, Amós, Abdias, Naum ou Habacuc?
Em apenas cinco anos todas estas estátuas de olhos amendoados, a fazerem lembrar personagens asiáticas, segurando pergaminhos com textos em latim, estavam prontas, tendo sido imediatamente implantadas no adro do santuário para poderem ser devidamente apreciadas, pelas pessoas da época e as das gerações vindouras.
O local é vigiado por um guarda que impede que os mais atrevidos se encavalitem nas obras de arte, para se fazerem fotografar, ou lhes impinjam baixos-relevos de péssimo gosto. A tentação é grande. Partes quebradas e alguns nomes, datas e promessas de amor gravadas na base das estátuas assinalam a incúria do passado.

Também em Congonhas, devido ao afamado Jubileu, e porque não fora feito um pedido de autorização prévio, sou impedido de fotografar o interior do santuário, embora me autorizem a visitá-lo, mas não por muito tempo pois os horários de encerramento são para cumprir… Verdade seja dita: com normas assim, tão apertadas, a vontade de documentar é pouca.
No interior da igreja podem ser apreciados admiráveis retábulos de talha, pinturas setecentistas e diversas estátuas dos mestres Jerónimo Félix Teixeira e Manuel da Costa Ataíde, companheiros de lides do Aleijadinho. O portal do santuário, de pedra sabão, é mais um desses elaborados conjuntos escultóricos de estilo rococó, comum às igrejas de Minas Gerais.

Nas lojas de artesanato não faltam namoradeiras (bonecas que são colocadas à janela, imagem de marca do turismo mineiro) panelas de pedra, «preços de fábrica em panelas de pedra sabão a partir de 12 reais», e colecções dos doze profetas em pedra sabão, mas em miniatura. Nalguns desses estabelecimentos grava-se e pinta-se na hora, em pedra e madeira, tudo o que o cliente desejar, e assegurada está a «fabricação própria de mensageiros do vento» e a venda de relógios e diversa outra bijutaria, «por atacado e varejo». Uma loja, mais original, lança um apelo: «venha conhecer o retrato do Aleijadinho. O génio mestiço, o artista mineiro: António F. Lisboa».

Ricardo empenha-se ao máximo, dando-me todo o tipo de informações a respeito do que vejo e o que não vejo, mas confesso que a minha maior preocupação é o registo de imagens. Assim que o sol dá um ar da sua graça, sempre nesse irritante jogo do esconde-esconde com as nuvens ameaçadoras, percorro o arraial fotografando tudo o que mexe. É que sol assim não passa de vã promessa, e daqui a menos de uma hora temos de regressar a Belo Horizonte.
Também em Congonhas não avisto turistas estrangeiros, embora fossem de esperar, neste recanto que merecidamente detém o título de Património da Humanidade.
publicado por JoaquimMDC às 15:48
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Portugal nos trópicos
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Belo Horizonte, ou Beagá, como carinhosamente lhe chamam os seus habitantes, é a porta de entrada para quem deseja visitar as cidades históricas espalhadas pelo Estado de Minas Gerais. Foi com o ouro extraído das suas serras que se embelezaram os interiores de deslumbrantes igrejas, como a de São Francisco de Assis da Penitência, primoroso exemplo do barroco português, a concurso na iniciativa 7 Maravilhas de Origem Portuguesa.

Tenho à minha espera no terminal rodoviário o Ricardo Meneses Chaves da agência Master, que será o meu guia durante a minha estada em Minas. O programa foi definido pela secretaria de turismo local, que teve essa amabilidade e preocupação, e a ele vou ter de me cingir.
Ricardo começa por me falar das características intrínsecas do mineiro, que é por natureza «recatado, discreto, desconfiado, por vezes». Não tem por hábito embandeirar em arco, tão pouco se convence com conversa mole. Enfim, o mineiro é o oposto do estereótipo aplicado ao brasileiro fora do seu país.

Todo o caminho até Ouro Preto tem o cunho da actividade mineira, o motor económico da região. Como escrevia Carlos Drumond de Andrade, no poema Confidência do Itabirano, esta terra é caracterizada por «noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas».
Outro escritor local, o novelista Guimarães Rosa, costumava dizer que «Minas são várias», para melhor definir um Estado que devido à sua dimensão e variedade paisagística e sociocultural pode ser considerado um verdadeiro país. Comentava Rosa que «Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…»

A paisagem ruraliza-se progressivamente – sempre o verde em contraste com o vermelho. Em certos locais o pó das pedreiras cobre literalmente a estrada e as folhas das árvores. Itabirito significa, em língua tupi, «risco de pedra vermelha». Seguem-se Rio dos Velhos e Vale do Rio Doce. Outrora foi o ouro, hoje é o minério de ferro que aqui é intensamente explorado e exportado para a China. Dizem-me que é transportado, através de um gigantesco tubo e com a ajuda da água, directamente até ao litoral, onde é embarcado nos cargueiros.

Ouro Preto recebe-nos com um nevoeiro cerrado. Os arredores, dada a sua disposição orográfica, fazem-me lembrar as cidadezinhas do Himachel Pradesh indiano. Dalhouse ou Darjelling, antigas possessões britânicas.
Fico alojado no Hotel Pousada do Arcanjo, propriedade de Ângela Carvalho de Freitas, na rua São Miguel Arcanjo. Este é um hotel temático e cada um dos quartos é dedicado a um personagem ligado à Inconfidência Mineira.
O meu aposento honra a memória de Luís Vaz de Toledo Piza. Na parede, um quadro encaixilhado dá a informação necessária. O dito cujo era sargento-mor e descendia de um «dos mais consagrados troncos paulistas». Era homem abastado (à semelhança de todos os inconfidentes), dono de uma extensa fazenda nas proximidades de Vila de São João Del Rei.

Pelo seu casario, igrejas, ruas e becos, Ouro Preto é um decalque de uma vila portuguesa redesenhada no arvoredo subtropical do interior brasileiro. Fundada em 24 de Junho de 1698 pelos bandeirantes paulistas foi a segunda capital de Minas Gerais, logo após Mariana, sua vizinha. Seria o primeiro sítio brasileiro a obter da Unesco, em 1980, o honroso título de Património Cultural da Humanidade.

Vetusta senhora, orgulhosa dos sobrados plantados no alto das colinas, deve a sua designação aos vestígios de metal precioso encerrados em pelotas de óxido de ferro existente na região. É esse mesmo ouro, transformado em talha, que embeleza os interiores das várias igrejas barrocas da cidade. António Manuel Lisboa, o Aleijadinho, é o mais conhecido dos mestres que deram vida a muitas das estátuas que vemos no Museu da Inconfidência e nos templos locais e os das cidades históricas congéneres, caso de Diamantina, Mariana, Tiradentes ou São João Del Rei.
Estar em Ouro Preto é, mais de que um prazer, reler uma das páginas mais significativas da História do Brasil. A cidade é, toda ela, uma obra de arte a céu aberto.

Apesar das providências tomadas por Ricardo, que não para de telefonar às entidades turísticas, procurando obter licenças para que eu possa visitar e fotografar o interior dos museus e das igrejas, a tarefa não se afigura fácil. Estamos em pleno Jubileu e esse é um dos justificativos utilizados pelas autoridades eclesiásticas locais para impedir quaisquer fotografias no interior dos monumentos mais importantes, nomeadamente a igreja de São Francisco de Assis da Penitência, situada no Largo de Coimbra. Ricardo também manifesta o seu descontentamento, mas argumenta:
– A propriedade é deles e por isso o Turismo não tem qualquer jurisdição. Se dizem que não podemos, não podemos mesmo.

Comecemos então pelas ruas empedradas com granito, onde estão as pessoas e se desenrola a vida do dia-a-dia, que essa não precisa de autorização para ser registada. Nesta cidade de dimensão humana, confesso que me sinto pouco confortável ao ser transportado num veículo motorizado até à praça de Tiradentes, onde se ergue a estátua do mártir da Inconfidência, cenário predilecto dos turistas brasileiros para a foto da praxe.
Descemos depois uma curta rua com um declive impressionante e estacionamos junto à Casa dos Contos, na rua de São José. Perto deste antigo local de pesagem e fundição do ouro extraído da região, hoje um dos mais importantes museus da cidade, situa-se um vistoso chafariz e, logo em frente, o cineteatro.
Os automóveis, intrusos, atrevidos, incomodam. Racionalmente falando, é óbvio que o centro histórico deveria ser interditado ao trânsito. Afinal, as tão apregoadas exigências da Unesco para que determinadas cidades continuem a merecer o título de Património da Humanidade, não passam de intenções impressas no papel. O romantismo de Ouro Preto, como o de Colónia de Sacramento, desvanece-se logo que surge a primeira leva de automóveis.

Para quem chega do Rio Grande do Sul, esta cidade é já Brasil profundo. Negra é a cor da pela da maioria dos seus residentes.
Em termos arquitectónicos, a primeira comparação é com a cidade do Porto. Não propriamente pelo traçado urbano, que esse encontra paralelo em várias urbes portuguesas, mas sim pelo declive acentuado das ruas de paralelepípedos. Na baixa, a referência vai toda para Marco de Canaveses ou Amarante, talvez devido à ponte de granito com um cruzeiro implantado, exactamente ao centro, onde os mais devotos acendem paus de incenso, e em cujo banco de pedra costumam descansar as pessoas mais idosas, ou uma ou outra figura típica que parece ter saído de um romance de Machado de Assis. É o caso de negro de chapéu de feltro, certamente descendente directo de escravos, que fica felicíssimo porque lhe tiro um retrato.
– Cruzes em cima das pontes servem para afastar os maus-olhados, pelo menos essa é a crença do mineiro – informa Ricardo.

A Vila Rica de outros tempos, sede dos rebeldes que deram origem ao Brasil independente, é hoje um pólo urbano criativo e dinâmico. Reside aqui uma considerável população estudantil que, à semelhança de Coimbra, se organiza em Repúblicas e participa nas muitas iniciativas culturais que a cidade proporciona.

Fomos almoçar ao restaurante Chafariz, instalado num sobrado do século XVII, em frente à casa onde viveu José Joaquim Xavier, o famoso Tiradentes.
– O local foi salgado para que nada crescesse mais, como era tradição da época – informa Ricardo.

Já que não é permitido fotografar o interior da igreja de São Francisco, limitamo-nos a fazer uma visita breve. Os tectos, as paredes, os altares, os púlpitos e a estatuária em talha dourada, obrigam-me literalmente a abrir a boca e a pender a cabeça para trás, de espanto e maravilha. Mas em breve saímos para o terreiro em frente onde temos oportunidade de apreciar a mestria de artesãos que, de canivete em punho, moldam estatuetas de pedra sabão. Buscam inspiração sobretudo em motivos religiosos – figuras de santos, igrejas, cruzes – mas também recriam objectos comuns como guitarras, corações, instrumentistas, e a frase «mãe te amo». Há ainda pintores de aguarelas e vendedores de jóias, as ditas gemas, ou não estivéssemos em terra de pedras preciosas.
O movimento de turistas é que continua fraco. Avisto apenas uma escandinava de mochila às costas que, alheada de tudo, consulta um mapa sentada junto a uma paragem de autocarro…
Um património destes certamente merecia mais visitantes. Sobretudo estrangeiros.
publicado por JoaquimMDC às 15:44
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